Rio de Janeiro, 07 de Outubro de 2026

PF desarticula esquema de policiais que fornecia armas a Peixão

Segundo as investigações, o grupo também obtinha e repassava dados sigilosos da segurança pública.

Quarta, 07 de Outubro de 2026 às 11:14, por: CdB

Segundo as investigações, o grupo também obtinha e repassava dados sigilosos da segurança pública.

Por Redação, com Agenda do Poder – do Rio de Janeiro

Um policial militar, três ex-PMs e um ex-comissionado da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) foram presos nesta quarta-feira, suspeitos de negociar fuzis e pistolas com traficantes do Terceiro Comando Puro (TCP). A operação é realizada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público do Rio. O chefe da facção, Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, também é alvo dos mandados, mas ele e um policial civil são considerados foragidos.

O grupo também obtinha e repassava dados sigilosos da segurança pública

Segundo as investigações, o grupo também obtinha e repassava dados sigilosos da segurança pública, praticava agiotagem e utilizava empresas e contas para lavar dinheiro.

A Operação Magen cumpre sete mandados de prisão preventiva e 18 de busca e apreensão em bairros do Rio e nos municípios de Nova Iguaçu, Angra dos Reis, Mesquita, Nilópolis e Seropédica. A Justiça também determinou medidas cautelares contra investigados ligados à estrutura financeira do grupo, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica. O MPRJ também requereu o sequestro de três imóveis e 31 veículos.

Os agentes apreenderam dois fuzis, uma pistola, carregadores, acessórios, celulares e dinheiro em espécie.

De acordo com a investigação, a quadrilha mantinha uma estrutura voltada à compra, transporte e venda clandestina de armas. Entre os materiais comercializados estavam fuzis de uso restrito, pistolas, revólveres, carregadores e munições.

Em uma das negociações, os investigados teriam fornecido dez fuzis AR-15 à principal liderança da facção que atua no Complexo de Israel, o Álvaro Malaquias Santa Rosa, mais conhecido como Peixão.

Agentes 

O policiais são suspeitos de usar o acesso a sistemas restritos para obter informações sobre mandados de prisão, endereços, veículos e operações policiais, segundo a PF.

De acordo com a denúncia, Vitor Hugo Marinho Garcia, o Batata, ex-policial militar apontado como líder da organização criminosa, era um dos principais fornecedores de armas e informações privilegiadas a Peixão. Em uma das transações identificadas, em outubro de 2022, o ex-PM teria transportado e vendido ao chefe do TCP dez fuzis AR-15.

A denúncia descreve outras negociações de armamentos. José Carlos Ribeiro de Campos, o Ferrugem, ex-policial militar, é acusado de fornecer dois fuzis Colt M4 e quatro carregadores para revenda por integrantes do grupo. Já Johan Borja Portela, policial militar, teria colocado à venda um revólver calibre .38, nove pistolas Glock 9 mm e 22 carregadores.

A apuração aponta ainda que armas e equipamentos policiais eram entregues ao grupo como forma de pagamento ou comissão por algumas das negociações.

Movimentação 

O dinheiro obtido com os crimes teria sido movimentado por meio de contas de pessoas físicas e empresas de fachada. Segundo a PF, os investigados movimentaram mais de R$ 100 milhões em quatro anos, valor considerado incompatível com as rendas declaradas pelos envolvidos.

As cinco empresas relacionadas no pedido de bloqueio movimentaram, juntas, aproximadamente R$ 173,7 milhões. Os valores correspondem à soma de créditos e débitos identificados pela investigação. São empresas dos ramos de alimentação, comércio de materiais e construção e reforma, usadas no esquema de lavagem de dinheiro.

“Vitor Hugo Marinho Garcia movimentou cerca de R$ 31,9 milhões entre 2019 e 2023 e possuía patrimônio estimado em mais de R$ 5 milhões. Já o denunciado Marcel Rodrigues Fernandes, que atuou como assessor parlamentar na Alerj até outubro de 2025, movimentou aproximadamente R$ 33,2 milhões no mesmo período, sem fonte de renda compatível. Embora não declarasse à Receita Federal bens móveis ou imóveis em seu nome, possuía patrimônio estimado em quase R$ 3 milhões. Eduardo Thales Lopes Pires, também ex-policial militar e ex-ocupante de cargo comissionado na Alerj, movimentou aproximadamente R$ 33,4 milhões entre 2019 e 2023”, diz a o MP.

Ainda segundo a denúncia, em uma das conversas, Vitor teria explicado a Marcel que poderia utilizar sua empresa de crédito para movimentar dinheiro em espécie de terceiros e reinserir os valores na economia formal com aparência de licitude.

A ação penal encaminhada à Justiça atribui a Vitor e à sua companheira, Amanda de Souza Braga, a utilização da empresa VHMG Assessoria Construção & Reforma Ltda. para lavagem de capitais e ocultação patrimonial.

Já Eduardo e a mulher, Caroline Souza Vilela Barcelos, são acusados de utilizar a Forte Outlet Ltda., também denominada Forte Porcelanato BR Ltda., para movimentar e dissimular recursos.

Marcel e Danielle Rodrigues Gomes teriam utilizado, entre outras empresas, a Brutus Beer Ltda., em Angra dos Reis, para misturar recursos de origem lícita e ilícita. A Mega Frade Sucos e Lanches Ltda. e a Brutus Salgados Ltda., vinculadas a Marcel, também aparece no esquema.

A operação é conduzida pelo Grupo de Investigações Sensíveis (GISE) da PF e pelo Grupo de Atuação Especializada de Defesa da Integridade e Repressão à Sonegação Fiscal (GAESF) do MPRJ.

Amanda, Caroline e Danielle foram denunciadas por lavagem de dinheiro e não são alvo de mandados de prisão, somente de medidas cautelares. Segundo o GAESF, as condutas atribuídas a elas estão relacionadas ao uso de pessoas jurídicas e contas bancárias para dissimulação patrimonial.

Os investigados foram denunciados pelo Ministério Público e poderão responder, de acordo com a participação de cada um, por organização criminosa armada, comércio ilegal de armas e munições, violação de sigilo funcional, usura e lavagem de dinheiro, além de outros crimes que possam ser identificados durante as investigações.

A reportagem não conseguiu localizar a defesa dos citados, o espaço segue aberto para eventuais manifestações.

O policial civil Carlos Barnabé Santos Souza, conhecido como Alemão, é acusado de consultar o Portal de Segurança do Estado e repassar a Eduardo e Vitor informações sobre proprietários de veículos e endereços. Em outro caso, ele teria informado a Eduardo a localização de um homem procurado pela Justiça e a existência de um mandado de prisão contra ele. A suspeita é de que a informação tenha sido usada para que o grupo chegasse ao alvo antes da polícia.

Para o GAESF, essas informações poderiam ser usadas para cobrar dinheiro das vítimas por meio de extorsão.

A investigação também identificou consultas a dados de localização de celulares e a registros de circulação de veículos que teriam beneficiado o grupo. Em um dos casos, uma dessas informações teria sido obtida para ajudar um homem investigado por homicídio, mediante pagamento.

Quem é Peixão

Peixão construiu um império criminal a partir de estratégias agressivas

Alçado ao topo do Terceiro Comando Puro (TCP), Álvaro Malaquias Santa Rosa, mais conhecido como Peixão, é hoje um dos criminosos mais procurados no Rio de Janeiro. Mesmo sem jamais ter sido preso, sua presença se impõe por meio da violência, da fé distorcida e do controle absoluto sobre áreas inteiras da Zona Norte da capital.

Há mais de uma década na mira das forças de segurança — Polícia Civil, Militar e Federal —, Peixão construiu um império criminal a partir de estratégias agressivas, expulsando o Comando Vermelho (CV) de territórios chave. Essa campanha resultou no que ficou conhecido como o Complexo de Israel, um conglomerado de favelas formado por Vigário Geral, Parada de Lucas, Cidade Alta, Pica-Pau e Cinco Bocas, onde símbolos como a Estrela de Davi e a bandeira de Israel passaram a decorar vielas e muros.

A ficha criminal de Peixão é extensa. Ele acumula cerca de 50 ocorrências e responde por aproximadamente 20 mandados de prisão — por crimes que incluem tráfico de drogas, homicídio, ocultação de cadáver, tortura e assaltos. Nos últimos meses, passou também a ser investigado por suspeitas de terrorismo.

O líder do TCP também é acusado de praticar atos de intolerância religiosa nas comunidades sob seu domínio. Relatos apontam que ele teria ordenado a destruição de terreiros, proibido moradores de usar roupas brancas e vetado celebrações juninas em igrejas católicas da região.

Peixão comanda um aparato bélico de alto calibre. Segundo investigações recentes da Polícia Federal, o grupo sob seu comando tem acesso a fuzis, explosivos, munições em larga escala e até sistemas anti-drone. Grande parte desse arsenal estaria sendo importado do exterior ilegalmente e entregue por empresas de transporte convencionais e pelos Correios.

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