Rio de Janeiro, 02 de Janeiro de 2026

Nos quartéis, golpe pesa menos do que traição diz analista

Analista discute a condenação de Jair Bolsonaro e generais por crimes e a necessidade de reforma nas Forças Armadas para refletir a diversidade do Brasil.

Sexta, 02 de Janeiro de 2026 às 19:15, por: CdB

Além do chefe da organização criminosa que tentava permanecer no poder tendo perdido nas urnas, Jair Bolsonaro (PL), que é capitão reformado e recebeu pena de 27 anos e três meses de prisão, foram condenados também os generais de quatro estrelas do Exército.

Por Redação, com BdF – do Rio de Janeiro

O ano de 2025 quebrou uma tradição de mais de dois séculos de impunidade na História do Brasil. A partir desse fato, reformar as Forças Armadas, democratizá-las e trazê-las mais para perto da população que elas devem servir passa a ser uma opção, segundo a cientista política e analista militar Ana Penido, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Nos quartéis, golpe pesa menos do que traição diz analista | As Forças Armadas, que detinham alto conceito junto à opinião pública brasileira, perdeu prestígio no fim do governo Bolsonaro
As Forças Armadas, que detinham alto conceito junto à opinião pública brasileira, perdeu prestígio no fim do governo Bolsonaro

Além do chefe da organização criminosa que tentava permanecer no poder tendo perdido nas urnas, Jair Bolsonaro (PL), que é capitão reformado e recebeu pena de 27 anos e três meses de prisão, foram condenados também os generais de quatro estrelas do Exército Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Walter Braga Netto, e o almirante Almir Garnier Santos, que vão cumprir pena por cinco crimes, entre eles golpe de Estado e organização criminosa, que variam entre 19 e 27 anos de prisão.

Já o tenente-coronel Mauro Cid não teve seu processo remitido à Justiça Militar, já que, como resultado do acordo de colaboração premiada, sua pena não superou os dois anos e será cumprida em regime aberto.

— Dentro das Forças Armadas, foi mais grave trair colegas do que tentar o Golpe de Estado disse Penido, em entrevista exclusiva ao site de notícias Brasil de Fato (BdF), nesta sexta-feira.

 

Hierarquia

Segundo a analista política, há muito debate sobre a reforma das Forças Armadas.

— É possível termos Forças Armadas afeitas aos valores da democracia de maneira geral, mas, ainda assim, ela continua sendo uma instituição regida pela hierarquia e pela disciplina. Mas a dinâmica de democracia interna numa instituição militar não é democrática por excelência. Alguém manda e o outro obedece e, no máximo, você constrói mecanismos de reclamação — observou.

Ainda assim, segundo Penido, as Forças Armadas, em particular o Exército, de certa maneira expressam o que é a população, os problemas que temos na estrutura de país.

— Por exemplo, a gente vai ver um Alto Comando todo branco e o recrutamento obrigatório, daqueles meninos que ficam lá um ano só, predominantemente negro de periferia. De outra forma, temos um problema que diz respeita à diversidade ideológica dentro das Forças Armadas que passa por valores da democracia, leituras de mercado, valores sociais, de maneira geral. Não é só democracia, mas até questões comportamentais, como a relação com mulheres, LGBTs etc — acrescentou.

 

Estudos

Todos os estudos realizados em âmbito acadêmico, de acordo com a analista, identificam que eles estão politicamente à direita.

— Não temos tantos estudos metodologicamente estruturados sobre o comportamento ideológico das Forças Armadas, apenas alguns poucos sobre o Exército. Há mais pesquisa sobre as polícias, que indicam essa lógica, posições mais vinculadas à direita, não necessariamente à extrema direita, que hoje ostenta um posicionamento antidemocrático por excelência, mas à essa direita meio “gelatinosa” — pontuou.

 

Oportunidade

Na opinião da acadêmica, “isso é um problema democrático, porque o bom para um país é ter forças que correspondam à diversidade do seu povo, não só nos seus problemas, como o racismo estrutural que perpassa o Brasil e também as forças”.

As chances de uma mudança na formação de oficiais das Três Forças, disse Penido, não é algo que possa ocorrer no curto prazo.

— Não vejo nenhuma iniciativa contundente por parte do Executivo ou do Legislativo nesse sentido. Nada, nada. Acho, inclusive, que estamos perdendo uma super oportunidade histórica — concluiu.

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