Rio de Janeiro, 16 de Março de 2026

O xadrez imperialista no Oriente Médio

Por Thiago Modenesi  – Escalada militar envolvendo Israel, Irã e aliados expõe disputa por energia, rotas comerciais e influência global em meio ao avanço de potências emergentes e ao enfraquecimento da ordem unipolar.

Segunda, 16 de Março de 2026 às 09:56, por: CdB

Escalada militar envolvendo Israel, Irã e aliados expõe disputa por energia, rotas comerciais e influência global em meio ao avanço de potências emergentes e ao enfraquecimento da ordem unipolar.

Por Thiago Modenesi – de Brasília

A escalada militar no Oriente Médio não pode ser compreendida como mais um capítulo de um conflito religioso ancestral ou como mera disputa territorial. O que se desenha diante de nossos olhos é uma operação geopolítica de grande envergadura, na qual Israel atua como ponta de lança dos interesses imperialistas ocidentais, com os Estados Unidos fornecendo retaguarda militar, diplomática (se é que dá para chamar assim…) e estratégica. Por trás dos foguetes e bombardeios, movimentam-se as peças de um tabuleiro muito maior: o controle de recursos energéticos, a disputa por rotas comerciais e a tentativa desesperada de conter a emergência de um mundo multipolar que já começa a se articular em torno de potências como a China e o bloco dos BRICS.

O xadrez imperialista no Oriente Médio | Os conflitos com Israel e Estados Unidos, portanto, não são incidentes isolados
Os conflitos com Israel e Estados Unidos, portanto, não são incidentes isolados

O apoio imediato e incondicional dos Estados Unidos a Israel não é fruto de afinidades culturais ou lobbies poderosos, embora esses elementos existam. Trata-se, fundamentalmente, de uma aliança entre metrópole imperial e seu principal aliado regional, encarregado de garantir a desestabilização de qualquer projeto autônomo de desenvolvimento no mundo árabe-persa. Desde a Revolução Islâmica de 1979, o Irã emergiu como o principal polo de resistência à dominação ocidental na região. A teocracia xiita, com seu discurso de independência e sua rede de alianças que ficou conhecida como Eixo da Resistência (incluindo Hezbollah no Líbano, grupos xiitas no Iraque, Síria e os houthis no Iêmen), representa o osso mais duro de roer para os planos hegemônicos de Washington e Tel Aviv.

Os Estados Unidos veem no Irã um obstáculo intransponível não apenas pela sua capacidade militar ou por seu programa nuclear, mas por seu exemplo histórico. O golpe de 1953, orquestrado pela CIA contra o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh quando ele ousou nacionalizar o petróleo iraniano, ainda queima na memória coletiva da nação. O Irã aprendeu, da pior forma, que a soberania sobre seus recursos naturais seria permanentemente ameaçada pelo Ocidente. E é exatamente isso que está em jogo agora.

Não é coincidência que a intensificação dos conflitos ocorra justamente quando o mundo testemunha a emergência de alternativas concretas à ordem unipolar liderada pelos Estados Unidos. A China, através da Iniciativa do Cinturão e Rota, avança sobre a Eurásia, construindo corredores econômicos que podem, no futuro, escoar a produção de energia do Oriente Médio para os mercados asiáticos sem passar pelo controle das marinhas ocidentais.

O ingresso do Irã nos BRICS em 2023 e sua participação ativa na Organização para Cooperação de Xangai (SCO) representam um movimento tectônico nas relações internacionais. Teerã não está isolada como gostariam os estrategistas do Pentágono. Pelo contrário, articula-se com as economias que mais crescem no planeta, buscando escapar do sistema financeiro baseado no dólar e construir relações comerciais que respeitem sua soberania. O bloco liderado por China, Rússia, Índia, Brasil e África do Sul já sinaliza a disposição de construir uma nova arquitetura financeira global, e o petróleo iraniano, é peça fundamental nesse xadrez.

Para os Estados Unidos, portanto, enfraquecer o Irã não é apenas uma questão de “proteger Israel”. É uma questão de estrangular um dos principais fornecedores de energia de seus competidores geopolíticos. É garantir que o dólar continue sendo a moeda das transações petrolíferas e que a marinha americana continue patrulhando o Golfo Pérsico como se fosse seu quintal. A guerra contra o Irã e seus aliados é, nesse sentido, uma guerra contra a multipolaridade.

Líbano

No plano interno israelense, a ofensiva contra o Líbano e as ameaças ao Irã cumprem uma função muito específica: manter Benjamin Netanyahu no poder. O primeiro-ministro israelense enfrenta um dos momentos mais delicados de sua carreira, com divisões profundas na sociedade israelense. A história ensina que líderes em apuros recorrem frequentemente à cortina de fumaça da guerra para unificar a nação em torno da bandeira e adiar contas com a justiça.

Netanyahu aposta todas as fichas na escalada militar, na expectativa de que o medo e o fervor patriótico sobreponham-se às divisões internas. Ao bombardear o Líbano e provocar o Irã, ele se apresenta como o protetor de Israel, como o estadista indispensável em tempos de crise, algo absurdo quando analisamos os números de vítimas, na casa dos milhares de iranianos e libaneses e de dezenas de israelenses. Os Estados Unidos, por sua vez, alimentam esse jogo, fornecendo munição e cobertura diplomática, pois um Netanyahu fraco, mas agressivo, ainda é mais útil aos seus propósitos do que qualquer alternativa negociadora que possa surgir em Tel Aviv.

A guerra, portanto, é funcional a ambos os lados dessa aliança: para os EUA, é instrumento de desestabilização regional, para Netanyahu, é tábua de salvação política. O povo palestino, libanês e iraniano paga o preço dessa conveniência.

Para compreender a atual resistência iraniana, é preciso recuar à Revolução de 1979. Não se tratou apenas de uma troca de regime, mas de um terremoto civilizacional. O aiatolá Khomeini não derrubou apenas o xá Reza Pahlavi, derrubou séculos de subserviência às potências estrangeiras. A república islâmica que emergiu das cinzas da monarquia foi fundada sobre o princípio da mustazafin (os oprimidos) e sobre a rejeição tanto ao capitalismo ocidental quanto ao socialismo soviético, sintetizada no slogan “Nem Leste, nem Oeste, República Islâmica”.

Os conflitos com Israel e Estados Unidos, portanto, não são incidentes isolados, mas o resultado inevitável de duas visões de mundo antagônicas: de um lado, o projeto imperialista de dominação e espoliação, do outro, o projeto de autodeterminação e resistência.

É verdade que o Irã enfrenta contradições internas graves. As sanções econômicas impostas pelo Ocidente, particularmente após a retirada dos EUA do acordo nuclear (JCPOA), estrangularam a economia, geraram inflação e desemprego, e provocaram ondas de protestos. O governo iraniano tem dificuldade em conciliar seu discurso com as demandas concretas de uma juventude que cresceu conectada ao mundo e deseja oportunidades, não apenas discursos de resistência.

Entretanto, é preciso separar o joio do trigo. Uma coisa são as críticas legítimas à gestão econômica ou à falta de abertura política, outra, bem diferente, é tomar o partido do agressor imperialista. A maioria do povo iraniano, mesmo quando protesta contra seu governo, recusa-se a ser instrumentalizada por Israel ou pelos Estados Unidos. A memória do golpe de 1953, da guerra Irã-Iraque (quando Saddam foi armado pelo Ocidente) e das décadas de sanções é longa demais para ser apagada por algumas promessas de libertação feitas por potências que sempre viram o Irã como mera colônia de exploração.

O Eixo da Resistência, embora enfraquecido por perdas recentes, ainda representa a principal barreira à hegemonia total de Israel na região. O Hezbollah, apesar dos golpes sofridos, mantém capacidade de dissuasão. Os houthis no Iêmen demonstraram coragem ao atacar navios vinculados a Israel no Mar Vermelho e lançar mísseis em direção ao território ocupado. Os grupos xiitas no Iraque seguem ativos.

O Irã, por sua vez, aprendeu a arte da guerra assimétrica. Com um orçamento militar infinitamente inferior ao da máquina de guerra americano-israelense, Teerã investiu em mísseis balísticos de precisão, drones avançados e uma rede de alianças que lhe permite projetar poder sem necessidade de envolver-se diretamente em guerras convencionais que não poderia vencer.

Oriente Médio

O conflito no Oriente Médio não se resolverá com mais bombas ou com mais sanções. Enquanto os Estados Unidos insistirem em tratar a região como seu quintal e Israel continuar a se comportar como potência ocupante e expansionista, a resistência encontrará formas de se reinventar.

O Irã, com todas as suas contradições internas, ainda é o farol dessa resistência. Sua teimosia histórica em manter-se independente, seu apoio inegociável à causa palestina e sua recusa em curvar-se às exigências ocidentais inspiram não apenas xiitas no Líbano ou no Iraque, mas todos os povos do mundo que aspiram a um futuro no qual suas riquezas naturais sirvam ao seu próprio povo, e não aos bolsos de acionistas estrangeiros.

Netanyahu pode ganhar tempo com suas guerras. Os EUA podem destruir infraestruturas e assassinar líderes. Mas enquanto houver um povo disposto a resistir, enquanto houver uma nação que prefira a soberania com sacrifício à submissão com prosperidade, a chama da revolução continuará acesa.

A história recente do Irã, desde o golpe de 1953, passando pela revolução de 1979, pela guerra imposta por Saddam e pelas décadas de sanções, ensina que o caminho da independência é espinhoso, mas é o único que confere dignidade a um povo. Os impérios passam. As hegemonias desmoronam. A resistência permanece.

O mundo que emerge das cinzas da ordem unipolar não será moldado por mísseis Tomahawk ou por porta-aviões. Será moldado pela capacidade dos povos de afirmarem seu direito à autodeterminação. E nessa luta, o Irã continua sendo uma trincheira avançada.

 

Thiago Modenesi, é Bacharel em Direito, Licenciado em História e Pedagogo, Especialista em Ensino de História, Ciência Política, Gestão da Aprendizagem e Moderna Educação, Mestre e Doutor em Educação, com pos-doutorado na área. É professor no Mestrado em Gestão Pública para o Desenvolvimento do Nordeste e nos Programas de Pós-Graduação em Engenharia Biomédica e Ciências Farmacêuticas, todos na UFPE, membro do INCT iCeis, pesquisador sobre inovação e Estado, charges, cartuns e histórias em quadrinhos e editor na Quadriculando Editora, além de presidente do PCdoB em Jaboatão dos Guararapes-PE.

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