Investigações apontam que integrantes do CV viajam do Rio para executar rivais ligados ao PCC em cidades como Rio Claro.
Por Redação, com Agenda do Poder – do Rio de Janeiro
A Polícia Civil de São Paulo identificou um padrão de atuação de integrantes do Comando Vermelho (CV) envolvidos em homicídios no interior paulista. De acordo com investigações concluídas recentemente, criminosos ligados à facção carioca têm viajado do Rio de Janeiro para cidades do interior do Estado com o objetivo de executar rivais associados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e retornar logo depois à capital fluminense.

Um dos casos investigados ocorreu em 28 de agosto do ano passado. Na ocasião, Ryan Igor Cândido, de 21 anos, teria saído da Rodoviária do Rio em um ônibus com destino a Piracicaba. Após desembarcar, ele e um comparsa seguiram até a cidade vizinha de Rio Claro, onde um homem foi morto a tiros enquanto estava com a companheira em um trailer de lanches no bairro Jardim Novo.
Segundo o inquérito policial, acompanhado pela reportagem do jornal O Estado de São Paulo, os suspeitos utilizaram um Ford EcoSport branco roubado em Santo André, no ABC paulista. Após o crime, o veículo foi abandonado em um bairro próximo e os criminosos tentaram incendiá-lo, sem sucesso. Ryan teria retornado ao Rio de Janeiro logo após a ação.
Investigação
A investigação indica que o homicídio não foi um episódio isolado. Autoridades apontam que o chamado ‘bate-volta do crime’ tem sido utilizado por integrantes do Comando Vermelho para realizar execuções contra adversários ligados ao PCC na região de Rio Claro.
A reportagem identificou pelo menos três casos com inquéritos concluídos nos quais suspeitos saíram do Rio de Janeiro, cometeram homicídios no interior paulista e voltaram para o Estado fluminense pouco depois.
De acordo com a polícia, o alvo do ataque de agosto estaria ligado a um ponto de venda de drogas associado ao PCC. A disputa por territórios de tráfico tem sido apontada como um dos fatores por trás da escalada de violência entre as facções.
PCC e CV
Investigadores afirmam que a presença do Comando Vermelho na região de Rio Claro cresceu após a aproximação de integrantes de um grupo criminoso local conhecido como Bonde do Magrelo.
Segundo a polícia, Leonardo Felipe Panono Scupin Calixto, conhecido como Léo Bode, é apontado como líder do núcleo da facção na cidade. Ele teria assumido protagonismo no crime após a prisão do antigo chefe do grupo, Anderson Ricardo de Menezes, conhecido como Magrelo.
Com base nas investigações, Calixto passou a comandar atividades criminosas a partir do Rio de Janeiro, utilizando aliados que se deslocam periodicamente para São Paulo para cumprir ordens e executar rivais.
Violência na região
Dados da polícia indicam que, nos últimos cinco anos, ao menos 30 assassinatos registrados em Rio Claro tiveram relação com disputas entre grupos do crime organizado. Esse número representa cerca de um quinto dos homicídios dolosos contabilizados no município no período.
Autoridades afirmam que parte das mortes ocorre em conflitos internos entre integrantes das próprias facções, enquanto outros casos refletem diretamente a rivalidade entre PCC e Comando Vermelho.
A cidade ocupa posição estratégica no interior paulista por estar próxima a rodovias importantes, como a Washington Luís, utilizadas em rotas de circulação de drogas e armamentos vindos de países vizinhos.
Execuções
Um dos episódios que chamou a atenção das autoridades foi a execução, em 2022, de um veterinário investigado por tráfico internacional de cocaína e apontado como aliado do PCC. O crime ocorreu na cidade de São Pedro, quando a vítima dirigia um Jeep Commander e foi atingida por diversos disparos, inclusive de fuzil.
A investigação levou à identificação de suspeitos ligados a grupos rivais. A análise de celulares apreendidos pela polícia revelou mensagens que ajudaram a reconstruir a dinâmica da ação e identificar possíveis participantes.
Segundo investigadores, o caso representou um ponto de virada nas apurações sobre o avanço da disputa entre facções na região.
Em janeiro deste ano, o Ministério Público e a Polícia Militar realizaram uma operação contra 26 suspeitos de envolvimento na disputa territorial entre grupos criminosos no interior paulista.
Mandados de busca e apreensão foram cumpridos em cidades como Rio Claro, Araras, Limeira e Piracicaba. A ação teve como objetivo reunir provas sobre a atuação de facções e tentar reduzir a violência associada ao tráfico de drogas.
Promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) afirmam que o conflito entre PCC e Comando Vermelho provocou uma escalada de homicídios desde 2021 e criou um clima de insegurança em municípios da região.
Tensão
Apesar de diversas prisões e operações policiais nos últimos anos, autoridades avaliam que a rivalidade entre as facções ainda permanece ativa no interior de São Paulo.
Investigadores afirmam que apreensões recentes indicam a existência de novos planos de ataques, o que mantém o alerta das forças de segurança na região.
Para promotores e policiais que acompanham o caso, a prioridade agora é evitar que a disputa entre grupos criminosos continue ampliando a violência e afetando a população local.