Os ataques realizados pelo Exército israelense continuam no Líbano desde a instauração da trégua, em 17 de abril, especialmente no sul do país, bastião do Hezbollah.
Por Redação, com RFI – de Beirute
Por ocasião do segundo dia de negociações em Washington, Israel e Líbano anunciaram, na sexta‑feira, a prorrogação de seu cessar‑fogo por 45 dias.

No entanto, os ataques realizados pelo Exército israelense continuam no Líbano desde a instauração da trégua, em 17 de abril, especialmente no sul do país, bastião do Hezbollah.
Na quarta‑feira, os ataques causaram ao menos 22 mortos. As múltiplas violações da trégua por Israel e pelo Hezbollah deixaram mais de 400 mortos em quase um mês. Desde outubro de 2023, início das hostilidades entre o Hezbollah e Israel, 21 jornalistas e mais de 330 socorristas foram mortos em ataques israelenses, segundo levantamentos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e das autoridades libanesas. Alguns desses civis foram mortos em ataques duplos – quando o segundo acontece pouco tempo depois do primeiro, no mesmo local – em potencial violação do direito internacional.
Este tipo de bombardeio costuma atingir equipes de resgate, sobreviventes ou civis que se aproximam após o primeiro impacto. Desde a retomada das hostilidades em 2 de março no Líbano, a RFI registrou sete ataques duplos e um quádruplo atribuídos ao Exército israelense.
Em 15 de abril, na aldeia de Mayfadoun, uma ambulância do Comitê Sanitário Islâmico (CSI), financiado pelo Hezbollah, foi a uma área recém‑bombardeada por Israel para tentar socorrer possíveis feridos. Mas, assim que chegaram ao local, um segundo ataque atingiu os paramédicos. Vários ficaram feridos. Um veículo da associação al‑Rissala (ligada ao movimento xiita Amal), que chegou como reforço, também foi alvo.
– Nossos homens foram então enviados à área para tentar salvar as vítimas desses dois ataques de drones israelenses – conta Mohammad Souleymane, chefe dos Socorristas de Nabatieh, uma organização independente de primeiros socorros. “Nossa equipe os colocou nas ambulâncias para evacuação. Um primeiro veículo partiu, e um segundo foi diretamente atingido por um drone, matando nosso colega Mahdi Abou Zeid.”
No total, naquele dia, quatro socorristas foram mortos e outros seis ficaram feridos. Essa técnica de disparos sucessivos “tornou‑se um modo de ação habitual para Israel”, afirma Mohammad Souleymane. Suas equipes já foram alvo três vezes com o mesmo procedimento. Aterrorizadas, elas agora evitam deslocar‑se imediatamente para as zonas bombardeadas.
– Infelizmente, observamos o mesmo com os socorristas na Ucrânia – lamenta Guillaume Ancel, escritor e ex‑oficial francês. “É criminoso, pois os primeiros minutos são decisivos para salvar os feridos.”
Utilizada pelos Estados Unidos no Afeganistão, essa tática foi amplamente adotada pela Rússia e seu aliado Bashar al‑Assad na Síria, e depois na Ucrânia. Ela agora faz parte integral da doutrina militar de Tel‑Aviv, segundo Guillaume Ancel. “Os ataques duplos foram sistematizados pelo Exército israelense por ordem de Netanyahu em Gaza e constituem crimes de guerra”, afirma. “Desde 2023, isso se tornou uma forma de agir quase normal. Então, é verdade que sempre causa um certo desconforto quando ouvimos porta‑vozes tentando nos explicar que é o Exército mais democrático do mundo.”
Dez socorristas mortos
Em 12 de abril de 2026, na estrada de Beit Yahoun, no distrito de Bint Jbeil, um veículo foi atingido por um ataque aéreo. Desta vez, uma equipe da Cruz Vermelha Libanesa foi enviada ao local – e também foi alvo. “A missão havia sido previamente notificada pelos canais habituais, inclusive à Força Interina das Nações Unidas no Líbano, responsável por transmitir ao comando israelense os deslocamentos das equipes de socorro, a fim de garantir a proteção da equipe e a segurança do trajeto”, afirma a Cruz Vermelha Libanesa.
O Exército israelense disse à agência francesa de notícias RFI que o ataque foi dirigido contra um “terrorista do Hezbollah” e acrescentou que haviam recebido relatórios sobre um membro da Cruz Vermelha “ferido”.
A informação é incorreta, já que o socorrista Hassan Badawi foi morto neste ataque israelense com drone. Os números divulgados por Israel sobre combatentes do Hezbollah mortos em seus ataques não puderam ser verificados de forma independente.
Para justificar os bombardeios contra equipes paramédicas, Tel Aviv afirma regularmente que seus veículos são usados para transportar armas do Hezbollah, mas sem apresentar qualquer prova. “Os socorristas não vão levar armas para uma zona que acabou de ser bombardeada. Armas para quê? Para atirar em aviões que já partiram há vários minutos? Isso simplesmente não faz sentido”, afirma Guillaume Ancel. “Usar esse tipo de argumento é claramente uma tentativa de mascarar crimes de guerra, que no fundo são implicitamente reconhecidos, já que isso significa admitir que realmente atingiram socorristas.”
O mesmo modo de operação se repete desde o início de março. Em 16 de abril, após um primeiro bombardeio nas imediações do hospital de Tebnine, no sul do Líbano, que feriu vários funcionários e pacientes, ambulâncias mobilizadas foram alvejadas. Em 28 de abril, na aldeia de Majdal Zoun, várias horas após o bombardeio de um edifício, três socorristas da defesa civil em intervenção, um operador de escavadeira que removia escombros e um civil soterrado foram mortos. Em 12 de maio, diante do centro da defesa civil de Nabatieh, os socorristas Hussein Jaber e Ahmad Nour foram assassinados enquanto atendiam um jovem que acabara de sobreviver a um ataque anterior de drone.
Sobre o ataque em Tebnine, o Exército israelense confirmou os bombardeios: “As alegações de danos ao hospital público da área são conhecidas. É importante destacar que o hospital não era o alvo do ataque, mas sim uma infraestrutura utilizada por terroristas do Hezbollah que operavam na zona.”
Questionado sobre os casos de duplos ataques contra paramédicos, o Estado‑Maior israelense não respondeu.
‘Nós não atacamos vilarejos, mas coordenadas’.
Em 9 de março de 2026, na aldeia cristã de Qlayaa, a quatro quilômetros da fronteira israelense, um míssil atingiu uma casa. Eram 13h22. Os proprietários, Clovis Boutros, professor aposentado, e sua esposa Thérèse, ficaram feridos. O padre da aldeia, Pierre al‑Rahi, e vários vizinhos correram para socorrê‑los. Dezoito minutos depois, um segundo disparo voltou a atingir a área. O pároco foi atingido na artéria femoral. Transferido ao hospital, ele morreu algumas horas depois. Outros três civis também ficaram feridos.
Questionado pela RFI sobre as circunstâncias desse duplo bombardeio em Qlayaa, o Exército israelense não respondeu de forma precisa. “Nós não atacamos vilarejos, mas coordenadas”, afirma uma operadora do serviço de comunicação.
Em 12 de março, outro ataque duplo mergulhou o Líbano em luto. Por volta das duas da manhã, as centenas de deslocados do sul do Líbano que acampam nas calçadas da praia de Ramlet al‑Baida, em Beirute, foram acordados pelo bombardeio de um carro. Segundo Tel‑Aviv, os três passageiros eram membros do Hezbollah e morreram na hora.
Dezenas de pessoas então se reuniram ao redor do carro carbonizado. Um segundo bombardeio atingiu o grupo. Cinco civis foram mortos e 31 ficaram feridos, segundo o Ministério da Saúde libanês.
Amal Khalil assassinada
Duas jornalistas que cobriam a invasão israelense no sul do Líbano também foram vítimas de um ataque duplo. Em 22 de abril, às 14h45, na aldeia de al‑Tiri, um ataque aéreo atingiu um veículo que circulava logo à frente do carro de Amal Khalil, do jornal anti‑israelense al‑Akhbar, e de Zeinab Faraj, jornalista independente. Ilesas, as duas mulheres se refugiaram em uma casa abandonada.
Menos de duas horas depois, a aviação israelense bombardeou o refúgio. Esmagada pelos escombros, Zeinab Faraj ficou gravemente ferida, e Amal Khalil não sobreviveu.

Vinte dias mais tarde, o Exército israelense remeteu à RFI uma mensagem publicada no Telegram na noite do ataque, na qual nega ter cometido um assassinato direcionado, afirmando apenas haver “informações segundo as quais duas jornalistas teriam sido feridas”.
O Exército confirma, no entanto, os dois bombardeios sucessivos, alegando que os veículos visados “ultrapassaram a linha de defesa avançada e se aproximaram das tropas israelenses (que ocupam ilegalmente esse território libanês) de uma maneira que constituía uma ameaça imediata à sua segurança”.
As repórteres estavam claramente identificáveis, desarmadas, usando coletes à prova de balas com a inscrição press (imprensa).
“As forças israelenses afirmam não mirar jornalistas e agir para limitar os danos que poderiam causar”, prossegue o comunicado, que indica que uma investigação está em andamento.
Segundo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), as forças armadas de Israel são responsáveis pela morte de 86 profissionais da imprensa no Líbano e na Palestina em 2025, o que representa dois terços de todos os repórteres mortos no mundo no ano passado.
No que diz respeito aos possíveis crimes de guerra que esses ataques duplos contabilizados pela RFI no Líbano desde 2 de março de 2026 poderiam constituir, o Exército israelense afirma “operar em conformidade com o direito internacional. Nossas forças podem ser levadas a disparar progressivamente várias munições contra um alvo militar, especialmente quando o objetivo operacional não é alcançado pelo primeiro disparo”, afirmou em comunicado.
Foi informado ainda que seu Estado‑Maior “lamenta qualquer dano causado a civis não envolvidos e afirma fazer tudo o que é possível, dadas as circunstâncias, para limitar esses danos”.
Segundo a contagem da RFI, ao menos 19 civis morreram em ataques múltiplos de Israel em dois meses e meio.