Rio de Janeiro, 11 de Fevereiro de 2026

Vila Isabel resgata legado de Heitor dos Prazeres na Sapucaí

Descubra como a Vila Isabel resgata o legado de Heitor dos Prazeres no Carnaval 2026, celebrando sua contribuição à música e arte brasileiras.

Quarta, 11 de Fevereiro de 2026 às 11:22, por: CdB

Além de músicas e quadros, o cantor, compositor e pintor assina também a fundação das agremiações Mangueira, Portela, Unidos da Tijuca, Vizinha Faladeira e Deixa Falar. 

Por Redação, com ABr – do Rio de Janeiro

Como alguém que fundou cinco escolas de samba ainda não tinha sido homenageado em nenhum enredo no Grupo Especial do Rio de Janeiro? A dívida do carnaval carioca com Heitor dos Prazeres será paga neste ano pela Vila Isabel, que levará à Marquês de Sapucaí o enredo Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África.

Vila Isabel resgata legado de Heitor dos Prazeres na Sapucaí | Multiartista fundou cinco escolas, mas nunca foi enredo no Grupo Especial
Multiartista fundou cinco escolas, mas nunca foi enredo no Grupo Especial

Além de músicas e quadros, o cantor, compositor e pintor assina também a fundação das agremiações Mangueira, Portela, Unidos da Tijuca, Vizinha Faladeira e Deixa Falar. 

– Como um fundador de escola de samba, um grande pintor, grande músico, costureiro, cenógrafo ainda não tinha sido enredo? – questionou, em entrevista à Agência Brasil, Gabriel Haddad, que junto com Leonardo Bora, são os carnavalescos da Vila.

Haddad lembrou que Heitor já tinha sido citado algumas vezes em outras escolas e foi enredo no grupo chamado de acesso, mas no Grupo Especial, ainda não.

– São diversos caminhos, porque só essa atuação múltipla do Heitor já revela muitos Heitores, e a gente foi percebendo isso, um artista, um sambista, uma pessoa, uma entidade. Por isso, o enredo segue estas transformações – revelou Leonardo Bora à Agência Brasil.

A ideia dos carnavalescos foi trazer os diversos sonhos do Heitor como se a Vila os estivesse sonhando. A linha temática dividiu os setores a partir dos nomes que o artista teve na vida, o menino Lino, o Ogã Alabê-Nilu, o Mano Heitor do Cavaco, o afro-rei Pierrot e o grande final da vida de Heitor, quando foi considerado embaixador por toda a sociedade e representou o Brasil no Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, realizado em Dakar.

A pesquisa que Bora e Haddad desenvolveram para uma exposição sobre o artista no CCBB RJ em 2023 gerou nos dois o desejo de fazer este enredo. Eles destacam que, nesse trabalho, se depararam com o pensamento de Heitor de que samba é macumba, e macumba é samba, como indica o samba-enredo do carnaval 2026.

Os dois chegaram neste ano à escola, com a responsabilidade de propor o enredo, e encontraram o pesquisador Vinícius Natal, com quem já tinham trabalhado e que também tinha vontade de homenagear Heitor dos Prazeres.

– Foi uma sinergia boa que aconteceu entre a gente, o Vini e a própria escola. Todo mundo topou o enredo e começamos a construir tudo – contou Haddad.

Os carnavalescos veem como uma responsabilidade muito grande encarar a difícil tarefa de concentrar em apenas um desfile toda a obra de Heitor dos Prazeres.

Leonardo Bora disse que a ideia foi começar a costurar essas relações do enredo e da história do homenageado com a própria agremiação sua comunidade.

Martinho da Vila, por exemplo, gravou Pierrô Apaixonado, que é uma composição de Heitor dos Prazeres com Noel Rosa, conhecido como o poeta da Vila.

– Só aí já tem uma conexão dupla com a Vila Isabel – pontuou ele, que incluiu a música no desfile.”Vai ser retratada por conta dessa importância do Heitor cronista do cotidiano nas suas pinturas e na sua musicalidade”.

Com este enredo, os carnavalescos querem também valorizar a amplitude artística de Heitor, que, como entendem, nem sempre teve o reconhecimento devido. Nem mesmo o termo de multiartista era usado na época dele, o que está sendo considerado, agora, neste enredo.

– Uma das grandes contribuições desse enredo é para esse reposicionamento do Heitor dos Prazeres enquanto grande artista da história da arte brasileira, grande pintor moderno, grande representante da modernidade carioca, desse projeto modernista que tem o samba como carro chefe – apontou Bora.

– Essa produção extraordinária dele acabou sendo colocada em rótulos que nunca competiram a ela, de pintura naif, primitiva. São termos que, de tão enferrujados, não param de pé – criticou.

Ogã Alabê-Nilu

A religiosidade do homenageado também estará na avenida. Heitor dos Prazeres começou a frequentar casas de candomblé ainda criança e foi no terreiro de sua madrinha, Tia Ciata, baiana considerada uma das criadoras do samba no Rio e de importante participação para o fortalecimento da cultura negra na cidade, que Heitor se tornou o Ogã Alabê-Nilu.

– É o chefe dos tambores, aquele que toca e canta. Ele tinha, no terreiro da Tia Ciata, esse lugar mítico tão importante para a compreensão dos sambas e macumbas cariocas, uma posição de líder dos tambores. O Heitor entendia que isso que se entende por samba nasce dessa macumba do Rio de Janeiro que é uma mistura de ritmos e de geografias – disse Bora.

E é justamente onde existia o terreiro de Tia Ciata que a Vila Isabel vai se concentrar para entrar na avenida este ano. É a concentração chamada de “Balança”, em referência a um prédio construído no local, o famoso Edifício Balança Mas Não Cai. Ali, era a Praça Onze, origem do samba no Rio e de manifestações de cultura da população preta. Também ali fica o busto de Zumbi dos Palmares.

– Coincidência Incrível. Exatamente onde era a antiga Praça Onze – comemorou Haddad.

O anúncio do enredo foi na Pedra do Sal, ponto de encontro para samba e celebrações da cultura negra na região conhecida como Pequena África. A apresentação teve direito a roda de samba e convite a intérpretes de outras agremiações, o que agradou a comunidade da Vila, que imediatamente se envolveu com o enredo.

– O momento do anúncio foi o ápice, de reencontro da comunidade com o enredo que ela se identificasse diretamente, um enredo que falasse sobre o próprio carnaval, a história do samba, que envolvesse a parte também de todas as religiões de matrizes africanas – afirmou Haddad.

– A comunidade recebeu da melhor maneira possível, tinha muita gente emocionada, chorando feliz de estar vivendo aquele momento ali com a Vila – observou.

Escola popular

Leonardo Bora destacou que a Vila é considerada uma escola de rua, que gosta dessas festividades da rua, da calçada, da esquina e do botequim.

Para ele, é um enredo que acaba necessariamente transitando por este universo, porque o Heitor também é um personagem das ruas do Rio de Janeiro, do carnaval brincado no bonde, da memória de uma cidade que pode ser tão festiva e agregadora como era a antiga Praça Onze, onde tantas famílias migrantes de diferentes origens conviviam.

Na visão do carnavalesco, a Vila tem apreço por esta nostalgia carnavalesca, já cantada em vários sambas belíssimos como do próprio Martinho da Vila.

Por outro lado, é uma escola muito aguerrida, muito orgulhosa das suas raízes negras, das comunidades que formam a sua base, o Morro dos Macacos e o Morro do Pau da Bandeira.

– É um enredo que pegou na veia do componente da Vila Isabel e o agradou muito, porque não tem como não se identificar.

Para Alex Neoral, que assina com Márcio Jahú a coreografia da Comissão de Frente, este enredo, que é o primeiro deles com Bora e Haddad, está sendo bastante desafiador, mas ao mesmo tempo muito emocionante.

– Desenvolver uma comissão a partir dessa personalidade é uma responsabilidade. Às vezes é também um poço sem fundo de possibilidades, porque ele era um artista múltiplo – disse à Agência Brasil.

– Ali, a gente tem a oportunidade de trabalhar ele como alfaiate, como compositor, como pintor, como sambista, como ogã, como macumbeiro, como um homem negro importante e atuante naquela época, amigo de Noel Rosa, de Cartola, fundando as escolas que hoje em dia são a Portela, a Mangueira.

Esse é o 17º ano que Alex faz a coreografia de uma Comissão de Frente. Ele avaliou que o trabalho está cada vez mais desafiador.

– As comissões, como um todo e em todas as escolas, são quase um espetáculo independente do desfile. É uma responsabilidade muito grande – pontuou.

Neoral confirmou que haverá surpresas na apresentação, fato que costuma empolgar o público na avenida.

– Não é no sentido de uma mágica, não é só isso. É uma surpresa de pegar no inesperado. Pegar o público despercebido e emocionar, e aí a emoção vai no coração, em algo que é mais virtuoso.

Como a coreografia é feita a partir da música, Neoral elogiou o samba, o qual considerou excelente para a apresentação da Comissão. Ele explica que um bom samba impulsiona o movimento e dá motivação, e aposta que a Vila tem um dos melhores sambas deste ano.

– Na prática, é muito fácil coreografar um samba bom, bonito e que faz mover. Isso também faz diferença na questão da emoção, da execução, do resultado. Estou muito feliz com a escola este ano, com o enredo, com os carnavalescos e com a comunidade. Muito confiante e feliz – concluiu empolgado.

Conheça os enredos e a ordem dos desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro:

1º dia – domingo (15/2)

Acadêmicos de Niterói – Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil;

Imperatriz Leopoldinense – Camaleônico;

Portela – O Mistério do Príncipe do Bará;

Estação Primeira de Mangueira – Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – o Guardião da Amazônia Negra

2º dia – segunda-feira (16/2)

Mocidade Independente de Padre Miguel – Rita Lee, a Padroeira da Liberdade;

Beija‑Flor de Nilópolis – Bembé do Mercado;

Unidos do Viradouro – Pra Cima, Ciça;

Unidos da Tijuca – Carolina Maria de Jesus.

3º dia – terça-feira (17/2)

Paraíso do Tuiuti  – Lonã Ifá Lukumi;

Unidos de Vila Isabel – Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África;

Acadêmicos do Grande Rio – A Nação do Mangue;

Acadêmicos do Salgueiro – A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau.

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