Houthis do Iêmen, que vinham se mantendo discretos na guerra Irã-EUA, anunciam bloqueio a portos sauditas. Ação pode castigar ainda mais fluxo de petróleo do Golfo, já prejudicado por crise em Ormuz.
Por Redação, com DW – de Teerã
Os rebeldes houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, anunciaram nesta segunda-feira um embargo marítimo contra a Arábia Saudita. A medida pode elevar ainda mais a tensão no Oriente Médio e ameaça castigar mais o mercado internacional de petróleo, que já vem sentido os efeitos da retomada da guerra entre os EUA e o regime iraniano e o contínuo bloqueio do Estreito de Ormuz.

Os rebeldes houthis declararam “um bloqueio marítimo contra o inimigo saudita criminoso, com base na lógica de ‘olho por olho’, com efeito imediato a partir da emissão desta declaração”, afirmou o porta-voz militar houthi Yahya Saree em um comunicado em vídeo.
Ele disse que a medida era uma resposta ao bloqueio saudita de “portos e aeroportos” houthis e a um ataque ao aeroporto de Sanaa na semana passada, acrescentando que responderiam ao “bloqueio com um bloqueio”.
– Qualquer ato insensato cometido pelo imprudente inimigo saudita, por meio de qualquer escalada, será respondido com uma escalada abrangente e decisiva – acrescentou Saree.
Na semana passada, as hostilidades se intensificaram no conflito iemenita — que estava em grande parte inativo —, à medida que o Irã, por meio de seus aliados da milícia houthi, parecia desafiar a hegemonia saudita sobre o espaço aéreo do Iêmen.
Os houthis dispararam mísseis contra um aeroporto na cidade de Abha, no sul da Arábia Saudita, na segunda-feira passada, depois que o governo do Iêmen informou ter atingido o aeroporto de Sanaa para impedir a chegada de um voo vindo do Irã que transportava uma delegação houthi.
Os houthis atribuíram a responsabilidade pelo ataque aos sauditas, que apoiam o governo iemenita.
Há mais de uma década, aeronaves que entram no espaço aéreo do Iêmen precisam de autorização prévia da coalizão liderada pela Arábia Saudita, que apoia o governo iemenita e afirma aplicar essa restrição a pedido das autoridades governamentais.
Como parte da guerra em Gaza, os houthis já haviam atacado embarcações no Golfo de Aden e no Mar Vermelho — rota que leva à Europa via Canal de Suez —, forçando os navios a fazerem longos desvios contornando a África.
O Mar Vermelho também abriga o porto saudita de Yanbu, por meio do qual Riad tem conseguido exportar milhões de barris de petróleo, contornando o bloqueio imposto pelo Irã ao Estreito de Ormuz e ao Golfo Pérsico durante o conflito com os Estados Unidos.
Riscos
Não está claro como os houthis pretendem impor um bloqueio marítimo da Arábia Saudita — seu vizinho ao norte, ao longo da costa do Mar Vermelho — ou se isso incluiria ataques a embarcações.
O Iêmen está situado em frente ao estreito de Bab el-Mandeb — a porta de entrada sul para o Mar Vermelho — e a possibilidade de fechamento dessa via abriria uma nova frente na crise energética e no conflito mais amplo do Irã com os EUA.
Com o fluxo em Ormuz já prejudicado, o Mar Vermelho tornou-se uma rota alternativa crucial para o escoamento de parte do petróleo saudita para a Ásia.
Com Ormuz fechado pelo Irã, os sauditas desviaram mais de 70% de suas exportações diárias habituais de petróleo bruto para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, por meio de um oleoduto. Os navios que partem de Yanbu com destino à Europa seguem para o norte, passando pelo Canal de Suez, que corta o Egito; aqueles que se dirigem à Ásia seguem para o sul, passando por Bab el-Mandeb.
Uma interrupção desse outro estreito significaria o fechamento simultâneo das duas rotas cruciais para exportação de petróleo do Oriente Médio, especialmente para a produção enviada para a Ásia.
O bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã, após ataques de Israel e dos EUA em 28 de fevereiro, já havia afetado a maior parte das exportações de petróleo e outros produtos do Golfo, elevando os preços e provocando um choque energético global.
O volume total de petróleo que transitou pelo estreito de Bab el-Mandeb totalizou 7,4 milhões de barris por dia em junho — cerca de 7% da produção global de petróleo —, um aumento em relação aos 4,2 milhões de barris por dia registrados no ano passado. Isso serviu como uma tábua de salvação parcial para o mercado de energia, ajudando a conter em parte os preços globais do petróleo.
Quem são os houthis?
Os houthis surgiram como um movimento militar, político e religioso no norte do Iêmen na década de 1990, travando campanhas de guerrilha contra o governo iemenita. Em 2014, eles tomaram a capital do país, Sanaa. Desde então, o governo oficial do país tem permanecido baseado no porto de Aden.
O governo iemenita é apoiado pela Arábia Saudita, que já entrou em conflito diretamente contra os houthis em diversas ocasiões. Os houthis também já atacaram países vizinhos do Golfo com mísseis e drones.
No entanto, uma trégua de 2022 entre os lados em guerra do país se manteve em grande parte até a semana passada, quando o governo do Iêmen, internacionalmente reconhecido, disse ter atacado o aeroporto de Sanaa para impedir o pouso de um avião iraniano.
O Irã, por sua vez, apoia os houthis como parte de seu “Eixo de Resistência” regional, que inclui o Hezbollah do Líbano, o Hamas em Gaza e milícias xiitas iraquianas, embora seus laços com o movimento iemenita sejam menos claros do que com esses outros grupos.
Os houthis não reconhecem o líder supremo do Irã como sua autoridade religiosa máxima da mesma forma que o Hezbollah e os grupos iraquianos o fazem. Suas motivações são principalmente internas, embora o grupo esteja ideologicamente alinhado ao Irã.
Os EUA afirmam que o Irã armou, financiou e treinou os houthis com a ajuda do Hezbollah. Os houthis negam atuar como representantes do Irã e dizem desenvolver suas próprias armas. Não está claro até que ponto a postura do grupo em relação a Bab el-Mandeb e ao Mar Vermelho decorre de suas próprias prioridades estratégicas ou se está sendo adotada em nome do Irã.
Nos últimos meses, enquanto o Hezbollah e grupos iraquianos entraram na guerra com os EUA e Israel logo no início, com disparos de foguetes e drones, os houthis haviam permanecido comparativamente quietos.
Ataques
No entanto, os houthis têm um histórico de pressão sobre o Mar Vermelho. Após o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023 e a campanha devastadora de Israel em Gaza, os houthis dispararam contra Israel e contra embarcações no Mar Vermelho, alegando agir em apoio aos palestinos.
À época, os ataques prejudicaram gravemente o transporte marítimo global, levando companhias como a Maersk e a Hapag-Lloyd a desviarem suas rotas contornando a África — um trajeto muito mais longo e custoso. Os ataques não provocaram choques graves no mercado de petróleo, mas as ações houthis ocorreram quando o trafégo de energia do Golfo seguia normalmente em Ormuz.
O tráfego no Mar Vermelho não se recuperou desde então; dados da Autoridade do Canal de Suez mostram que o movimento de embarcações na região caiu 52% em 2025 em relação aos níveis de 2023, atingindo o patamar mais baixo em pelo menos 50 anos.
Uma missão liderada pelos EUA entre 2023 e 2025 para restaurar a livre navegação no Mar Vermelho envolveu ataques repetidos a alvos houthis e uma campanha defensiva que abateu centenas de drones e mísseis.
No entanto, alguns ataques houthis continuaram até o verão passado, cessando completamente apenas com o acordo de cessar-fogo em Gaza, em outubro.
No mês passado, os Houthis anunciaram que proibiriam a circulação de navios ligados a Israel no Mar Vermelho, após Israel retomar ataques militares contra o Irã.
Contudo, essa ameaça não se concretizou, e as empresas de transporte marítimo Maersk e Hapag-Lloyd estão retomando algumas rotas pelo Mar Vermelho que haviam abandonado durante os ataques houthis no ano passado, informou a Maersk neste mês.