A medida é uma das principais exigências dos EUA e de Israel para encerrar o conflito no Oriente Médio.
Por Redação, com CartaCapital – de Teerã
O chefe da Organização de Energia Atômica do Irã descartou, nesta quinta-feira, restringir o programa de enriquecimento de urânio do país, uma das principais exigências dos Estados Unidos e de Israel.

– As reivindicações e exigências de nossos inimigos, que buscam restringir o programa de enriquecimento do Irã, não passam de ilusões que serão enterradas – declarou Mohammad Eslami em entrevista à agência Isna.
Os Estados Unidos e o Irã concordaram, na terça-feira, com uma trégua de duas semanas e o início de negociações para pôr fim a uma guerra que causou milhares de mortes e uma grave crise econômica.
A primeira reunião está marcada para esta semana no Paquistão, tendo o enriquecimento de urânio no Irã como um dos principais pontos de discórdia.
– Todas as conspirações e ações de nossos inimigos, incluindo esta guerra brutal, não levaram a nada – afirmou Eslami.
Segundo ele, os Estados Unidos tentam em vão alcançar, “por meio de negociações”, os objetivos que não conseguiram atingir na guerra.
Washington acusa Teerã de estar perto de ser capaz de fabricar uma arma atômica, uma alegação não corroborada pela Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea).
A república islâmica nega ter a intenção de desenvolver uma bomba atômica e afirma que seu programa nuclear tem apenas fins civis.
EUA e Irã
A trégua de duas semanas pactuada entre Irã e Estados Unidos está por um fio, depois que Teerã ameaçou na quarta-feira retomar as hostilidades enquanto Israel lançava um grande bombardeio sobre o Líbano.
Tanto Washington quanto Teerã clamaram vitória após estabelecerem um cessar-fogo de duas semanas e negociações destinadas a encerrar uma guerra que já provocou milhares de mortes em todo o Oriente Médio e causou turbulências econômicas em nível global.
Mas as fissuras do acordo vieram à tona rapidamente quando Israel realizou seus ataques mais intensos contra o vizinho Líbano desde que o grupo xiita Hezbollah, apoiado pelo Irã, se juntou ao conflito no início de março.
Pelo menos 182 pessoas morreram e quase 900 ficaram feridas na quarta-feira, segundo o governo libanês, que decretou a quinta-feira como dia de luto nacional.
Israel assegurou que sua luta contra o Hezbollah não fazia parte da trégua entre Estados Unidos e Irã, acordada nas últimas horas de terça-feira, um argumento reiterado pelo vice-presidente norte-americano, JD Vance, que liderará as conversas com Teerã no Paquistão no fim de semana.
– Se o Irã quer que esta negociação fracasse por causa de um conflito no Líbano, onde estão sendo massacrados — um conflito que não tem nada a ver com eles e que os Estados Unidos nunca disseram que faria parte do cessar-fogo —, essa é uma escolha deles – afirmou Vance antes de partir de Budapeste, na Hungria.
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, no entanto, disse nesta quarta que o cessar-fogo e as conversas com os Estados Unidos são “pouco razoáveis”.
Segundo ele, três pontos do acordo já foram violados com os contínuos ataques no Líbano, a entrada de um drone no espaço aéreo iraniano e a negativa ao direito de o Irã enriquecer urânio.
Beirute
No Líbano, os bombardeios sem aviso prévio provocaram pânico.
– As pessoas começaram a correr de um lado para o outro, e a fumaça subia – disse Ali Younes, que esperava sua esposa perto de Corniche al-Mazraa, uma das áreas atacadas.
Mais de 1,7 mil pessoas morreram no Líbano desde que Israel lançou, no mês passado, bombardeios aéreos e uma invasão terrestre, segundo funcionários locais.
A Guarda Revolucionária, o exército ideológico do Irã, advertiu que “cumpriria com seu dever e daria uma resposta” se Israel não interrompesse os ataques no Líbano, e o Hezbollah indicou que tinha o “direito” de responder.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, garantiu que o seu país permanece preparado para enfrentar o Irã se for necessário, pois ainda tinha “objetivos a concluir”.
Por sua vez, a polícia israelense anunciou que os Lugares Santos das três principais religiões monoteístas — judaísmo, cristianismo e islã — em Jerusalém voltarão a abrir nesta quinta.
Negociações
Essa retórica beligerante acontece antes de negociações de alto risco previstas para a sexta-feira no Paquistão, e depois que o Irã aceitou reabrir temporariamente o Estreito de Ormuz, após a ameaça de aniquilação da “civilização” iraniana por parte de Donald Trump.
Dois navios, um grego e outro com bandeira da Libéria, puderam passar por essa via estratégica por onde passava um quinto da produção de petróleo mundial antes da guerra.
Mas informações indicaram que a estratégica via voltou a ser fechada mais tarde, o que levou a Casa Branca a pedir ao Irã que a reabrisse “imediatamente, de forma rápida e segura”.
O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, cujo país mediou o cessar-fogo, instou, na rede social X, “moderação” a todas as partes.
Apesar da trégua, a imprensa estatal iraniana anunciou novos “ataques com mísseis e drones” nesta quarta-feira contra Estados do Golfo aliados de Washington em represália pelos bombardeios contra suas instalações petrolíferas.
O Kuwait reportou danos em suas usinas de energia e dessalinização durante “uma intensa onda” de ataques.
Os Emirados Árabes Unidos indicaram que foram alvo de 17 mísseis iranianos e 35 drones desde a vigência da trégua, e a Arábia Saudita interceptou nove aeronaves não tripuladas e o Bahrein reportou um ataque contra sua capital, Manama.
‘Tranquilo’
Nesta quarta, os líderes de diversos países europeus, Canadá e Reino Unido afirmaram que deve ser negociado “um fim rápido e duradouro da guerra”, enquanto o Papa Leão XIV saudou um “sinal vivo de esperança”.
Após semanas de turbulências econômicas, o anúncio do cessar-fogo provocou forte queda, de até 15%, nos preços do petróleo, enquanto o gás natural europeu recuou 20%. As bolsas dispararam e o dólar caiu.
Trump afirmou que os Estados Unidos estavam “muito avançados” na negociação de um acordo a longo prazo com o Irã.
Contudo, as exigências de Teerã em matéria de enriquecimento de urânio — um procedimento com o qual, segundo países do Ocidente, o Irã busca obter a bomba nuclear —, sanções econômicas e o controle futuro de Ormuz continuam indo de encontro às de Washington.
Em Teerã, as ruas estavam mais quietas que o habitual nesta quarta, com muitos comércios fechados após uma longa noite de angústia para os moradores, que temiam um ataque americano maciço.
– Agora todo o mundo está tranquilo – comentou Sakineh Mohammadi, uma dona de casa de 50 anos, que afirmou estar “orgulhosa” de seu país.