Rio de Janeiro, 17 de Junho de 2026

Trump repete fascismo de Mussolini quando o assunto é Copa

Análise de como Trump se inspira em Mussolini ao transformar a Copa do Mundo de 2026 em um palanque político, refletindo sobre a história do esporte e do poder.

Quarta, 17 de Junho de 2026 às 09:08, por: CdB

Da Itália de 1934 aos Estados Unidos de 2026, a Copa reaparece como palco de culto à personalidade, interferências e favorecimentos políticos.

Por Thiago Modenesi – de Brasília

Quando a história apontar Donald Trump como o grande vilão que transformou a Copa do Mundo de 2026 em um palanque político pessoal, é preciso respirar fundo e lembrar: o presidente norte-americano não inventou nada. Ele apenas aperfeiçoou um roteiro escrito há quase um século por Benito Mussolini, o ditador fascista que, em 1934, foi o verdadeiro precursor do sequestro de um Mundial.

Donald Trump e Benito Mussolini

A Itália daquele ano não sediou apenas um torneio de futebol. Sediou uma encenação de poder. Mussolini gastou fortunas em estádios monumentais, organizou desfiles militares e transformou cada jogo da seleção italiana em um ato de propaganda fascista. Mas as intervenções foram muito além do cerimonial. O Duce interferiu diretamente na arbitragem, escolhendo pessoalmente o juiz sueco Ivan Eklind para apitar as partidas decisivas. Historiadores documentam que Eklind se encontrou com Mussolini antes da semifinal e da final, e suas decisões em campo, incluindo um pênalti mais do que duvidoso a favor da Itália, foram, no mínimo, convenientes para os interesses do regime. O próprio Jules Rimet, então presidente da Fifa, admitiu, resignado, que quem organizava a Copa não era ele, mas Mussolini.

E o ápice do narcisismo político veio na premiação. Insatisfeito com a taça Jules Rimet, Mussolini criou sua própria honraria: a Coppa del Duce, um troféu gigantesco, seis vezes maior que o original, entregue à Itália campeã como um tributo explícito ao seu líder. O esporte, ali, deixava de ser esporte para virar adereço de um regime.

Estados Unidos

Agora, saltemos para 2026. Os Estados Unidos são anfitriões, e Donald Trump aplica o mesmo manual com uma eficiência assustadora. Sua política de imigração restritiva, que já havia colocado 39 países na chamada “lista negra” e promovido mais de 400 mil deportações, atingiu diretamente a organização do Mundial. O caso mais emblemático foi a negação de visto ao árbitro somali Omar Artan, escalado pela Fifa e impedido de entrar em solo norte-americano sem qualquer justificativa técnica ou jurídica plausível. Na prática, Trump fez exatamente o que Mussolini fez: interferiu na arbitragem, ainda que por uma via burocrática.

No campo simbólico, a repetição do padrão é quase cômica, se não fosse trágica. Enquanto Mussolini ganhou sua própria taça, Trump recebeu das mãos do presidente da Fifa, Gianni Infantino, o recém-criado Prêmio da Paz. Uma honraria inventada sob medida para bajular o anfitrião, acompanhada do aluguel de um andar inteiro na Trump Tower pela própria instituição. Não é exagero chamar isso de compra de favor institucionalizada.

A diferença de contextos históricos é óbvia. Mussolini era um ditador fascista no auge de um regime totalitário, já Trump opera dentro de instituições democráticas, mas as tensiona ao limite todo o tempo. Mas a essência da manipulação é idêntica. Ambos entenderam que a Copa do Mundo é a vitrine mais poderosa do planeta: bilhões de olhos, centenas de nações, um palco onde qualquer gesto se torna manchete global. E ambos decidiram que esse palco deveria servir a seus egos e suas agendas, e não ao espírito esportivo.

O que mais incomoda, porém, não é a atitude dos líderes. É a passividade da Fifa. Em 1934, Jules Rimet assistiu, de braços cruzados, ao sequestro da própria competição. Em 2026, Gianni Infantino não apenas assiste: colabora, concede prêmios, aluga espaços na torre de Trump e aplaude de peito aberto. O futebol, mais uma vez, sai perdendo. A bola até rola, mas quem dita as regras, infelizmente, não é o juiz.

Que fique o alerta. Antes que o próximo fascista de plantão encontre o manual ainda mais aperfeiçoado, é preciso lembrar: a Copa do Mundo não é propriedade de nenhum suposto líder. Ou, pelo menos, não deveria ser.

 

Thiago Modenesi, é Bacharel em Direito, Licenciado em História e Pedagogo, Especialista em Ensino de História, Ciência Política, Gestão da Aprendizagem e Moderna Educação, Mestre e Doutor em Educação, com pos-doutorado na área. É professor no Mestrado em Gestão Pública para o Desenvolvimento do Nordeste e nos Programas de Pós-Graduação em Engenharia Biomédica e Ciências Farmacêuticas, todos na UFPE, membro do INCT iCeis, pesquisador sobre inovação e Estado, charges, cartuns e histórias em quadrinhos e editor na Quadriculando Editora, além de presidente do PCdoB em Jaboatão dos Guararapes-PE.

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