Rio de Janeiro, 25 de Março de 2026

Samba da Brasa, o calor que os meninos não deixam apagar

Por Rosana Alves  – É calor constante, insistente, daqueles que não se apagam fácil, que atravessam a madrugada sendo alimentados pela presença, pela escuta, pela entrega.

Quarta, 25 de Março de 2026 às 09:58, por: CdB

É calor constante, insistente, daqueles que não se apagam fácil, que atravessam a madrugada sendo alimentados pela presença, pela escuta, pela entrega.

Por Rosana Alves – de São Paulo

Fui ao bar do Lucas no último sábado só pra ouvir um samba. Fui leve, sem querer pensar muito, sem intenção de transformar a noite em nada além de descanso, dessas pausas que a gente tenta se permitir no meio da correria. Mas o bar do Lucas tem dessas coisas, ele não deixa a gente passar por ele sem ser atravessada. Ali, entre o barulho dos copos, o vai e vem das pessoas, o aperto das mesas e o calor do corpo coletivo, existe alguma coisa que não se explica facilmente, mas que se sente com uma força difícil de ignorar.

Samba da Brasa, o calor que os meninos não deixam apagar | Samba da Brasa
Samba da Brasa

E naquele sábado, no meio de tudo isso, havia uma roda que eu ainda não conhecia. Samba da Brasa. Fiquei ali, quieta, observando, ouvindo, e em algum momento já não era mais só escuta, era envolvimento, era corpo junto, era emoção que ia chegando sem pedir licença. Quando terminou, eu precisei saber quem eram aqueles meninos. Fui falar com eles, com uma curiosidade que era também uma espécie de urgência, de onde vinha aquilo?

E a resposta veio simples, quase despretensiosa, como tudo que é verdadeiro costuma ser. O Francisco, há alguns anos, sem saber muito bem como comemorar o aniversário, fez o que talvez seja o gesto mais bonito que alguém pode fazer, chamou os amigos pra fazer um samba. Nada de palco, nada de estrutura, nada de produção, só a vontade de estar junto e fazer soar aquilo que já existia entre eles. Não tinha lugar, pediu ao Lucas se podia ser ali, no bar. E o Lucas, com essa sensibilidade que é também uma forma de compromisso com a vida que circula naquele espaço, disse sim. E o que aconteceu naquela noite foi tão bonito, tão cheio, tão vivo, que não coube em si mesmo. Ficou. Reverberou. E foi o próprio Lucas quem sugeriu, voltem, façam isso de novo, isso precisa continuar. E continuou, foi voltando e foi ficando.

E, quando se vê, aquilo que nasceu como celebração vira permanência, vira prática, vira coletivo, vira nome: Samba da Brasa.

E não poderia ter nome melhor. Porque o que aqueles meninos sustentam ali não é chama passageira. É brasa. É calor constante, insistente, daqueles que não se apagam fácil, que atravessam a madrugada sendo alimentados pela presença, pela escuta, pela entrega.

E são eles que alimentam essa brasa. Meninos, e eu digo meninos com todo o peso bonito que essa palavra pode ter,  jovens, muitos ainda na casa dos vinte, outros um pouco mais velhos, mas todos carregando uma responsabilidade que não é leve. E o que mais impressiona não é só o talento, embora ele esteja ali, evidente. É o cuidado. É o respeito. É a seriedade com que eles se colocam diante do samba. Eles não tratam aquilo como passatempo, como distração, como algo menor. Eles tratam como aquilo que é, algo que veio antes deles e que precisa continuar depois deles.

Eles cantam se olhando, se escutando, se esperando. Sabem a hora de entrar, a hora de segurar, a hora de sustentar o outro. Erram e riem, acertam e seguem, mas nunca perdem o eixo da roda, nunca deixam o coletivo se romper. Há ali uma ética que não foi ensinada em sala de aula, mas que foi aprendida na convivência, na presença, no contato com quem veio antes.

E isso aparece com força na relação com os mais velhos. Porque eles não estão sozinhos. Eles se formam em diálogo com uma linhagem, com gente do Samba da Vela, com quem carrega no corpo anos e anos de samba, de roda, de resistência. E é bonito demais ver como isso se dá sem formalidade, sem discurso, sem ninguém precisar dizer “agora eu vou te ensinar”. O ensino acontece na escuta, no olhar, no gesto, na correção sutil, no tempo compartilhado. É uma transmissão viva, pulsando ali, acontecendo diante dos nossos olhos.

E talvez por isso tudo me veio, com uma força que não dava pra ignorar, o bar do Lucas é uma escola, e cada mesa é uma sala de aula. Não é só um bar. Nunca foi. É território, é encontro, é memória em movimento.

Mas uma escola sem paredes, sem hierarquia rígida, sem fragmentação do conhecimento. Uma escola onde se aprende junto, onde se aprende vivendo, onde o saber circula entre gerações e ganha corpo na prática. Ali, o conhecimento não está separado da vida. Ele é a própria vida acontecendo.

E o que esses meninos fazem é bonito demais.

Repertório

Eles sustentam repertório. Eles socializam um saber que não é deles, mas que passa por eles. Eles recriam, reinventam, mantêm vivo algo que poderia facilmente se perder. E mais do que isso, eles criam. Compõem. Colocam no mundo músicas próprias, versos que nascem ali, que carregam o peso do que aprenderam e, ao mesmo tempo, a marca do que estão se tornando. E é de uma beleza imensa ouvir essas músicas autorais, perceber que, quando o que há de melhor é partilhado com seriedade, as novas gerações não apenas aprendem, elas continuam, transformam, dão seguimento ao que a humanidade produziu de mais bonito.

Eles fazem isso com alegria, com entrega, com generosidade, dividindo, abrindo, puxando quem chega, incluindo quem encosta.

E fazem isso sem garantia nenhuma. Porque a realidade insiste em atravessar tudo. Nem todos vivem da música. Muitos trabalham em outras coisas, dirigem pela cidade, se viram como dá. Gastam o que não têm, atravessam distâncias, enfrentam o cansaço e, ainda assim, chegam. E, ainda assim, cantam. E, ainda assim, sustentam. E isso não diminui o que fazem, isso engrandece. Porque revela que não é por acaso. Não é por conveniência. Não é porque “deu certo”. É porque acreditam, porque reconhecem,  porque sabem de algum jeito profundo, que aquilo importa.

Fui ao bar do Lucas pra ouvir um samba. Saí de lá com o coração cheio, e com a sensação de ter presenciado algo raro, uma juventude que não virou as costas para o que veio antes, que não tratou a tradição como peso, mas como responsabilidade, como herança viva, como algo que merece ser cuidado, alimentado, compartilhado.

E, sinceramente, depois de ver aqueles meninos sustentando a brasa com tanta beleza, tanta dignidade, tanta entrega, fica difícil aceitar que o mundo siga tratando isso como se fosse pouco. Como se fosse detalhe. Como se fosse só mais uma roda, só mais um sábado, só mais um bar.

Não é. O que está ali é grande demais para caber na indiferença. Ver que, apesar de tudo, da pressa, da dureza da vida, da falta de condições, ainda tem quem segure. Ainda tem quem sustente. Ainda tem quem não deixe apagar.

E eles não deixam, eles ficam, cantam, aprendem e ensinam, criam. E, sem perceber, ou talvez percebendo profundamente, fazem algo que não é pequeno, não é passageiro. Fazem história continuar.

 

Rosana Alves, é professora, historiadora, pedagoga e coordenadora pedagógica na rede municipal de Ensino de São Paulo (SP). É mestra em Filosofia e História da Educação pela Unicamp e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP, além de membro da direção do PCdoB São Paulo (SP).

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