O foco da avaliação deve estar na consistência do pensamento que o estudante é capaz de sustentar com sua própria voz.
Por Carlos Seabra – de São Paulo
No exato momento em que a inteligência artificial ocupa manchetes e corações, quando se celebra a capacidade dos algoritmos em redigir com perfeição técnica qualquer tipo de texto, ressurge uma antiga ferramenta: o diálogo.

Em vários locais de aprendizagem, a prova oral volta a ocupar lugar central. Não por saudosismo, mas por necessidade. A facilidade com que ferramentas digitais geram conteúdos plausíveis impõe aos educadores o desafio de distinguir o que é autoria do que é artifício. Nesse cenário, a oralidade emerge como uma instância de resistência: não se copia uma conversa, não se terceiriza o improviso, não se delega a uma plataforma o olhar nos olhos.
Esse retorno à palavra falada não representa uma regressão. É, paradoxalmente, um avanço. Ou melhor: um retorno ao essencial. Em um tempo saturado de respostas automáticas, a educação precisa reaprender a formular boas perguntas. É no gesto de perguntar – e não na pressa de responder – que se inicia o processo de aprendizagem genuína.
A crise da avaliação escancarada pela IA revela, na verdade, um incômodo antigo: por décadas, a escola valorizou mais a forma do que o conteúdo, a repetição mais que a reflexão, a estética da resposta mais que a ética da dúvida. A inteligência artificial apenas acentuou um sintoma. A doença, no entanto, sempre esteve lá. numa cultura pedagógica que premiava o resultado, ignorando o processo.
Mais do que “proteger” a escola da IA, é preciso encarar a transformação mais ampla. As tecnologias digitais, longe de serem adversárias, são extensões de nossas capacidades cognitivas. A educação do presente (e do porvir) não pode ser nem tecnofóbica nem tecnólatra. Deve ser crítica, curiosa, experimental. E, sobretudo, humana. Voltada ao desenvolvimento da escuta atenta, da argumentação coerente, da empatia no diálogo, da autonomia intelectual e da capacidade de formular perguntas relevantes em contextos complexos e incertos.
Isso exige uma virada no eixo da avaliação: sair do julgamento e entrar no diálogo; trocar a escala numérica pela escuta ativa; substituir o acerto pela construção. Não se trata apenas de fiscalizar a honestidade do estudante, mas de convocá-lo à presença, à autoria, ao pensamento.
A voz humana, em sua hesitação e surpresa, é território onde algoritmos ainda não entram. E talvez nunca entrem. Porque ali reside o imponderável, aquilo que escapa aos padrões, aos comandos, às estatísticas. Uma ideia conectada a outra, sem aviso, sem modelo, apenas porque algo brilhou no olhar no exato instante em que a pergunta foi feita.
Voltar à prova oral não é nostalgia, é garantia de um diálogo verdadeiro. É uma estratégia para lembrar que o cérebro humano ainda é o hardware mais sofisticado em sala. E que, diante da avalanche de conteúdos prontos, há que se valorizar o inacabado, o processo, a dúvida.
Ferramentas e plataformas
Mas talvez o principal seja que se o estudante copiar as respostas no Google, na Wikipédia, com ajuda do ChatGPT ou quaisquer outras ferramentas e plataformas, e entregue um trabaho muito bem elaborado, será em uma conversa oral (presencial ou à distância) que ele irá revelar o que efetivamente aprendeu. Se essa aprendizagem se deu com o uso de ferramentas inteligentes ou outras estratégias não é o foco principal do que precisa ser avaliado.
Mas talvez o essencial seja compreender que, mesmo que o estudante recorra ao Google, à Wikipédia, ao ChatGPT ou a qualquer outra ferramenta para elaborar um trabalho impecável, será em uma conversa (seja presencial ou online) que ele revelará o que de fato aprendeu. É nesse espaço de diálogo que se evidenciam as conexões reais, as compreensões construídas, os raciocínios próprios. E se essa aprendizagem ocorreu com o apoio de ferramentas inteligentes ou por outros caminhos, isso importa menos: o foco da avaliação deve estar na consistência do pensamento que o estudante é capaz de sustentar com sua própria voz.
Carlos Seabra, é presidente do Sindicato dos Escritores de SP, é autor de livros didáticos e de literatura infantil e juvenil. Editor de publicações e produtor de conteúdos culturais e educacionais de multimídia e internet, criador de jogos, palestrante, consultor e coordenador de projetos culturais e de tecnologia educacional.
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