Rio de Janeiro, 11 de Março de 2026

Imperialismo, soberania e o direito dos povos: o caso do Irã

Explore como os ataques dos EUA e Israel ao Irã reacendem discussões sobre imperialismo, soberania e autodeterminação dos povos no Oriente Médio.

Quarta, 11 de Março de 2026 às 09:03, por: CdB

Ataques de EUA e Israel reacendem debate sobre imperialismo, soberania nacional e autodeterminação dos povos em meio à disputa geopolítica global e às tensões no Oriente Médio.

Por Pedro Luiz Teixeira de Camargo (Peixe) – de Brasília

Os recentes ataques aéreos conduzidos por Estados Unidos e Israel contra alvos no Irã representam mais um capítulo de uma longa tradição de agressões imperialistas no Oriente Médio. Sob o pretexto recorrente da “segurança internacional” ou da contenção de ameaças nucleares, Washington e seus aliados voltam a recorrer à força militar para impor seus interesses geopolíticos numa região estratégica do planeta. O problema, contudo, não é apenas militar. Trata-se de uma operação política mais ampla de desestabilização regional, voltada a enfraquecer países que não se subordinam à ordem internacional liderada pelos Estados Unidos.

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Imperialismo e soberania: o direito dos povos e o caso do Irã

Para compreender o momento atual, é necessário recordar que a relação entre Washington e Teerã foi marcada desde cedo pela ingerência externa. Em 1953, os EUA apoiaram diretamente um golpe de Estado que derrubou o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, cujo “crime” foi tentar nacionalizar o petróleo iraniano. A operação, organizada pela CIA em parceria com o serviço secreto britânico, reinstalou o xá Mohammad Reza Pahlavi e garantiu por décadas um regime alinhado aos interesses ocidentais. A história, portanto, demonstra que a retórica sobre democracia e direitos humanos nunca foi o verdadeiro motor da política externa norte-americana.

A Revolução Islâmica de 1979 rompeu com essa lógica de subordinação e inaugurou um período de tensão permanente. Independentemente de avaliações sobre o caráter do governo iraniano, é inegável que o país passou a exercer sua soberania de maneira autônoma, buscando construir alianças e definir seus próprios caminhos estratégicos. Foi justamente esse gesto de independência que transformou o Irã em alvo constante de sanções econômicas, campanhas de isolamento diplomático e ameaças militares ao longo das últimas décadas.

Os bombardeios recentes, que atingiram inclusive áreas civis e estruturas educacionais, representam uma escalada perigosa dessa política de pressão. Ataques desse tipo não apenas violam princípios elementares do direito internacional como também ampliam o risco de um conflito regional de proporções imprevisíveis. Em vez de promover estabilidade, essas ações tendem a aprofundar tensões e alimentar ciclos de violência que atingem, sobretudo, a população civil.

O cenário torna-se ainda mais preocupante com Donald Trump no comando dos Estados Unidos. Durante seu primeiro mandato, Trump já havia retirado unilateralmente o país do acordo nuclear com o Irã e intensificado as sanções econômicas, sufocando a economia iraniana. Agora, observa-se um endurecimento ainda maior da postura norte-americana, com a retomada de uma estratégia de “pressão máxima” que combina bloqueios econômicos, bombardeios na capital (em especial) e tentativas explícitas de fragilizar o governo iraniano via revoluções coloridas.

Esse movimento não pode ser analisado isoladamente. Ele se insere numa disputa geopolítica mais ampla que envolve o reposicionamento das grandes potências no sistema internacional. O Irã mantém relações estratégicas com países como China e Rússia e participa de iniciativas de cooperação vinculadas ao bloco dos BRICS+, que buscam ampliar a autonomia do Sul Global diante das instituições dominadas pelo Ocidente. Desestabilizar o Irã, nesse contexto, significa também enfraquecer redes de cooperação que desafiam a hegemonia norte-americana.

Oriente Médio

Há ainda um elemento clássico que nunca deixou de pesar na equação: o controle de recursos naturais. O Oriente Médio concentra algumas das maiores reservas de petróleo e gás do planeta, e a história recente demonstra que os EUA frequentemente recorreram à força, à pressão política ou a ambos, para manter influência sobre essas riquezas estratégicas. Quando um país decide administrar seus próprios recursos de maneira soberana, torna-se rapidamente alvo de campanhas que buscam enquadrá-lo, isolá-lo ou destruí-lo.

Não se trata de defender governos ou sistemas políticos específicos. O ponto central é outro: o princípio da autodeterminação dos povos. Nenhuma nação deve ser submetida a bombardeios, bloqueios ou operações de mudança de regime simplesmente por não aceitar a tutela de uma potência estrangeira. A soberania nacional, princípio consagrado no direito internacional, perde todo sentido quando pode ser violada à vontade pelos ditos mais fortes.

Por isso, a solidariedade internacional ao povo iraniano torna-se fundamental neste momento. Independentemente das divergências ideológicas ou das críticas que possam existir ao regime político do país, é preciso afirmar com clareza que o destino do Irã deve ser decidido pelos próprios iranianos — e não por bombas lançadas do exterior. A história mostra que intervenções militares nunca produzem democracia ou estabilidade; é sempre o mesmo enredo, deixando apenas destruição e décadas de instabilidade.

Diante desse quadro, torna-se urgente que forças políticas, movimentos sociais e intelectuais ao redor do mundo denunciem essa escalada de agressões. Defender a paz, a soberania e o direito dos povos de escolher seus próprios caminhos não é um gesto de alinhamento a governos específicos, mas um compromisso básico com a justiça internacional. Se a comunidade global aceitar em silêncio mais esse ataque, estará abrindo caminho para que a mesma lógica de força e imposição continue sendo aplicada contra qualquer país que se recuse a se curvar diante do poder imperial.

 

Pedro Luiz Teixeira de Camargo (Peixe), é biólogo, geógrafo, professor, Dr. em Ciências Naturais e Docente do IFMG.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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