Estado registrou 2.566 ocorrências até agosto, segundo o Ministério da Justiça; apesar da redução dos casos nos últimos meses, valor das mercadorias roubadas aumentou 39%.
Por Redação, com Agenda do Poder – do Rio de Janeiro
O Estado do Rio de Janeiro concentrou 53% dos roubos de carga registrados no Brasil nos oito primeiros meses de 2026, segundo dados consolidados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. No período, o prejuízo com as mercadorias roubadas chegou a R$ 201,1 milhões, conforme levantamento do Sindicarga.

Apesar da redução no número de ocorrências nos últimos meses, o valor dos produtos levados pelos criminosos aumentou 39% em relação ao mesmo período de 2025. No ano passado, o prejuízo calculado até agosto havia sido de R$ 144,4 milhões.
Os dados da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas da Polícia Civil apontam 2.084 registros no estado neste ano. A quantidade de casos caiu desde março, quando foram contabilizadas 397 ocorrências. Em agosto, foram 130 registros, o menor número do ano e também o menor para o mês em mais de duas décadas.
Os registros
A estatística do Ministério da Justiça apresenta um total maior para o Rio: 2.566 ocorrências até agosto. O número supera o registrado em São Paulo, que contabilizou 1.636 casos no mesmo período, segundo o órgão federal.
O presidente do Sindicarga, Filipe Coelho, atribui parte da diferença entre os dados dos estados à falta de padronização na classificação dos roubos de carga. Segundo ele, a entidade pretende apresentar ao Ministério da Justiça uma reivindicação para que os registros sejam uniformizados.
A Polícia Civil relaciona a redução das ocorrências ao trabalho de inteligência e à atuação conjunta com a Polícia Militar e a Polícia Rodoviária Federal. O levantamento federal, no entanto, mantém o Rio na liderança nacional em número de casos até agosto.
O diretor da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas, André Prates, afirma que o roubo de cargas representa uma fonte de lucro para grupos ligados ao tráfico no Rio. Segundo ele, as quadrilhas contam com armamento, veículos de apoio e suporte territorial para receber os caminhões e retirar as mercadorias.
Os criminosos recebem uma comissão sobre o valor dos produtos revendidos. De acordo com o delegado, os grupos podem contar com informações obtidas dentro de empresas fornecedoras ou de monitoramento de cargas, além de observar locais onde caminhões costumam parar e as rotas utilizadas.
Há também casos em que os assaltantes abordam o caminhão sem saber qual mercadoria está sendo transportada. Depois de render o motorista, eles entram em contato com integrantes do tráfico para verificar se a carga interessa e definir o destino dos produtos.
Medicamentos
Segundo especialistas ouvidos pela reportagem e dados da DRFC, houve mudança no perfil das mercadorias procuradas pelos criminosos. Cargas maiores, que exigem mais risco para serem roubadas, passaram a ser alvo quando apresentam possibilidade de lucro elevado.
Produtos de alto valor agregado, como medicamentos, também estão entre os itens procurados. Mesmo assim, alimentos continuam predominando entre as cargas roubadas, por serem mais fáceis de distribuir e comercializar.
Um dos casos ocorreu em 21 de maio, quando um caminhoneiro aguardava para descarregar uma carga de leite condensado e creme de leite em frente a um mercado de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Ele foi abordado por criminosos armados e levado com o caminhão para a região da Penha.
A carga, avaliada em mais de R$ 260 mil, foi retirada. O motorista permaneceu horas sob domínio dos criminosos e depois foi levado até a Cidade Alta, em Cordovil. O caminhão foi localizado vazio pela polícia no mesmo dia.
Outro ponto destacado pelo Sindicarga é a reincidência. A entidade analisou cem processos judiciais relacionados a roubos de carga nos últimos três anos e identificou 168 réus. Desse total, 158 já eram reincidentes, o equivalente a 94%.
O presidente do sindicato afirma que a entidade considera a reincidência um dos principais problemas relacionados ao crime. Segundo ele, muitos condenados deixam o sistema prisional antes de dois anos e voltam a praticar roubos de carga.
A Polícia Civil também aponta o envolvimento de adolescentes nas abordagens. De acordo com o diretor da DRFC, quadrilhas passaram a aliciar jovens para facilitar a entrada nos caminhões em movimento.
Os veículos possuem sistemas de bloqueio acionados quando uma porta é aberta externamente durante o deslocamento. Segundo o delegado, os adolescentes são utilizados para entrar pelas janelas com maior rapidez e contornar esse mecanismo.