Na reta final da disputa eleitoral, movimentos táticos, alianças e gestos políticos ganham peso diante de um cenário acirrado e podem influenciar os rumos da campanha.
Por Luciano Siqueira – de Brasília
De tudo o que li das grandes batalhas da História e que aprendi no curso de seis décadas de militância, depreendo que próximo ao desenlace de uma grande batalha, nos últimos movimentos das forças litigantes, detalhes podem fazer a diferença.

Dito assim de modo meio que alegórico, parece algo muito complexo, mas na verdade não é.
Caso das eleições presidenciais do Brasil desde a superação do regime militar.
No segundo turno do confronto Lula versus Collor em 1989, a edição distorcida do último debate entre os oponentes, divulgada no Jornal Nacional, da TV Globo, todos os analistas concordam, teve peso decisivo na apertada vitória do alagoano.
Já em 1992, na vitória sobre o tucano José Serra, a poucos dias do pleito Lula divulgou a conhecida “Carta aos brasileiros”, contendo uma afirmação para muitos quase despercebida, porém de importante peso político específico — a de que, eleito presidente, não mudaria substancialmente “as regras do jogo” da política macroeconômica.
Elite
Aí residiu a sinalização para importante segmento da elite dominante que admitia arrefecer suas resistências ao futuro presidente mediante entendimento prévio, que envolveu, inclusive, o futuro ministro da Fazenda, José Palocci.
(Vários outros exemplos seria possível mencionar, incluindo a vitória em acirradas disputas pelo governo estadual de Pernambuco, nas quais o autor dessas breves linhas teve participação ativa, representando o PCdoB, no comando de coligações de centro-esquerda.)
Que tem a ver o comentário com as eleições de agora, que caminham para reta final?
Tudo.
Em vários aspectos, da simples correção de um atraso absurdo na confecção das peças impressas de campanha do presidente Lula à desafiante possibilidade de diálogo com setores desgarrados do campo adversário.
Apenas um exemplo: por que o diário conservador paulistano Folha de S. Paulo e o Estadão vêm desancando o candidato Flávio Bolsonaro, o único competitivo da oposição?
Ora, ambos os veículos pontificam no complexo midiático neoliberal como atores ativos na defesa dos interesses do núcleo essencial da elite dominante — o capital financeiro, o grande agro exportador e os monopólios do varejo.
Ao baterem tão duro no candidato da extrema direita, não apenas confirmam que essa elite não se vê contemplada nem confia no principal candidato oposicionista, como admite, em algum grau, entendimento com a frente ampla reunida em torno do presidente Lula para evitar o “mal pior”, que seria a eleição do corrupto, incompetente e desastroso filho do ex-presidente encarcerado.
A julgar pelas pesquisas mais recentes, a peleja está tecnicamente empatada, exigindo o máximo de flexibilidade (sem abrir mão da essência dos compromissos com a nação e com o povo) no esforço de atrair, ou pelo menos neutralizar, setores desgarrados das hostes oposicionistas.
Situação semelhante também se verifica em algumas disputas por governos estaduais.
João Amazonas dizia que na História das pelejas transformadoras, mundo afora, jamais foi possível vencer sem subtrair do campo inimigo parte das suas forças mais ativas e influentes.
Portanto, “detalhes” importam, sim. E, como dizia o poeta, “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
Luciano Siqueira, é médico membro do Comitê Central do PCdoB e secretário nacional de Relações Institucionais, Gestão e Políticas Públicas do partido, foi deputado estadual em Pernambuco e vice-prefeito do Recife.
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