Conflito em Burkina Fasso encabeça ranking de crises que recebem pouca atenção da mídia e da comunidade internacional. Honduras é o único país não africano entre os dez mais negligenciados.
Por Redação, com DW – de Joanesburgo
Pelo segundo ano consecutivo, o Burkina Faso encabeça a relação de nações em crise negligenciadas elaborada pelo Conselho Norueguês para os Refugiados (NRC). O relatório anual da organização humanitária, divulgado na segunda-feira, afirma que há atualmente cerca de 2 milhões de pessoas desalojadas no país da África Ocidental, sendo que a maioria delas não tem acesso a ajuda.
O Burkina Faso, atualmente governado por uma junta militar, enfrenta há anos uma insurgência de grupos jihadistas. A violência no país já deixou mais de 8 mil mortos e forçou pessoas a deixarem seus locais de residência mas de 700 mil vezes no ano passado, o que representa um salto de pouco mais de 60% em relação a 2022.
O ranking de 2023 do NRC foi elaborado através da análise de três critérios em 39 países em crise: déficit de financiamentos, falta de atenção da mídia e iniciativas diplomáticas internacionais fracassadas.
Honduras é o único país entre os dez mais negligenciados em todo o mundo que não é da África Ocidental ou Central. O país na América Central vive uma grave crise de violência perpetrada por gangues rivais e pelo crime organizado.
Os 10 primeiros da lista são Burkina Faso, Camarões, República Democrática do Congo (RDC), Mali, Níger, Honduras, Sudão do Sul, República Centro-Africana, Chade e Sudão.
Segundo o NRC, o Camarões possui quase 1,1 milhão de pessoas deslocadas e meio milhão de refugiados que vivem no país. O terceiro colocado, a RDC, soma mais de 25 milhões de pessoas que enfrentam diferentes situações de emergência.
“Novo normal”
– O negligenciamento completo das pessoas deslocadas se tornou o novo normal – observou o secretário-geral do NRC, Jan Egeland.
– O mundo não está chocado, tampouco se vê impelido a agir em relação às histórias de desespero e estatísticas recordistas – acrescentou. “Precisamos de um reboot global da solidariedade e uma retomada do foco para onde é mais necessário.”
Segundo o NRC, as avaliações anuais apontam para uma queda do apoio internacional e da cobertura de mídia. Isso ocorre, em parte, devido à falta de liberdade de imprensa em muitos dos países relacionados. Além disso, a redução do financiamento humanitário atualmente em curso atingiu o ponto mais alto.
Em 2023, o déficit entre os apelos humanitários e as doações financeiras chegou a somar US$ 32 bilhões (R$ 167 bilhões), afirmou o NRC, o que corresponde a cerca de US$ 10 bilhões a mais do que em 2022. Esse total significa ainda que 57% das necessidades humanitárias nas nações negligenciadas não foram atendidas. A falta de recursos levou ao aumento da fome em todos os países relacionados.
– Precisamos urgentemente de investimentos para as crises mais negligenciadas do mundo. Esses investimentos devem ser feitos tanto na forma de iniciativas diplomáticas, de modo a trazer os diferentes lados dos conflitos às mesas de negociação, quanto através de financiamentos proporcionais às necessidades por parte dos países doadores – concluiu Egeland.