A investigação começou após o grupo criminoso se apropriar de imagens de uma criança em tratamento de câncer.
Por Redação, com CartaCapital – de Brasília
A Polícia Civil do Rio Grande do Sul deflagrou, nesta terça-feira, uma operação contra um esquema de divulgação de falsas campanhas de doação na internet.

A investigação começou depois que a mãe de uma criança em tratamento contra um câncer relatou à polícia que imagens e vídeos de sua filha eram utilizados em anúncios pagos nas redes sociais para arrecadar falsas doações.
Os agentes identificaram não se tratar de um caso isolado, mas de uma estrutura criminosa organizada, com divisão de tarefas entre seus integrantes.
A tática dos criminosos era criar campanhas fraudulentas de arrecadação, com utilização indevida de imagens, vídeos e histórias reais de pessoas em situação de vulnerabilidade, especialmente crianças em tratamento de doenças graves.
Segundo os investigadores, o golpe se estruturava em etapas: uso indevido de imagens reais, sobretudo de crianças doentes, familiares e campanhas legítimas, para explorar a comoção pública e induzir o público ao erro; anúncios patrocinados, que impulsionavam os conteúdos nas redes sociais por meio de páginas como “Clube de Doadores”, “Doadores com Amor” e “Unidos pelo Amor”; redirecionamento para sites falsos, que imitavam plataformas legítimas de doação; geração de PIX e QR Code falsos; e ocultação dos beneficiários, para dificultar o rastreio dos pagamentos.
Os criminosos recorriam a empresas de fachada e domínios registrados em provedores estrangeiros, além de contas de redes sociais previamente preparadas.
A estrutura criminosa também utilizava recursos de inteligência artificial como deepfake e clonagem de voz, e ferramentas para manipulação de áudio e vídeo, como sincronização labial.
Apenas no caso que deu origem à investigação, a polícia identificou uma movimentação de R$ 294,5 mil diretamente rastreados entre chave PIX e gateways de pagamento. A família da criança nunca recebeu os valores. A apuração também revelou movimentações financeiras muito superiores em contas e empresas utilizadas pela organização, com destaque para uma companhia apontada como hub financeiro do grupo, que teria movimentado mais de R$ 1,7 milhão no período investigado.
Operação Shopia
A operação desta terça-feira leva o nome da criança cuja imagem foi indevidamente utilizada pelo grupo criminoso. Os agentes cumpriram 19 mandados de prisão preventiva e 17 mandados de busca e apreensão em Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Pernambuco. Até a publicação desta matéria, 11 investigados haviam sido presos.
A Justiça ainda autorizou busca e apreensão em endereços residenciais e empresariais vinculados aos investigados, com o objetivo de apreender celulares, computadores, documentos, mídias digitais, dispositivos de armazenamento, cartões bancários, contratos sociais, registros de acesso, credenciais, arquivos de sites, contas em plataformas digitais e outros elementos de prova.
Os investigadores miram os crimes de estelionato mediante fraude eletrônica, organização criminosa e lavagem de dinheiro.