Não é uma medida contra um governo; é uma punição coletiva contra um povo inteiro, com efeitos humanitários previsíveis e deliberadamente ignorados.
Por Pedro Luiz Teixeira de Camargo (Peixe) – de Brasília
O bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba é, antes de tudo, um absurdo histórico. Não se trata de uma política pontual, tampouco de um resquício da Guerra Fria mantido por inércia burocrática. É uma estratégia deliberada, sistemática e cruel de asfixia econômica, cujo objetivo sempre foi evidente: inviabilizar um projeto soberano que ousou romper com a lógica de submissão ao imperialismo norte-americano em nosso continente.

Desde o início dos anos 1960, os EUA utilizam essa ferramenta como arma política. Ao restringir comércio, investimentos, acesso a crédito internacional e até transações financeiras básicas, Washington buscou criar condições de penúria material capazes de gerar descontentamento social e, por consequência, a queda do governo revolucionário, o que até agora não ocorreu. Em outras palavras, trata-se de uma política que aposta conscientemente no sofrimento da população civil como instrumento de pressão geopolítica, sem dúvida, algo extremamente cruel.
O caráter extraterritorial desse bloqueio aprofunda ainda mais seu absurdo. Empresas de países terceiros são punidas, multadas ou ameaçadas caso mantenham relações comerciais com a ilha caribenha. Bancos se recusam a processar pagamentos, navios são impedidos de atracar em portos estadunidenses, cadeias produtivas inteiras são interrompidas. Não é apenas Cuba que é coagida, mas todo o sistema internacional, em uma demonstração explícita de arrogância imperial.
As consequências desse cerco são profundas e duradouras. Um país pequeno, com recursos limitados, vê-se impedido de importar medicamentos, peças de reposição, alimentos, tecnologias e insumos básicos para sua indústria e infraestrutura. Qualquer análise honesta da economia cubana precisa partir desse dado central: não existe desenvolvimento possível sob um bloqueio que atravessa décadas e se reinventa continuamente para fechar novas brechas.
EUA
Ainda assim, Cuba resistiu. Construiu um sistema de saúde reconhecido internacionalmente, erradicou o analfabetismo, formou quadros técnicos e científicos e manteve indicadores sociais superiores aos de muitos países da região. Nada disso foi feito em condições normais. Tudo foi conquistado apesar do bloqueio, e não graças a qualquer benevolência do sistema financeiro internacional dominado pelos Estados Unidos.
Nos últimos anos, longe de aliviar esse cerco, Washington optou por aprofundá-lo. A volta de Donald Trump à Casa Branca reacende a face mais agressiva dessa política. Seu histórico já era conhecido, mas piorou ainda mais: recrudescimento de sanções, retórica belicista e desprezo absoluto pelas resoluções da ONU que, ano após ano, condenam quase unanimemente o absurdo bloqueio.
Entre as ameaças mais graves está a proposta de impedir todo e qualquer envio de combustíveis ao país. Trata-se de um ataque direto ao funcionamento básico da sociedade cubana. Sem isso, colapsam o transporte público, a produção de alimentos, a geração de energia e os serviços essenciais. Não é uma medida contra um governo; é uma punição coletiva contra um povo inteiro, com efeitos humanitários previsíveis e deliberadamente ignorados.
É impossível não chamar isso pelo nome: trata-se de uma política de estrangulamento econômico. A intenção não é promover democracia, direitos humanos ou liberdade, como gosta de repetir hipocritamente o discurso oficial norte-americano. A intenção é provocar o caos, aprofundar dificuldades e usar a fome, a escassez e o desespero como ferramentas políticas.
Diante desse cenário, silenciar é ser cúmplice. A solidariedade internacional com os cubanos não é um gesto ideológico abstrato, mas uma exigência ética concreta. Defender o fim do bloqueio é defender o direito dos povos à autodeterminação, ao desenvolvimento e à vida digna, sem chantagens imperiais e sem punições coletivas.
Cuba atravessa um momento difícil, agravado por crises globais, uma conjuntura internacional extremamente desfavorável e, sobretudo, por um cerco que nunca cessou. É justamente agora que se torna ainda mais necessário levantar a voz, denunciar o absurdo histórico do bloqueio e afirmar, com clareza, que nenhum povo deve ser castigado por ousar escolher seu próprio caminho. Solidarizar-se com quem ousa seguir seu próprio rumo é um ato de humanidade e de compromisso com a soberania dos povos.
Pedro Luiz Teixeira de Camargo (Peixe), é iólogo, geógrafo, professor, Dr. em Ciências Naturais e Docente do IFMG.
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