Até na guerra em seu sentido mais brutal a inteligência artificial já deixou de ser detalhe técnico. Drones guiados por […]
Por Carlos Seabra – de São Paulo
Até na guerra em seu sentido mais brutal a inteligência artificial já deixou de ser detalhe técnico. Drones guiados por sistemas cada vez mais autônomos, reconhecimento de alvos, cruzamento instantâneo de dados, vigilância ampliada e decisões aceleradas por máquinas estão mudando a forma de ocupar, perseguir e matar. A tecnologia já entrou no centro dos conflitos contemporâneos. Seria ingenuidade imaginar que, diante disso, ela não alteraria também a guerra cultural, a disputa política e a luta pela hegemonia.

Quando se fala em inteligência artificial, muita gente ainda se detém na superfície: textos gerados em segundos, imagens vistosas, vídeos sintéticos, vozes artificiais, memes, automações. Tudo isso impressiona. Mas o centro da questão está em outro lugar. A IA não é apenas uma nova ferramenta de produção de conteúdo. Ela passou a integrar a estrutura de poder que organiza visibilidade, alcance, prioridade, monitoramento e influência social.
A pergunta decisiva, portanto, não é se a inteligência artificial é boa ou ruim. Essa forma de colocar o problema, além de pobre, desvia do essencial. O que importa não é o que a IA faz ou deixa de fazer – o que importa é quem a controla! Quem controla os sistemas, os dados, os algoritmos, as plataformas e a infraestrutura de circulação controla boa parte da disputa contemporânea pelo imaginário social. O que está em disputa é o poder.
A disputa sobre a IA não envolve apenas comunicação e narrativa, mas também trabalho, concentração de riqueza, soberania tecnológica e apropriação social dos ganhos de produtividade.
A mensagem
McLuhan, teórico canadense da comunicação, foi lembrado à exaustão pela frase de que “o meio é a mensagem”. A frase está atualíssima porque chama atenção para algo decisivo: a forma da comunicação altera o conteúdo social do que circula. Mas hoje é preciso acrescentar uma camada que se tornou incontornável. O meio cada vez molda mais a mensagem. Mas os meios têm donos. E esses donos definem e programam as regras da circulação.
As grandes plataformas não são canais neutros. Elas selecionam, priorizam, repetem, escondem, recomendam, impulsionam e abafam. Organizam a atenção coletiva. Interferem no ritmo do debate público. Condicionam o alcance da palavra política. Definem, por meios opacos, o que aparece mais, o que desaparece mais rápido e o que se converte em sensação dominante do momento.
É por isso que já não basta repetir a crítica clássica à velha concentração dos meios de comunicação. Ela segue necessária, mas agora é insuficiente. O problema não está apenas em quem possui jornal, rádio ou televisão. Está também em quem controla dados, sistemas de recomendação, métricas de engajamento, publicidade segmentada e a arquitetura invisível que filtra o que milhões de pessoas verão a cada dia.
Em termos políticos, isso significa que a esfera pública foi privatizada em novo patamar. A luta de ideias está mais presente que nunca, mas acontece num terreno tecnicamente moldado por interesses privados, sobretudo pelos grandes grupos tecnológicos, as tais Big Techs. A guerra cultural deixou de ser apenas disputa de narrativa. Tornou-se também disputa pelas condições materiais da circulação da narrativa.
Memes
É claro que a inteligência artificial pode ser útil para as forças populares. Pode acelerar a produção de memes, imagens, vídeos curtos, animações, legendas, roteiros, resumos, variações de linguagem e respostas rápidas a fatos políticos. Pode reduzir enormemente custos de produção. Pode ampliar agilidade. Pode melhorar a capacidade de reação diante da velocidade imposta pelas redes.
Isso não é pouco. Num ambiente saturado por estímulos, rapidez importa. Capacidade de adaptação importa. Linguagem adequada a cada plataforma importa. Seria um erro desprezar essas possibilidades e deixar que apenas a direita e o mercado ocupem esse terreno.
Mas seria erro ainda maior confundir agilidade com consciência política. Meme não substitui formação, não substitui organização, não substitui programa. Um meme pode satirizar o adversário, condensar uma crítica, abrir uma porta, chamar atenção. Não mais do que isso. Se a política se resumisse a peças rápidas de impacto, a história seria escrita por publicitários e não por sujeitos coletivos organizados.
A esquerda precisa usar esses instrumentos sem fetichismo. O problema de parte do debate tecnológico é justamente esse: ou se cai no deslumbramento, como se a máquina fosse solução mágica ou se cai na recusa nostálgica, como se fosse possível disputar o presente ignorando as mediações técnicas do presente. Nenhuma dessas posições ajuda.
Redes
Também não existe “a rede” em abstrato. Cada plataforma tem lógica própria, ritmo próprio e efeito político próprio. Há ambientes mais voltados ao confronto imediato e à excitação permanente. Há outros mais úteis à organização de núcleos, à comunicação direta e à fidelização de comunidades. Há espaços em que a imagem vale mais do que o argumento. Há espaços em que a velocidade destrói nuance. Há espaços em que a repetição cria familiaridade e aparência de verdade. E o filtro do que é impulsionado e do que é escondido tem fortes componentes ideológicos escamoteados em algoritmos sem transparência.
Por isso, uma comunicação política minimamente séria não pode agir no escuro. Não basta publicar muito. Não basta estar presente. Não basta repetir palavras de ordem. É preciso estudar formatos, linguagens, públicos, tempos de reação, padrões de alcance e formas específicas de circulação.
Estudar os algoritmos não é fetiche tecnocrático. É parte da luta política contemporânea. Quem não compreende minimamente como funcionam os mecanismos de distribuição de conteúdo entra no conflito usando instrumentos definidos pelo adversário e em terreno desenhado por ele. Numa guerra cultural, isso cobra preço alto.
A inteligência artificial também pode ajudar a organizar dados, acompanhar reações, agrupar comentários, identificar temas recorrentes, mapear dúvidas, detectar padrões de ataque e perceber tendências. Isso é importante. Fazer comunicação sem observar resultados é agir por impulso. E impulso, sozinho, não sustenta estratégia.
Mas aqui também é preciso manter a cabeça no lugar. Dados não pensam sozinhos. Painéis não substituem análise. Métrica não substitui linha política. O risco é transformar a ação militante em culto à performance, confundindo ruído com força real, viralização com convencimento, curtida com organização.
O que precisamos não é de submissão à lógica da plataforma, mas de inteligência militante. Isto é, capacidade coletiva de ler o ambiente, interpretar sinais, compreender disputas, ajustar a linguagem e manter direção política. A técnica deve servir ao projeto. Nunca o contrário.
Extrema direita
A extrema direita percebeu cedo o potencial das redes para produzir medo, ressentimento, simplificação e mentira em escala industrial. Entendeu a eficácia da repetição, da provocação permanente, da deformação do adversário e da mobilização baseada em afeto regressivo. Fez da comunicação digital uma máquina de agitação contínua.
A tarefa da esquerda não é copiar esse método. Não é repetir sua lógica. Não é trocar horizonte histórico por reflexo condicionado. Nossa tarefa é construir outra forma de presença tecnológica: mais clara, mais organizada, mais enraizada, mais ligada ao povo real e menos dependente da espuma do instante.
É precisamente aqui que a inteligência artificial entra como terreno de disputa. Ela pode ser usada para aprofundar manipulação, vigilância e barbárie. Mas pode também ser apropriada como apoio à formação, à mobilização, à sistematização de informações, à produção de materiais e à ampliação da capacidade de diálogo popular.
O desafio imediato: eleger nossos candidatos.
Tudo isso ganha peso maior quando pensamos nas eleições. Não haverá disputa vitoriosa se tratarmos a comunicação como apêndice, improviso ou tarefa lateral. A batalha eleitoral exigirá articulação entre rua, rede e organização. A rua dá enraizamento. A rede dá escala. A organização dá continuidade. Sem essa combinação, a estratégia manca.
Precisamos de mensagens claras, capacidade de resposta rápida, leitura de tendências, coordenação entre linguagens e disciplina política para não desperdiçar energia em vaidades digitais. Precisamos usar a técnica para fortalecer o trabalho político real. Precisamos transformar presença nas redes em apoio, confiança, voto e militância.
No fim, a pergunta decisiva continua sendo a mais simples. Quem controla a inteligência artificial? Quem controla os dados? Quem controla as plataformas? Quem controla os critérios de visibilidade? Porque é daí que sai a resposta sobre a quem a tecnologia serve.
Se ficar nas mãos dos monopólios privados, do rentismo digital e das máquinas de manipulação, a IA servirá para ampliar dominação. Se for disputada politicamente, regulada democraticamente e apropriada pelas forças populares, pode ajudar na formação de consciência, na mobilização social e na construção de maioria.
Por isso, diante da inteligência artificial, nossa tarefa não é admiração nem medo. É disputa política. E essa disputa precisa estar a serviço de um objetivo concreto: eleger nossos candidatos, fortalecer um campo democrático e popular, enfrentar a extrema direita e recolocar o povo no centro do destino nacional.
Carlos Seabra, é presidente do Sindicato dos Escritores de SP, é autor de livros didáticos e de literatura infantil e juvenil. Editor de publicações e produtor de conteúdos culturais e educacionais de multimídia e internet, criador de jogos, palestrante, consultor e coordenador de projetos culturais e de tecnologia educacional.
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