Quadro do século XVIII localizado por acaso na residência da filha de um antigo oficial nazista que fugiu para a Argentina será devolvido para herdeira de galerista judeu que teve coleção saqueada durante a guerra.
Por Redação, com DW – de Buenos Aires
A Justiça argentina ordenou na sexta-feira que um quadro saqueado pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e encontrado décadas depois numa residência país sul-americano seja restituído para a herdeira de um galerista judeu holandês.

A obra fazia parte da coleção do comerciante judeu Jacques Goudstikker, falecido em 1940 enquanto fugia dos nazistas. As mais de 1,1 mil peças da galeria dele em Amsterdã, incluindo obras de Rembrandt e Vermeer, foram compradas por valores muito inferiores ao real por altos funcionários do regime nazista.
Após permanecer décadas desaparecida, a pintura foi localizada acidentalmente na Argentina, numa residência que pertence a Patricia Kadgien, filha de Friedrich Gustav Kadgien, um oficial funcionário administrativo nazista que trabalhava diretamente sob as ordens do marechal Hermann Göring, o n° 2 do Terceiro Reich e que notoriamente montou uma vasta coleção de obras de arte saqueadas de famílias judias.
Após a guerra, Friedrich Gustav Kadgien, fugiu para a América do Sul junto com um ex-funcionário nazista chamado Ludwig Haupt. Aparentemente, a dupla chegou carregando fortunas. Nas décadas seguintes, os doisforam sócios de diversas empreitadas empresariais na Agentina e no Brasil, com Friedrich Kadgien se estabelecendo permanentemente em Buenos Aires, e Haupt, no Rio de Janeiro. Ambos morreram na década de 1970.
Pintura desaparecida
Em agosto de 2025, a história obscura de Friedrich Kadgien ressurgiu na imprensa internacional de forma acidental, graças a um anúncio imobiliário. Jornalistas holandeses notaram que fotografias de um imóvel à venda em Mar del Plata, na Argentina, mostravam uma antiga pintura. A propriedade estava registrada em nome de uma filha de Friedrich Kadgien.
Tudo indicava que se tratava de uma obra do século XVIII que constava num banco de dados holandês de obras saqueadas durante a ocupação nazista do país.
A pintura, chamada Retrato de uma Dama, pertenceu originalmente ao negociante de arte judeu Jacques Goudstikker e fazia parte de uma vasta coleção levada para a Alemanha nazista, após ser adquirida por representantes do marechal Göring por uma fração do seu preço numa negociação sob coação.
Em 2006, o governo holandês devolveu para Marei von Saher, de 82 anos, uma herdeira de Goudstikker, 202 pinturas, mas centenas de outras permanecem desaparecidas ou em poder de museus que resistem em devolvê-las.
Ainda não se sabe quais foram as circunstâncias que levaram a pintura a parar nas mãos da família Kadgien. Após a presença da pintura na residência de Mar del Plata ser revelada, policiais foram ao local, mas a obra havia desaparecido novamente. Uma filha de Kadgien, chamada Patricia, de 59 anos, e seu marido foram detidos e, um dia depois, concordaram em entregar a obra.
Restituição
O juiz federal Santiago Inchausti informou nesta semana que “será ordenada a restituição do quadro à herdeira”, segundo um acordo entre as partes, um ano depois da eclosão do caso.
Patricia Kadgien e seu marido, Juan Carlos Cortegoso, tinham sido acusados de acobertamento e chegaram a ser colocados em prisão domiciliar depois que o jornal holandês AD identificou a obra em uma foto na qual o quadro aparecia sobre um sofá verde.
Retrato de uma Dama foi identificada como sendo italiano Giacomo Ceruti (1698-1767), e não uma tela do retratista Giuseppe Ghislandi, um artista do mesmo período, como foi informado inicialmente, indicaram autoridades argentinas em um comunicado.
O acordo com a Justiça argentina determina que o casal aceita devolver o quadro à nora e única herdeira de Goudstikker, Marei von Saher, e que não o reivindicará judicialmente.
– Os investigadores se comprometeram fundamentalmente à renúncia a todo o direito sobre o quadro, que será restituído à família do galerista – explicou o promotor federal Carlos Martínez.
A obra “está em bom estado de conservação e as perícias deram certeza da autenticidade”, acrescentou o promotor.
Outras peças de arte apreendidas na residência “não têm valor histórico, a maioria era de réplicas e nos casos em que eram autênticas, não procediam do espólio e eram posteriores ao período da guerra, portanto foi acordada a devolução para a família”, disse Martínez.
O acordo judicial também estabelece um pagamento de 4,8 milhões de pesos argentinos (aproximadamente 16.305 reais), que serão destinados em doação para hospitais locais.
O quadro está sob o resguardo da Suprema Corte argentina e ali os procuradores de Von Saher deverão iniciar os trâmites para que volte à família proprietária antes do espólio, segundo a investigação.
A princípio, a defesa judicial dos Kadgien tentou argumentar que o crime tinha prescrito. No entanto, os delitos enquadrados no contexto de um genocídio não prescrevem, segundo a legislação argentina e o direito internacional.
O quadro pode ter um destino transitório na Argentina em uma exposição a título de conscientização.
– A intenção da família é que seja exibido em Buenos Aires por pelo menos um ano – disse Guillermo Brady, advogado de Saher.
Embora ainda não tenha sido determinado onde e quando o quadro ficaria exposto ao público, Brady informou que “há conversas com o Museu do Holocausto, com o de Belas-Artes e com o Ministério de Relações Exteriores, que também lhes interessa”.