Mesmo se, nos dias seguintes, essas medidas fossem anuladas por falta de provas ou vício de forma, não haverá possibilidade de se anular o resultado da eleição.
Por Rui Martins – de Genebra
A proximidade das eleições vem criando um clima de tensão semelhante ao ocorrido durante o processo chamado Operação Lava Jato. Existem irregularidades processuais, abuso de autoridade, há tentativa de desviar o foco das irregularidades ou crimes cometidos, a grande imprensa já tomou seu partido e com suas manchetes vem incriminando Lulinha sem processo, a fim de influir na decisão dos eleitores indecisos.

Durante o processo Lava Jato havia o juiz Sérgio Moro decidido a punir Lula, objetivo conseguido, abrindo caminho para a eleição presidencial do capitão reformado, deputado do baixo clero Jair Bolsonaro.
Paralelamente, e isso foi decisivo, os fiéis seguidores do neopentecostalismo populista, versão simplificada norte americana do fundamentalismo protestante, foram mobilizados por pastores evangélicos, presbiterianos, batistas, metodistas, etc., em nome de uma recém-inventada teologia do Domínio, contra o cristianismo social da teologia da Libertação, contra uma hipotética ameaça comunista, afirmando ser Bolsonaro o escolhido de Deus, como fora Trump nos EUA.
Perfil
Todo o processo Lava Jato foi anulado por vício de forma, mas seu objetivo principal, prender Lula e tirá-lo da eleição, tinha sido atingido. Entretanto, passados quatro anos, em 2022, com Sérgio Moro desmoralizado, Lula libertado, o esquema de 2018 não funcionou, nem com o chamado apoio religioso dos evangélicos. Restava a tentativa de provocar um golpe, mas não funcionou.
Hoje, faltando menos de dois meses para o primeiro turno da eleição presidencial, novamente parece se articular ou tramar um choque, às vésperas do 25 de outubro, data da decisão final ou segundo turno. Uma prisão do Lulinha, a descoberta de uma “prova” irrefutável poderiam assegurar, na boca das urnas, a vitória de Flávio Bolsonaro.
Mesmo se, nos dias seguintes, essas medidas fossem anuladas por falta de provas ou vício de forma, não haverá possibilidade de se anular o resultado da eleição. O fato de se influir na decisão dos eleitores não justificaria nenhuma medida retroativa. E Flávio receberia de bandeja a possibilidade de mudar o perfil do STF com a indicação de 4 novos ministros. Nem seria preciso pedir impeachment de Alexandre e Dino, pois Flávio teria maioria absoluta no STF, como Trump nos EUA.
Lulinha
Essa hipótese deve ser considerada como uma remota ficção política? Provavelmente, mas quem ouve ou lê as últimas análises políticas, nos canais progressistas e no Metrópoles, sobre os últimos procedimentos tomados pelo ministro André Mendonça, pode muito bem se indagar “onde o ministro quer chegar!”.
Haveria – é uma hipótese – a intenção do ministro Mendonça influir no voto dos eleitores vazando investigações contra Lulinha, que não incriminam o filho do presidente mas que teriam o único objetivo de levantar suspeitas sobre Lulinha, pelo menos até o dia 25 de outubro?
Existiria um intenção oculta no aparente abandono ou no adiamento de investigações pelo ministro Mendonça sobre o contato de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro pedindo mais dinheiro para a produtora terminar o filme Dark Horse, cujo custo final de realização ultrapassa de longe filmes premiados em Cannes, Veneza, Berlim, Locarno ou com o Oscar?
Algumas referências:
Mendonça na Associação Nacional de Magistrados Evangélicos.
Rui Martins, é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.