Teerã avalia a criação de um mecanismo semelhante a um pedágio para a travessia do Estreito de Ormuz.
Por Redação, com RFI – de Teerã
A Marinha da Guarda Revolucionária do Irã anunciou nesta quinta‑feira que navios que atravessam o Estreito de Ormuz devem utilizar duas rotas alternativas, próximas à costa iraniana, para evitar a presença de possíveis minas no trajeto habitual.

“Para proteção contra eventuais colisões com minas, em coordenação com a Marinha da Guarda Revolucionária, até nova ordem os navios deverão adotar rotas alternativas para a navegação no Estreito de Ormuz”, informaram meios de comunicação estatais iranianos.
A imprensa oficial citou um comunicado militar acompanhado de um mapa náutico que indica novos itinerários ao sul e ao norte da ilha de Larak. Para entrar no golfo a partir do mar de Omã, as embarcações devem passar entre a costa iraniana e a ilha de Larak.
A rota de saída do golfo contorna o sul da ilha e evita o trajeto tradicional, mais próximo da costa de Omã. Passagens recentes indicam o uso desse itinerário alternativo dentro das águas territoriais iranianas.
Teerã avalia a criação de um mecanismo semelhante a um pedágio para a travessia do Estreito de Ormuz. “Há e haverá uma taxa de passagem”, afirmou ao jornal francês Le Monde uma fonte diplomática iraniana, em reportagem publicada nesta quinta‑feira.
Segundo o Financial Times, o governo iraniano pretende cobrar US$ 1 (0,86 euro) por barril transportado por Ormuz, com pagamento em criptomoeda. Questionado na quarta‑feira por um jornalista da rede ABC sobre a cobrança, o presidente norte-americano, Donald Trump, disse concordar com a ideia e chegou a sugerir a criação de uma empresa comum para repartir os dividendos com o Irã.
– É algo bonito – afirmou. Segundo ele, a iniciativa poderia “proteger” o Estreito, em provável referência à China, grande compradora de petróleo iraniano.
Reabertura do Estreito?
De acordo com o Le Monde, Teerã teria negociado a proposta com o sultanato de Omã. “Mascate informou que manteve conversas com o Irã sobre ‘opções possíveis para garantir uma passagem fluida’ e que as propostas serão analisadas”, declarou Abdullah Baabood, professor omanense especializado em relações internacionais ao Le Monde.
Segundo ele, isso não significa a “aprovação de uma reformulação permanente do Estreito pelo Irã” e a criação de um pedágio formal e permanente seria inviável. Mas o Irã poderia impor, no curto prazo, uma forma de controle de fato da passagem.
Entre 1º de março e 7 de abril, foram registrados 307 trânsitos de navios transportando commodities, segundo dados da Kpler, empresa proprietária do site MarineTraffic — queda de cerca de 95% em comparação com períodos de normalidade.
Em condições habituais, aproximadamente 20% do petróleo bruto e do gás natural liquefeito (GNL) consumidos no mundo passam pelo Estreito, que liga o Golfo Pérsico às principais rotas marítimas globais. Os Estados Unidos e o Irã chegaram a um acordo de cessar‑fogo na noite de terça para quarta‑feira que prevê a reabertura do Estreito.
França
A criação de um pedágio no Estreito de Ormuz seria “inaceitável”, declarou nesta quinta-feira o ministro das Relações Exteriores da França, Jean‑Noël Barrot, ao afirmar que a medida violaria o direito internacional.
– A liberdade de navegação em águas internacionais é um bem comum da humanidade, que não pode ser submetido a obstáculos ou taxas de passagem – disse. “Ninguém aceitaria isso, simplesmente porque é ilegal. As águas internacionais são livres para a circulação de navios”, acrescentou o ministro.
A ministra britânica das Relações Exteriores, Yvette Cooper, também reafirmou a necessidade de livre circulação na passagem em seu discurso anual de política externa, previsto para esta quinta na Mansion House, em Londres.
– As liberdades fundamentais dos mares não podem ser retiradas unilateralmente nem negociadas. Não pode haver pedágio em uma via marítima internacional – afirmou a chefe da diplomacia britânica, segundo trechos divulgados por sua assessoria.
A União Europeia rejeita qualquer ideia de “pedágio” para a travessia do Estreito de Ormuz, onde a liberdade de navegação deve ser mantida, também reagiu um dos porta‑vozes do bloco. “O direito internacional consagra a liberdade de navegação, o que significa exatamente isso: nenhum pagamento nem pedágio, qualquer que seja”, declarou o porta‑voz, Anouar El Anouni.