Galípolo afirmou que o fenômeno particular do Brasil faz com que elevações da Selic pelo BC aumentem a remuneração dos detentores de Letras Financeiras do Tesouro (LFT).
Por Redação, com ABr – de Brasília
Presidente do Banco Central (BC), o economista Gabriel Galípolo afirmou, nesta terça-feira, que a dependência do governo brasileiro de uma participação elevada de títulos atrelados à taxa oficial de juros (Selic) na composição da dívida pública pode dificultar o trabalho da autarquia para controlar a inflação.

Em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Galípolo afirmou que o fenômeno particular do Brasil faz com que elevações da Selic pelo BC aumentem a remuneração dos detentores de Letras Financeiras do Tesouro (LFT).
— Hoje nós temos 50% da dívida soberana ‘linkada’ à Selic… Quanto mais eu subo juros, mais renda o detentor de LFT tem — observou, indicando que uma elevação na renda dos detentores pode atuar contra o trabalho do BC de arrefecer a atividade econômica para controlar a inflação.
Composição
Em março, a dívida pública federal tinha uma fatia de 47,7% de títulos atrelados à Selic em sua composição, segundo dados do Tesouro Nacional. A taxa está, atualmente, em 14,50% ao ano, enquanto o BC faz uma calibração dos juros com cortes graduais e promete encerrar o ciclo ainda em nível restritivo.
Galípolo acrescentou que o país tem registrado resiliência econômica, desemprego baixo e crescimento da renda dos trabalhadores acima da inflação apesar de juros “bastante restritivos”.
— Toda vez que a gente tem esses indicadores mostrando uma economia que está bastante aquecida, com a demanda pressionando a oferta, e isso vem colocando a inflação mais distante da meta… a resposta que é demandada ao BC é colocar a taxa de juros num patamar mais restritivo para tentar devolver a inflação à meta dentro do horizonte relevante — acrescentou.
Projeções
Durante a apresentação, Galípolo avaliou ser “normal” que choques de oferta gerem aumento das expectativas de inflação no curto prazo, mas chamou atenção para o fato de que as projeções de mercado para 2028 também estão aumentando, algo que não deveria acontecer apenas em decorrência dos choques.
Segundo o executivo, dois choques de oferta estão impactando a economia: o do petróleo, em meio à guerra no Oriente Médio, e o do fenômeno climático El Niño.
— Também estamos vendo desancoragem das expectativas de inflação para 2028, que não deveria acontecer considerando apenas os efeitos dos choques atuais — disse Galípolo aos senadores.
Golfo Pérsico
Desde o início da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, no fim de fevereiro, as expectativas de inflação no Brasil estão subindo, na esteira da disparada dos preços do petróleo no mercado internacional.
No boletim Focus divulgado pelo BC na segunda-feira, a mediana das projeções dos economistas para a inflação em 2026 está em 4,92% e para 2027 em 4,00% — bem acima dos 3,91% e dos 3,79% projetados antes da guerra, respectivamente.
Tem chamado a atenção dos dirigentes do BC, no entanto, o fato de as expectativas para 2028 também estarem aumentando. No último Focus, a projeção de inflação para 2028 estava em 3,65%, contra 3,50% de antes da guerra. A meta de inflação perseguida pelo BC é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos.