Entre amigos, a boa conversa se estendeu pela noite; em pauta, desde o tarifaço de Trump até a história arquitetônica do bairro Derby, no Recife.
Por Abraham B. Sicsú – de Brasília
Quina do Futuro, quinta-feira à noite. Muita gente, mesas animadas. Friozinho e uma leve chuva. Um sunomono e um sukyiaki para esquentar. O papo corre solto, sem muita direção, sem muito aprofundamento. Notícias do dia inquietam.

Mais um tarifaço. Haverá reciprocidade? A política americana tem trazido impactos que podem ser respondidos. O Congresso Nacional, em 2025, aprovou lei que permite retaliação contra países que imponham barreiras comerciais. No entanto, fundamental analisar quais as vantagens efetivas dessa atitude e quando deve ser assumida.
Vale ressaltar que boa parte dos produtos que exportamos foram isentos da tarifa de 25% e estão sujeitos apenas à nova de 12,5%, que atinge mais 60 países. Impactos localizados, no entanto, são notados como em máquinas agrícolas, papel e — nos afeta no Nordeste — no etanol.
Especialistas recomendam cautela. Há riscos na reciprocidade. E nem sempre é imediata. Pode haver impactos na inflação interna na medida em que torna mais cara a importação de produtos de que somos dependentes.
Outras medidas podem ser adotadas como suspender regras internacionais de patentes de empresas americanas, suspender incentivos e facilidades concedidas a empresas daquele país, impor tarifas sobre segmentos de prestação de serviços, além de outras. Parece ser mais eficiente do que o confronto direto.
Segundo os comensais, nos tornamos menos vulneráveis a partir do primeiro tarifaço de Trump, abrimos novos mercados, com ênfase na China e na Ásia. O que diminui muito o impacto interno. O problema maior foi saber que, se por um lado, na área dos produtos primários e agroindustriais fica muito evidente nosso avanço, no caso do Gigante Asiático, nossas exportações de manufaturados não conseguem evoluir muito em produtos mais tecnificados, justamente nos setores em que o tarifaço americano pode ter maior impacto.
O papo começa a aborrecer, literatura passa a ser o tema.
Uma querida amiga lança um livro, O Círculo do Derby. Todos curiosos pela leitura. Sua vida na Boa Vista e no Derby, bairros que tive o prazer de habitar, é a inspiração do texto. Sua trajetória recente, o que viveu, o que vive, são a base deste romance. Memórias e seu imaginário como base de desvendar a vida, dizem ser o tema, aqueles que deram uma folheada.
Poeta que é, se apoiou nesta estrutura literária para poder nos evidenciar o que 2023 nos trouxe como resgate político. Professora que sempre foi vanguarda na arquitetura e no seu ensino, resgata esses traços de um bairro que marca por sua história, por suas estruturas urbanas. Fiquei interessado no relato feito e será minha próxima leitura.
Colega economista está lendo o livro de Fernando Haddad, Capitalismo Superindustrial?. O nosso ex-ministro tenta colocar que estamos numa nova fase do capitalismo. Acho interessante a categorização como classe a do conhecimento, constituída por cientistas e técnicos que o capital utilizaria para a produção de inovações.
Um novo fator de produção ficaria constituído, o conhecimento que, a partir dele se permitiria auferir renda. Com essa caracterização, segundo quem já o leu, consegue mostrar o evoluir do capitalismo periférico e os papéis de classes redefinidos em que não há só capital e trabalho, nem mesmo o lúmpen proletariado, mas uma caracterização de um grupo que gera ideias, não valor em si, no qual se sustenta a dinâmica capitalista atual. Parece, também, que dá lampejos de como isso se reflete na estrutura política atual do país. Vou ler.
A terceira dica dada foi o livro A Ordem do Capital de Clara Mattei. Centra-se nas políticas de austeridade do século XX e na ascensão do fascismo na Europa, em particular na Itália. Um instrumento político para desestruturar processos democráticos. Taxas de juros exorbitantes, austeridade fiscal e monetária, escassez de crédito, como mecanismos de opressão da classe trabalhadora e precarização das condições de trabalho.
Brasil atual
As lições da história que, no Brasil atual, têm sido implementadas e levam a uma situação de difícil superação. A eliminação de direitos trabalhistas e sindicais como caminho tortuoso de apoio ao capital. A economista mostra que a austeridade é seletiva e serviu para um projeto de fortalecimento dos interesses da classe hegemônica, inclusive para o financiamento de guerras e ascensão do fascismo ao poder. Mais um texto que entrou na lista de leituras obrigatórias.
O processo de empobrecimento social, observado em anos recentes, principalmente no governo anterior brasileiro, com reformas e privatizações, seguiu o mesmo caminho do que a Itália viveu na consolidação do regime de Mussolini.
Chegou a hora do café. Uma noite por demais agradável. Nada melhor do que uma boa mesa e bons amigos para tornar a vida mais rica. Começo a jornada de leituras proposta.
Abraham B. Sicsú, é professor aposentado do Departamento de Engenharia de Produção da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e pesquisador aposentado da Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco).
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