Rio de Janeiro, 10 de Julho de 2026

PF diz que Vorcaro pagou influenciadores para criticar o BC

Informações constam na decisão do ministro André Mendonça, que autorizou uma nova fase da Operação Compliance Zero.

Sexta, 10 de Julho de 2026 às 14:47, por: CdB

Informações constam na decisão do ministro André Mendonça, que autorizou uma nova fase da Operação Compliance Zero.

Por Redação, com Brasil de Fato – de Brasília

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, ofereceu pagamentos de até R$ 2 milhões para que influenciadores digitais publicassem conteúdos contra o Banco Central (BC) e em defesa do Banco Master nas redes sociais, segundo as investigações da Polícia Federal (PF). 

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro

As informações constam na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou uma nova fase da Operação Compliance Zero e determinou busca e apreensão contra o publicitário Thiago Miranda Silva nesta sexta-feira, apontado pela investigação como responsável por coordenar as ações.

Segundo a PF, o esquema foi batizado de Projeto DV, em referência às iniciais de Daniel Vorcaro. A investigação aponta que Thiago Miranda, sócio do Portal Léo Dias e da agência MiThi, atuava no recrutamento de influenciadores e jornalistas, fazia os pagamentos e coordenava ações de comunicação para favorecer o Banco Master e questionar a atuação do Banco Central.

De acordo com a investigação, os interessados recebiam propostas para firmar contratos de prestação de serviços e de confidencialidade com multa de R$ 800 mil em caso de descumprimento antes de conhecerem o conteúdo do trabalho. 

Em depoimento à Polícia Federal, o vereador Rony Gabriel afirmou que recebeu uma proposta de “gerenciamento de reputação” para “um importante executivo”. Após assinar o acordo de confidencialidade, foi informado de que deveria gravar vídeos defendendo o Banco Master.

A PF afirma que pessoas que recusaram participar do projeto passaram a ser alvo de intimidação. Segundo a investigação, o grupo utilizava informações privadas obtidas de forma ilícita para coagir quem não aceitava as propostas.

Pagamentos

Em depoimento, Thiago Miranda confirmou que realizava os pagamentos aos influenciadores. Segundo a investigação, os recursos tinham origem em Vorcaro e eram transferidos por meio da empresa Super Empreendimentos e Participações. Para a PF, o dinheiro fazia parte do esquema investigado na Operação Compliance Zero.

Segundo Miranda, após a primeira soltura do banqueiro, foi elaborado o “plano de reestruturação de imagem e gerenciamento de crise”. O publicitário confirmou que o Projeto DV previa a produção de “matérias a serem veiculadas em mídia sobre a prisão e sobre toda a investigação relacionada ao Master”.

A investigação também aponta ações para monitorar e pressionar jornalistas. Segundo a PF, Thiago Miranda e Daniel Vorcaro discutiram estratégias para obter informações sobre a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, incluindo dados financeiros, familiares e patrimoniais. 

Em mensagens analisadas pela corporação, Vorcaro afirmou que precisava “frear” a jornalista porque ela iria “dar trabalho nos próximos dias”. Em outra conversa, disse que precisava “calar essa mulher”. Os diálogos também registram discussões sobre uma proposta para contratar Malu Gaspar. O nome do jornalista Lauro Jardim também aparece nas conversas e, segundo diário conservador carioca O Globo, ele recebeu uma proposta de contratação.

A Polícia Federal também afirma que a jornalista Consuelo Dieguez, da revista Piauí, foi procurada por Thiago Miranda para retirar uma reportagem do ar. Segundo a investigação, ela recusou o pedido e orientou o publicitário a encaminhar uma carta à revista com os termos “do que ele acharia que refletiriam a realidade.”

A decisão também cita Renato Breia, sócio fundador da Nord Investimentos, que teria retirado um conteúdo do ar a pedido de Thiago Miranda, segundo a PF. A investigação afirma que mensagens mostram “a sua contrariedade com a abordagem”.

“Do teor das conversas registradas, verifica-se que Thiago ficou contrariado com a postura de Consuelo. Isso porque a jornalista se recusou a fazer a retirada do conteúdo solicitado e o orientou a enviar uma carta à revista com os termos do que ele acharia que refletiriam a realidade. Já no caso do contato com Renato, apesar de o pedido para retirada do conteúdo ter sido atendido, verifica-se da sua mensagem de resposta à Thiago a sua contrariedade com a abordagem, da forma como realizada”, diz trecho da decisão de Mendonça.

Em nota à imprensa, a Nord e seu sócio-fundador confirmaram que foram procurados por Miranda “insistentemente” para que Breia retirasse um conteúdo publicado em seu perfil no Instagram em outubro de 2024. A publicação recomendava aos clientes que não investissem no CDB do Banco Master. “O executivo foi, inclusive, acionado extrajudicialmente pela instituição. Breia está à disposição das autoridades para todos os esclarecimentos que se façam necessários”, diz em nota.

A investigação ainda aponta que Vorcaro pediu a Miranda um levantamento sobre Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú, e sua esposa. Em uma das mensagens, Vorcaro escreveu: “Estou precisando fazer um levantamento do Milton Maluhy”. Thiago Miranda respondeu: “Deixa comigo.” Segundo a PF, um dossiê sobre o casal foi produzido pela agência do publicitário e compartilhado entre os dois.

A decisão de André Mendonça afirma que os elementos reunidos pela investigação não são “meras conjecturas”. O ministro autorizou a apreensão de documentos, aparelhos celulares e dados armazenados em nuvem, além do afastamento dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Thiago Miranda. O parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR) foi favorável às medidas. Segundo a decisão, o grupo tinha “contornos de máfia” e atuava contra pessoas consideradas obstáculos aos interesses de Daniel Vorcaro.

Em nota, a defesa de Miranda negou irregularidades. Segundo os advogados, o publicitário sempre atuou com “legalidade, transparência, respeito às instituições e pelo livre exercício da liberdade de expressão”. A defesa afirmou ainda que ele não praticou “ato criminoso” e “não participou de condutas voltadas a intimidar, coagir, constranger ou violar direitos de terceiros”. Também declarou que a investigação não permite antecipação de culpa e informou que Thiago Miranda está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.

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