Guerra travada por EUA e Israel contra o Irã continua a desviar a atenção da situação na Ucrânia. Especialistas avaliam que, diante atuais cenários políticos, conflito europeu se encaminha para um desfecho.
Por Redação, com DW – de Kiev, Moscou
A guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã continua desviando a atenção da guerra da Rússia contra a Ucrânia. Kiev teme receber menos armas norte-americanas e se prepara para ter de resistir por muitos anos. Enquanto isso, Moscou se beneficia da alta global dos preços do petróleo e do gás. Essa é uma face da realidade neste maio de 2026.

O outro lado é o impasse de fato na linha de frente. Embora no momento nenhum dos lados consiga registrar grandes avanços territoriais, a Ucrânia tem intensificado ataques contra instalações da infraestrutura de transporte de petróleo no interior da Rússia, como em Tuapse, no Mar Negro. O Kremlin vê‑se cada vez mais obrigado a desligar temporariamente a internet móvel no país, e a popularidade do presidente russo, Vladimir Putin, continua em queda.
O que tudo isso significa? Para onde caminha a guerra no quinto ano desde o início da invasão em grande escala? Especialistas e militares ocidentais ouvidos pela agência alemã de notícias Deutsche Welle (DW) à margem do Fórum de Segurança de Kiev, no fim de abril, acreditam que está se aproximando um fim de fato do conflito. Entre os fatores citados estão as eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos.
Putin vai ordenar nova mobilização?
Diante da situação na linha de frente na Ucrânia, especialistas internacionais vêm especulando há semanas que Putin poderia, como já fez em 2022, anunciar uma nova mobilização. Militares ucranianos, citados recentemente pelo presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, também não descartam essa possibilidade.
No entanto, Evelyn Farkas, do Instituto McCain da Universidade Estadual do Arizona, não acredita em uma mobilização ampla na Rússia. Farkas, que ocupou um cargo de alto escalão no Pentágono durante o governo de Barack Obama, aponta problemas na economia russa que, em sua avaliação, devem impedir essa decisão.
Ucrânia está mais independente de armas ocidentais?
Apesar da situação no Golfo Pérsico, Kurt Volker, ex‑enviado especial do Departamento de Estado dos EUA para a Ucrânia durante o primeiro governo de Donald Trump, considera que hoje a Ucrânia está em uma posição mais forte do que antes. Segundo ele, Kiev reduziu significativamente sua dependência de armas ocidentais, cobrindo “60% a 70%” de suas necessidades internamente, e poderia continuar lutando mesmo que os Estados Unidos suspendam o envio de armas através dos europeus.
Há um ano, durante uma visita aos Estados Unidos, Zelensky temia que a Ucrânia pudesse perder a guerra caso o apoio americano cessasse. De acordo com Volker, esse já não é mais o caso. Ao mesmo tempo, ele observa que Washington não pode mais garantir, até o fim do ano, o fornecimento das importantes mísseis para o sistema de defesa aérea Patriot no mesmo nível de antes. O ex‑embaixador dos EUA junto à Otan atribui isso às “prioridades” de Trump, em especial a guerra contra o Irã.
“Zelensky resistirá à pressão de Trump”.
Recentemente, o presidente ucraniano declarou esperar um aumento da pressão da administração Trump até o segundo semestre deste ano. Ele afirmou que Trump deseja que a Ucrânia aceite as condições russas para um cessar‑fogo, especialmente a retirada das tropas ucranianas da parte do Donbass controlada por Kiev. Evelyn Farkas está convencida de que a Ucrânia conseguirá resistir a essa pressão.
A diretora do Instituto McCain prevê que a crise com o Irã esteja resolvida até meados deste ano, que o Estreito de Ormuz volte a ser liberado e que os EUA, então, venham a buscar, conforme anunciado por Trump, uma “mudança de regime” em Cuba. Mesmo nesse cenário, Farkas não prevê uma pressão maior sobre Kiev. Ela avalia que, pelo contrário, isso poderia enfraquecer ainda mais a Rússia, aliada histórica de Havana.
Negociações reais só após eleições de meio de mandato nos EUA.
Tanto Farkas quanto Volker acreditam que as eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, em novembro, podem marcar um ponto de virada. Após o pleito, a posição de Trump e do Partido Republicano poderia ficar enfraquecida. “Isso será suficiente para exercer pressão sobre o governo americano para continuar apoiando a Ucrânia e a Otan”, afirma Farkas.
O presidente do Comitê Militar da Otan, almirante Giuseppe Cavo Dragone, afirma que o conflito é “difícil” de encerrar no campo de batalha e que o Exército russo continua “forte”, apesar das crescentes perdas. A situação econômica, porém, poderia ser um dos fatores capazes de levar Moscou a aceitar um acordo de paz.
– Não acredito que a Rússia vá algum dia concordar com um acordo de paz com a Ucrânia, mas acho que poderá aceitar um cessar‑fogo em algum momento. Creio que estamos nos aproximando desse ponto – diz Kurt Volker, ex‑enviado especial de Trump para a Ucrânia.
Negociações
Segundo ele, as negociações para encerrar a guerra até agora foram uma “farsa”. No entanto, a mudança da situação na Rússia e as perdas provocadas pela guerra poderiam forçar o Kremlin a encerrar os combates. “O que conta é a realidade. A situação na Rússia se deteriorou de forma significativa e continua piorando”, afirma Volker. Sua previsão é clara: o tempo joga contra Putin.
Especialistas divergem quanto ao momento em que um ponto de inflexão militar para Rússia poderá ocorrer. Volker não descarta que isso aconteça ainda este ano e estima a probabilidade em “mais de 50%”. Já Farkas acredita que 2027 será o ano em que “os ucranianos sairão vencedores”.