Rio de Janeiro, 17 de Abril de 2026

Glauber Rocha transformou o Rio em Eldorado

Por Leonardo Varela Milreu – Entre palácios e ruínas simbólicas, o filme constrói uma crítica estética à elite brasileira ao fundir arquitetura histórica e linguagem cinematográfica em permanente tensão.

Sexta, 17 de Abril de 2026 às 10:01, por: CdB

Entre palácios e ruínas simbólicas, o filme constrói uma crítica estética à elite brasileira ao fundir arquitetura histórica e linguagem cinematográfica em permanente tensão.

Por Leonardo Varela Milreu – de São Paulo

Terra em Transe (1967), com direção de Glauber Rocha e fotografia de Luiz Carlos Barreto, ergue-se visualmente como um afresco barroco sobre a decadência do poder. Ao materializar a fictícia República de Eldorado, a obra apropria-se da arquitetura eclética e neoclássica de locações cariocas, como os salões do Theatro Municipal e o palacete italianizante do Parque Lage, para compor um espaço cênico sufocante. O desenho de produção não aponta para um futuro racional, mas pesa sobre a tela com a herança de um passado ornamental, labiríntico e saturado. 

Glauber Rocha transformou o Rio em Eldorado | “Terra em Transe” (1967), com direção de Glauber Rocha
“Terra em Transe” (1967), com direção de Glauber Rocha

Os espaços atuam como uma instalação de opulência anacrônica que aprisiona os personagens em sua própria pompa.

A relação entre os corpos e o espaço consolida uma plástica de excessos. A encenação operística idealizada pelo diretor encontra na suntuosidade dessas locações o seu receptáculo perfeito. Emoldurados por escadarias de mármore, estátuas de bronze, afrescos e colunatas pesadas, os políticos e intelectuais ocupam o quadro com gestos largos, trajes quase rituais e posturas teatrais. 

A opressão visual não vem da esterilidade, mas do excesso tátil. A arquitetura atua como um pedestal majestoso que devora a organicidade humana, transformando o colapso institucional em uma coreografia grotesca que se confunde com a própria ornamentação dos edifícios.

Choque direto

A textura da imagem subverte a solenidade desse espaço através de uma cinematografia propositalmente convulsiva. Em choque direto com a estática reverencial do mármore e do veludo, a câmera na mão, operada nessa fronteira fluida entre o rigor de Luiz Carlos Barreto e a interferência física e febril do próprio Glauber, trepida, avança sobre os rostos em close-ups asfixiantes e movimenta-se de forma errática. O tratamento gráfico de alto contraste destrói qualquer polidez clássica: a luz estoura os brancos dos figurinos e encrava sombras profundas nas texturas do cenário, fracionando a composição. 

Essa instabilidade fotográfica, nascida da própria respiração de seus criadores, agride a geometria imponente do ambiente, injetando uma energia nervosa que desestabiliza a visão do espectador.

A obra recusa a assepsia clássica para abraçar a plástica da ruína institucional. A colisão violenta entre a câmera indomável e o peso monumental da arquitetura histórica forja um tratado visual sobre a agonia. 

A tela consolida a imagem de uma nação sufocada pelo teatro de suas elites, incapaz de escapar dos salões decadentes que ela mesma construiu.

 

Leonardo Varela Milreu, é comunicador e crítico de cinema.

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