O estudo mostra que os moradores de 76 comunidades pesquisadas fazem atualmente 1,9 refeições por dia, em média. O que significa que apenas uma refeição – café da manhã, almoço ou jantar – é feita por todos os moradores dos domicílios. O drama dos idosos também foi alvo de pesquisa.
Por Redação, com BdF - de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo
Com o agravamento da pandemia do novo coronavírus e sem nenhum apoio por parte do governo de Jair Bolsonaro (sem partido), a fome já faz milhares de vítimas nas favelas brasileiras. É o que mostra a pesquisa A Favela e a Fome, realizada pelo Instituto Locomotiva em parceria com a Central Única de Favelas (Cufa).
O estudo mostra que os moradores de 76 comunidades pesquisadas fazem atualmente 1,9 refeições por dia, em média. O que significa que apenas uma refeição – café da manhã, almoço ou jantar – é feita por todos os moradores dos domicílios. As demais são suficientes apenas para alguns membros da família, geralmente as crianças.
— Com o fim do auxílio emergencial, o recorde do desemprego e o caos na saúde, a fome voltou à mesa da favela. Nossa pesquisa mostrou que uma família faz hoje, em média, menos de duas refeições por dia. A situação ainda não chegou ao pior estado porque ONGs ainda fazem chegar auxílio às comunidades. Mas vivemos uma situação limite — explicou o presidente do Instituto Locomotiva e fundador do Data Favela, Renato Meirelles.
Doações
A pesquisa ouviu 2.087 pessoas, em fevereiro, e revela que 68% delas teve a alimentação prejudicada em meio à pandemia – com parcela importante chegando a passar fome. Em pesquisa semelhante, feita em agosto de 2020, esse percentual era de 43%. Ainda segundo o instituto, 82% das famílias pesquisadas relataram que não conseguiriam se alimentar diariamente sem ajuda de doações. Além disso, 90% das pessoas disseram ter recebido ajuda em algum momento da pandemia.
Com o agravamento da pandemia e sem auxílio emergencial, 71% das famílias moradoras de favelas tiveram perda de renda, sobrevivendo hoje com cerca da metade do que ganhavam antes do surto. Os entrevistados relataram ainda não ter nenhum dinheiro guardado (93%). No ano passado, 58% dessas famílias recebeu o auxílio emergencial de R$ 600. Dinheiro que também movimentava a economia local, garantindo a sobrevivência dos pequenos comerciantes.
Desde a suspensão do auxílio emergencial, em dezembro, pelo governo Bolsonaro, já são três meses sem praticamente nenhum apoio governamental. Nesta manhã, Bolsonaro, o ministro da Cidadania, João Roma, e os presidentes da Caixa, Pedro Guimarães, e da Dataprev, Gustavo Canuto, anunciaram que o pagamento do auxílio emergencial começa na próxima terça-feira.
No último dia 26, foi publicado decreto que regulamenta o pagamento do auxílio emergencial 2021, instituído no último dia 18 de março por meio de Medida Provisória. O apoio financeiro será pago a trabalhadores informais de baixa renda e aqueles inscritos em programas sociais como o Bolsa Família, caso o novo benefício seja mais vantajoso.
Mais idosos
Durante a atual pandemia; além da fome que atinge as comunidades urbanas mais carentes, houve também a diminuição de renda em quase metade dos domicílios dos idosos, principalmente entre os mais pobres, e o aumento de sentimentos relacionados à solidão e tristeza, sobretudo entre as mulheres. É o que mostra estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgado nesta manhã.
A pesquisa mostrou que 50,5% dos idosos trabalhavam antes da pandemia, dos quais 42,1% sem vínculo empregatício. Durante o período analisado, foi registrada queda na renda em 47,1% dos domicílios, sendo que 23,6% relataram forte redução e até mesmo ausência de renda.
Entre aqueles que trabalhavam sem carteira assinada, a queda na renda ocorreu em 79,8% dos lares e a ausência de renda em 55,3%. A diminuição também afetou de forma mais intensa os que tinham renda per capita domiciliar menor que um salário mínimo. Apenas 12% citaram alguém do domicílio que recebeu algum benefício do governo relacionado à pandemia.
Segundo a principal autora do estudo, Dalia Elena Romero, a crise econômica, o desemprego e a perda de renda já vinham ocorrendo antes do início da pandemia no ano passado.
— A pandemia veio somar os problemas para a saúde e o bem-estar da população idosa — concluiu.