Além do chefe da organização criminosa que tentava permanecer no poder tendo perdido nas urnas, Jair Bolsonaro (PL), que é capitão reformado e recebeu pena de 27 anos e três meses de prisão, foram condenados também os generais de quatro estrelas do Exército.
Por Redação, com BdF – do Rio de Janeiro
O ano de 2025 quebrou uma tradição de mais de dois séculos de impunidade na História do Brasil. A partir desse fato, reformar as Forças Armadas, democratizá-las e trazê-las mais para perto da população que elas devem servir passa a ser uma opção, segundo a cientista política e analista militar Ana Penido, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Além do chefe da organização criminosa que tentava permanecer no poder tendo perdido nas urnas, Jair Bolsonaro (PL), que é capitão reformado e recebeu pena de 27 anos e três meses de prisão, foram condenados também os generais de quatro estrelas do Exército Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Walter Braga Netto, e o almirante Almir Garnier Santos, que vão cumprir pena por cinco crimes, entre eles golpe de Estado e organização criminosa, que variam entre 19 e 27 anos de prisão.
Já o tenente-coronel Mauro Cid não teve seu processo remitido à Justiça Militar, já que, como resultado do acordo de colaboração premiada, sua pena não superou os dois anos e será cumprida em regime aberto.
— Dentro das Forças Armadas, foi mais grave trair colegas do que tentar o Golpe de Estado disse Penido, em entrevista exclusiva ao site de notícias Brasil de Fato (BdF), nesta sexta-feira.
Hierarquia
Segundo a analista política, há muito debate sobre a reforma das Forças Armadas.
— É possível termos Forças Armadas afeitas aos valores da democracia de maneira geral, mas, ainda assim, ela continua sendo uma instituição regida pela hierarquia e pela disciplina. Mas a dinâmica de democracia interna numa instituição militar não é democrática por excelência. Alguém manda e o outro obedece e, no máximo, você constrói mecanismos de reclamação — observou.
Ainda assim, segundo Penido, as Forças Armadas, em particular o Exército, de certa maneira expressam o que é a população, os problemas que temos na estrutura de país.
— Por exemplo, a gente vai ver um Alto Comando todo branco e o recrutamento obrigatório, daqueles meninos que ficam lá um ano só, predominantemente negro de periferia. De outra forma, temos um problema que diz respeita à diversidade ideológica dentro das Forças Armadas que passa por valores da democracia, leituras de mercado, valores sociais, de maneira geral. Não é só democracia, mas até questões comportamentais, como a relação com mulheres, LGBTs etc — acrescentou.
Estudos
Todos os estudos realizados em âmbito acadêmico, de acordo com a analista, identificam que eles estão politicamente à direita.
— Não temos tantos estudos metodologicamente estruturados sobre o comportamento ideológico das Forças Armadas, apenas alguns poucos sobre o Exército. Há mais pesquisa sobre as polícias, que indicam essa lógica, posições mais vinculadas à direita, não necessariamente à extrema direita, que hoje ostenta um posicionamento antidemocrático por excelência, mas à essa direita meio “gelatinosa” — pontuou.
Oportunidade
Na opinião da acadêmica, “isso é um problema democrático, porque o bom para um país é ter forças que correspondam à diversidade do seu povo, não só nos seus problemas, como o racismo estrutural que perpassa o Brasil e também as forças”.
As chances de uma mudança na formação de oficiais das Três Forças, disse Penido, não é algo que possa ocorrer no curto prazo.
— Não vejo nenhuma iniciativa contundente por parte do Executivo ou do Legislativo nesse sentido. Nada, nada. Acho, inclusive, que estamos perdendo uma super oportunidade histórica — concluiu.