Rio de Janeiro, 05 de Agosto de 2026

A desmonetização e demonização do presidente da FIFA

Por Rui Martins -
Mas quem é Gianni Infantino, o suíço-italiano filho de imigrantes italianos na Suíça, casado com uma libanesa, o poderoso presidente da FIFA

Quarta, 05 de Agosto de 2026 às 18:58, por: Rui Martins

De todos os textos vistos na imprensa e canais sobre a atual crise na FIFA, envolvendo diretamente seu presidente Gianni Infantino, dois me pareceram os mais apropriados e ambos foram utilizados no lead do jornal online francês Mediapart, por isso os transcrevo:
1. “sua corrida desenfreada rumo à mercantilização e seu alinhamento exagerado com Donald Trump acabaram por desmonetizá-lo”;
2. “Como um jogador de pôquer embriagado pelos seus ganhos, Gianni Infantino tentou a jogada além da conta”.

Por Rui Martins, editor do Direto da Redação
Gianni Infantino tenta encontrar uma saída no Marrocos
A palavra usada pelo Mediapart é neologismo originado do Youtube, onde os canais com mais inscritos e visualizações são monetizados. Mas Gianni Infantino além de correr o risco de perder a FIFA e ser desmonetizado por gula, está sendo também devidamente demonizado por crime de tentativa de destruição da Copa do Mundo de Futebol, alegria do povo.

Mas quem é Gianni Infantino, o suíço-italiano filho de imigrantes italianos na Suíça, casado com uma libanesa, o poderoso presidente da FIFA, a poderosa federação dirigente do futebol mundial, que poderia ser caricaturado de chuteiras, calção e camiseta mas, na verdade, se trata de um ditador de terno e gravata que – acabam de descobrir seus diretores e conselheiros – decide tudo sózinho como nesse plano de privatização da FIFA.

Só que exagerou e não terá um longo mandato como o francês Jules Rimet e o brasileiro João Havelange. Gianni Infantino, se renunciar ao seu posto ou se não for reeleito em março, fará lembrar o presidente da FIFA por 16 anos, Joseph Blatter, obrigado a renunciar e banido por seis anos, em meio a um escândalo por corrupção que envolveu também altos funcionários.

Não é o caso de Infantino, mas ele criou uma onda de choque no futebol mundial ao anunciar a privatização das Copa do Mundo com a criação de uma sociedade privada aberta a capitais privados a FFF, FIFA Forward Entreprise, destinada a administrar suas atividades comerciais, podendo reunir mais de 10 bilhões de dólares. Uma revolução numa organização destinada ao desenvolvimento do futebol mundial mas sem fins lucrativos.
Ora, a direção desse grupo de investidores ficaria com Joshua Kushner, irmão do genro de Trump, Jared Kushner.

Infantino poderia se tornar o diretor geral da empresa FFF, acumulando a presidência da FIFA ou nomeando o financista Gregg Maffei, outro próximo do grupo Trump. Infantino teria assim em suas mãos uma verdadeira galinha dos ovos de ouro, mas poderia ser também chamado de novo Rei Midas, por transformar em ouro tudo aquilo em que toca.

Tão logo esse projeto financeiro foi anunciado, para ser aprovado, gerando 40 milhões de dólares para as associações nacionais da FIFA, houve uma reação contrária, primeiro da UEFA que prometeu boicotar a próxima Copa do Mundo do Futebol Feminino de 2027 no Brasil, seguida pela Concacaf. Só não reagiram contra as associações sul-americanas, como a CBF, e as africanas.

Dois principais conselheiros de Infantino na FIFA se demitiram e aumentaram as críticas contra o Mundial de Futebol deste ano em três países, as pausas refrescantes no meio do jogo a pretexto para beneficiar os jogadores, mas na verdade chamadas de pausas para a publicidade nos canais de TV transmissores dos jogos.
Correram críticas ao projeto de se fazer Copas a cada dois anos e de se aumentar de 48 para 64 o número de participantes da Copa, com jogos distribuídos em três continentes, inclusive na Arábia Saudita.
De nada adiantou Infantino fazer marcha-à-ré e retirar o plano, a crise tinha sido criada. Aumentou a pressão  pela demissão de Gianni Infantino que tenta, em Rabat, capital do Marrocos, acalmar os principais dirigentes, mas se não houver demissão, o mais provável é a UEFA encontrar um nome, capaz de reunir a atual oposição, e derrotar Infantino nas eleições de março. No momento, Infantino perdeu a maioria, das 211 associações existentes cerca de 143 estão contra ele. É o fim.

Referências:
Mediapart
https://www.mediapart.fr/journal/international/020826/les-jours-comptes-de-gianni-infantino-la-tete-du-football-mondial

The Times:
https://www.thetimes.com/sport/football/article/world-cup-for-sale-gianni-infantino-fifa-wdvtsqfc6

Le Temps
https://www.letemps.ch/sport/football/faire-de-la-fifa-une-sa-la-derniere-tentation-de-gianni-infantino?srsltid=AfmBOopFowh77raIYvJbvPa-YuqzchqOOD–nxaUJOdGE69my3WtaWg4

https://www.letemps.ch/sport/football/des-cadres-de-la-fifa-prennent-leurs-distances-avec-gianni-infantino-apres-le-projet-de-societe-commerciale-avorte?srsltid=AfmBOordSKAbZg2-VJNMHcsoh8yWuUwm_M_Nyg-3C9AFiCtSwvJpesRR

RTL info:
https://www.rtl.be/sport/football/football-etranger/la-reunion-mysterieuse-dun-homme-dans-la-tourmente-gianni-infantino-echange-huis/2026-08-05/article/796534

Blatter:
https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2015/06/blatter-coloca-cargo-disposicao-e-sugere-novas-eleicoes-fifa.html

Rui Martins, é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

Edições digital e impressa