Rio de Janeiro, 24 de Março de 2026

O caos noticioso digital

Explore como a avalanche de informações digitais afeta a confiança do público e a prática jornalística no Brasil e no mundo.

Terça, 24 de Março de 2026 às 15:12, por: Rui Martins
Já deu para perceber que o nosso mundo informativo mudou muito. O problema é que a mudança atropela nossa capacidade de adaptação à nova situação. Cerca de 70% dos brasileiros se informam hoje apenas pelas plataformas digitais (Facebook, TikTok, Instagram e X). Nos EUA, o total chega perto dos 90%. Jornais impressos viraram itens de coleção. Apesar da fartura de notícias na internet, apenas 17% dos que se informam pelas plataformas confiam no que leem, ouvem ou assistem. 83% do público brasileiro está desconfiado, inseguro e incrédulo.
Por Carlos Castilho, jornalista, doutor em Jornalismo, professor, articulista do Observatório da Imprensa
O caos noticioso digital | O mundo informativo mudou muito e dificulta uma rápida adaptação.
O mundo informativo mudou muito e dificulta uma rápida adaptação.

Isto acontece porque a avalanche informativa na internet quebrou uma forma de acessar notícias vigente desde o surgimento da imprensa, lá por meados de 1800. Como havia pouquíssimas fontes de informações, as pessoas liam o que saía publicado num jornal e acreditavam que aquilo era a expressão acabada da verdade e da realidade. O jornalismo radiofônico consolidou esta conduta que foi também a que orientou todos os telejornais desde março de 1948, quando surgiu o NBC News, nos Estados Unidos.

Agora, a superoferta de notícias combinada à participação direta do público permitiu o acesso das pessoas a várias versões do mesmo indicador numérico, fato ou evento, um fenômeno que se acentuou à medida que aumentou o volume de dados inseridos na internet. Vai crescer ainda mais com a inteligência artificial. A consequência é que a velha teoria de ouvir os dois lados de um fato, uma espécie de dogma do jornalismo, acabou superada pela realidade digital. Não há mais apenas dois lados de um fato. Há vários, teoricamente uma infinidade, o que tornou a tarefa jornalística algo muito complexo.

Pesquisar em vez de desconfiar

Esta mudança radical de paradigmas na produção e consumo de notícias não foi acompanhada por uma preocupação em adequar tanto jornalistas como o público à nova situação. A adaptação agora tornou-se imperativa porque o nível de desorientação, desentendimento e insegurança de todos os protagonistas do processo de produção e consumo de informações está chegando a um nível caótico e potencialmente bélico, como têm revelado a cobertura e as reações do público diante de guerras recentes, como em Gaza, na Ucrânia e agora no Irã. Num ambiente de caos noticioso, aumenta exponencialmente a dificuldade para identificar o que é notícia falsa ou desinformação.

A questão não é desconfiar de tudo o que é publicado porque isto pode levar a uma paranoia noticiosa, mas entender que as informações são e serão sempre incompletas. É uma decorrência natural do fato de que, como seres humanos, nossas percepções dependem, por exemplo, de nossa formação cultural, nível de informação, situação econômica, origem étnica e localização geográfica. A metáfora do copo meio cheio ou meio vazio é um exemplo clássico das diferenças de percepção entre indivíduos. Ao ler um jornal ou ver um telejornal, ainda nos deixamos condicionar pela herança do jornalismo pré-internet e não levamos em conta a complexidade dos dados, fatos e eventos que acessamos na imprensa. O mesmo acontece nas redações porque a avalancha informativa não dá tempo para avaliações mais cuidadosas do material a ser publicado.

O princípio básico da reeducação informativa é que as notícias, por serem produzidas e consumidas por humanos, serão sempre, inevitavelmente, incompletas. O objetivo é levar as pessoas e os jornalistas a uma mudança de uma postura defensiva (é preciso desconfiar) para uma atitude proativa (preciso saber mais), ao ler, ouvir ou ver uma notícia jornalística. Nos meios acadêmicos, a nova abordagem da informação passou a ser conhecida como literacia ou letramento, uma tradução aproximada da palavra inglesa literacy, cujo significado envolve o desenvolvimento de uma abordagem crítica das informações e notícias.

Esta mudança de atitudes é importantíssima porque substitui a simplista abordagem da notícia entre sim ou não, verdadeiro ou falso, pelo reconhecimento de que nenhuma informação é completa, bem como nenhuma notícia é 100% verdadeira. A dicotomia noticiosa clássica favorece o surgimento de confrontos de opinião e a polarização, porque cada lado se assume como detentor da verdade. Já o reconhecimento de que nada é completo incentiva o compartilhamento e a colaboração, porque admitimos que alguém sabe o que nós não sabemos.

Cabe ao jornalismo iniciar o processo de reeducação informativa do grande público porque nosso métier é lidar com a informação e a relação dela com as pessoas comuns. Evidentemente, esta mudança de rotinas, regras e valores afetará muito a forma como o jornalismo é exercido em ambientes digitais. Lidar com a avalanche de versões publicadas em plataformas digitais, tentando descobrir o que é fato e o que é versão, consumirá muito tempo dos profissionais. A reeducação informativa exigirá mudanças ainda mais complexas em quase toda a rotina, nas regras e nos valores de um novo jornalismo, onde a dúvida será o principal motor da atividade em vez de algo a ser eliminado. (publicado originalmente no Observagório da Imprensa)

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Por Carlos Castilho, jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.

Direto da Redação é um fórum de debates publicado no Correio do Brasil pelo jornalista Rui Martins.

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