Esse desgaste também aparece nos sistemas de defesa aérea empregados pelos Estados Unidos.
Por Redação, com RFI – de Nova York
A guerra no Irã vem consumindo rapidamente parte dos recursos militares dos Estados Unidos, mesmo diante de sinais de arrefecimento das tensões em outros pontos da região

Devem falar o secretário de Defesa, Pete Hegseth, e o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, principal autoridade militar do país. A expectativa é que ambos detalhem o ritmo das operações e respondam a questionamentos sobre a sustentabilidade do esforço militar em um cenário no qual a demanda por armamentos de alta precisão supera padrões históricos de consumo.
Um levantamento publicado pelo The New York Times mostra que, em pouco mais de um mês de conflito, os Estados Unidos já utilizaram cerca de 1,1 mil mísseis de cruzeiro de longo alcance, armamentos estratégicos tradicionalmente reservados para cenários de confronto com grandes potências, como a China.
Também foram disparados mais de mil mísseis Tomahawk – volume aproximadamente 10 vezes superior ao que o país costuma adquirir em um ano -, indicando que, apesar de tréguas pontuais em outras frentes do Oriente Médio, a guerra no Irã segue impondo um desgaste significativo às capacidades militares norte-americanas.
Esse desgaste também aparece nos sistemas de defesa aérea empregados pelos Estados Unidos. De acordo com dados citados por autoridades do Pentágono, mais de 1,2 mil mísseis do sistema Patriot foram utilizados desde o início do confronto. Cada interceptador custa mais de US$ 4 milhões, o que reforça as preocupações internas sobre a velocidade de reposição desses meios em caso de um conflito mais amplo ou prolongado.
O Pentágono afirma ter atingido mais de 13 mil alvos em pouco mais de um mês de guerra, mas não divulga o número total de munições empregadas nas operações. Especialistas em estratégia militar observam que a quantidade de alvos, por si só, não reflete toda a dimensão da campanha, já que uma mesma posição pode ser atacada repetidas vezes por aviões tripulados, drones, artilharia e mísseis de cruzeiro.
Além do impacto operacional, o custo financeiro da ofensiva também chama atenção em Washington. A Casa Branca evita apresentar uma estimativa oficial, mas dois centros de pesquisa independentes calculam que a guerra já tenha consumido entre US$ 28 bilhões e US$ 35 bilhões – o equivalente a quase US$ 1 bilhão por dia -, num momento em que o governo tenta equilibrar compromissos militares externos e pressões orçamentárias internas.
Ormuz
A pressão militar ocorre em paralelo à disputa pelo controle do Estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes do mundo para o transporte de petróleo. Donald Trump voltou a afirmar que os Estados Unidos têm “controle total” sobre a passagem, mas os acontecimentos recentes indicam um cenário mais instável.
Os dois lados intensificaram as apreensões e inspeções de navios, enquanto Donald Trump ordenou que a Marinha dos EUA afundasse todas as embarcações que estivessem instalando minas no estreito.
Na prática, hoje há um bloqueio duplo. Os Estados Unidos conseguem dificultar a saída de embarcações ligadas ao Irã, mas ainda não demonstraram capacidade de garantir a passagem segura de navios que saem de países aliados no Golfo. Esse impasse mantém o fluxo de petróleo sob risco e pressiona os preços internacionais, que giram em torno de US$ 100 por barril.
Outro ponto de preocupação é a presença de minas marítimas. Um relatório citado pelo The Washington Post aponta que pode levar até seis meses para limpar completamente as rotas suspeitas no estreito. O Pentágono contestou a informação, mas não apresentou uma estimativa alternativa.
Segundo a CNN, autoridades militares norte-americanas já trabalham em novos planos para conter o Irã caso o cessar-fogo seja rompido. A estratégia envolveria “alvos dinâmicos”, ou seja, ataques rápidos e flexíveis contra embarcações de ataque, navios usados para instalar minas e outros recursos que permitiram a Teerã restringir a navegação no Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico e no Golfo de Omã.
Líbano e Israel
Ao mesmo tempo, Trump anunciou que Israel e Líbano concordaram em estender por três semanas o cessar-fogo na fronteira, após negociações na Casa Branca. Mas o alcance da trégua ainda é incerto, já que o Hezbollah, diretamente envolvido no conflito, não participou das conversas e não comentou o acordo.
Mesmo durante o cessar-fogo anterior, confrontos continuaram sendo registrados. Um ataque israelense matou a jornalista libanesa Amal Khalil, conhecida por cobrir o sul do Líbano.
Trump também sinalizou que não pretende acelerar um acordo mais amplo com o Irã. Questionado sobre quanto tempo estaria disposto a esperar por uma solução diplomática, respondeu: “Não me apresse”. O presidente disse querer “o melhor acordo possível” e voltou a afirmar que a capacidade militar iraniana estaria praticamente destruída.
Teerã, por sua vez, recusou participar de negociações com os Estados Unidos mediadas pelo Paquistão. O governo iraniano afirma que não pretende negociar enquanto Washington mantiver ações militares, como o bloqueio naval.