Rio de Janeiro, 03 de Outubro de 2026

Flávio Bolsonaro chega ao primeiro turno sob investigação

Flávio Bolsonaro acumula crises que desafiam sua trajetória e até de seu vice na reta decisiva da disputa presidencial.

Sábado, 03 de Outubro de 2026 às 11:38, por: CdB

Flávio Bolsonaro acumula crises que desafiam sua trajetória e até de seu vice na reta decisiva da disputa presidencial.

Por Redação, com Brasil de Fato – de Brasília

Flávio Bolsonaro (PL) chega ao primeiro turno da eleição presidencial sob investigação no Supremo Tribunal Federal (STF), conduzida pela Polícia Federal (PF), por suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas relacionadas ao financiamento de Dark Horse, filme sobre a trajetória de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O candidato a vice-presidente de sua chapa, Alfredo Gaspar (PL-AL), é alvo de uma acusação de estupro de vulnerável, que levou a PF a pedir autorização ao STF para investigá-lo.

À tribuna, em discurso, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) 

No caso de Flávio, o inquérito foi aberto em julho pelo ministro André Mendonça, a pedido da PF e com manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR). Documentos tornados públicos em setembro mostram que o senador negociou com o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, um aporte de US$ 24 milhões, supostamente para a produção de Dark Horse.

A situação de Gaspar é diferente. A PF realizou diligências preliminares e pediu autorização para instaurar formalmente um inquérito por suspeita de estupro de vulnerável. Até a última atualização pública do procedimento, o ministro Gilmar Mendes aguardava a conclusão dessas diligências e uma manifestação da PGR antes de decidir sobre a abertura da investigação.

Gaspar nega a acusação, afirma ser alvo de perseguição política e entregou material genético para exame de DNA. O homem que levou o caso a parlamentares também apresentou versões contraditórias sobre o episódio.

A investigação da PF sobre Dark Horse foi o episódio de maior consequência jurídica entre uma sequência de revelações envolvendo Flávio Bolsonaro ao longo de 2026. Reportagens de diferentes veículos mostraram conexões do candidato com personagens investigados no escândalo do INSS, emendas que terminaram em empresas e entidades sob suspeita e mensagens de um ex-sócio sobre o pagamento de despesas pessoais e uma suposta atuação do senador junto a um ministro do STF.

Os casos têm situações jurídicas diferentes. Parte das informações integra investigações policiais. Outras dizem respeito a relações empresariais, destinação de emendas ou alegações de terceiros que não resultaram, até o momento, em acusações criminais contra Flávio. O senador nega irregularidades nos episódios sobre os quais se manifestou.

R$ 134 milhões

Em maio, documentos e mensagens revelados pelo Intercept Brasil indicaram que o senador participou diretamente da busca por US$ 24 milhões para financiar Dark Horse. Até aquele momento, pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, haviam sido enviados em seis operações para uma estrutura financeira nos Estados Unidos usada pela produção. Nas mensagens, Bolsonaro e Vorcaro se tratam como ‘irmãos’.

Antes da publicação, Flávio classificou a informação como mentira. Depois da divulgação de áudios e mensagens, reconheceu ter procurado Vorcaro e passou a sustentar que se tratava de “patrocínio privado para um filme privado”. Negou ter recebido comissão ou oferecido qualquer contrapartida ao banqueiro.

A revelação deu origem a representações encaminhadas às autoridades. Em 23 de julho, Mendonça autorizou a abertura do inquérito pedido pela PF. Quando os documentos vieram a público, em setembro, a corporação descreveu Flávio como “interlocutor direto” de Vorcaro nas negociações e afirmou que ele participou de cobranças de repasses, agendamento de encontros e acompanhamento da produção.

Os registros também mostram que a interlocução continuou quando a situação do Banco Master já havia se agravado. Flávio manteve cobranças e contatos com Vorcaro depois de o Banco Central rejeitar a operação de compra do Master pelo BRB e após investigações sobre o banco terem se tornado públicas. Os dois ainda trocaram mensagens pouco antes da prisão do banqueiro.

Outras revelações ampliaram o mapa dessas relações. Em janeiro de 2025, Flávio voltou dos Estados Unidos a Brasília em um jato cuja estrutura societária incluía uma empresa da qual Vorcaro era sócio. Na viagem estava também o advogado e empresário Willer Tomaz, amigo de Flávio e dono de um terço da aeronave. Tomaz afirmou que não conhecia Vorcaro e que desconhecia a participação do banqueiro na estrutura quando ocorreu o voo.

Flávio também utilizou durante a campanha um apartamento de Tomaz que havia pertencido a Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro. Tomaz comprou o imóvel por valor R$ 2 milhões inferior ao mencionado na transação anterior, segundo os documentos citados pela reportagem.

Em agosto, outro levantamento mostrou três notas fiscais que somavam R$ 1,5 milhão, emitidas pelo escritório ligado a Flávio para empresas associadas ao entorno empresarial de Vorcaro. Duas notas de R$ 500 mil destinadas à Copenhagen Consultoria foram canceladas no mesmo dia. Uma terceira, também de R$ 500 mil, foi emitida para a Contábil Correa e não tinha registro de cancelamento nos documentos analisados.

A Copenhagen havia movimentado R$ 58 milhões provenientes do Banco Master, segundo documentos encaminhados à PGR. Flávio afirmou que as relações comerciais de seu escritório eram privadas e legais e negou ter prestado serviços à empresa.

INSS

As relações empresariais de Flávio já haviam chamado atenção no início do ano por outro motivo. Em fevereiro, um requerimento apresentado à CPMI do INSS pediu a convocação do senador para explicar vínculos de seu entorno com Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado como personagem central das fraudes contra aposentados e pensionistas.

Um dos elos era Alexandre Caetano dos Reis, apontado pela PF como sócio de Antunes em uma empresa nas Ilhas Virgens Britânicas. Alexandre também era responsável pela contabilidade do escritório de advocacia de Flávio. Sua irmã, Letícia Caetano dos Reis, administrava a empresa do senador.

Em setembro, reportagem do ICL Notícias revelou que a Bravo Grafeno, empresa da qual Flávio participava, estava registrada na mesma sala, em Brasília, de pelo menos 16 empresas ligadas ao Careca do INSS. A estrutura contábil responsável pelo endereço também prestava serviços ao senador.

O senador negou envolvimento com o esquema do INSS.

Emenda foi negociada com condenado no caso Marielle.

Outra frente apareceu em setembro. Mensagens obtidas pela PF no celular de Robson Calixto, o Peixe, condenado no caso do assassinato da vereadora Marielle Franco, mostram uma assessora de Flávio tratando com ele da liberação de uma emenda parlamentar.

A verba de cerca de R$ 200 mil foi destinada ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio, entidade ligada aos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão. Os registros mostram Calixto cobrando a liberação do dinheiro e a assessora sugerindo que ele procurasse Flávio pessoalmente para reforçar o pedido. R$ 199 mil foram posteriormente pagos ao instituto.

Na quinta-feira, levantamento do portal UOL mostrou que outras emendas indicadas por Flávio terminaram em contratos com empresas e instituições sob investigação ou questionamento de órgãos públicos.

Em Mesquita (RJ), R$ 666 mil de uma emenda destinada à saúde foram pagos ao Instituto de Medicina e Projeto (IMP), posteriormente classificado pela Receita Federal como “inexistente de fato”. O instituto também foi alvo de apuração do Tribunal de Contas do Estado do Rio e teve seus contratos rescindidos pela prefeitura.

Recursos indicados pelo senador também foram utilizados pelo governo do Rio para pagar a Glágio do Brasil e a Inbra-Tecnologia, empresas investigadas pela PF por suspeitas de fraude e combinação de resultados em licitações para equipamentos de proteção balística. Um projeto esportivo ligado ao Vasco, que recebeu emenda de R$ 4 milhões, também entrou na mira da Controladoria-Geral da União.

Flávio afirmou que seu gabinete indica as emendas, mas não escolhe as empresas posteriormente contratadas pelos órgãos e entidades beneficiados. Segundo ele, eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle.

Ex-sócio cita festas com garotas de programa, Rolex e atuação junto ao STF.

Na reta final da campanha, outra reportagem trouxe de volta Alexandre Santini, antigo sócio de Flávio em uma franquia da Kopenhagen. Segundo o site PlatôBR, Santini guardou mensagens, fotos e documentos que indicariam que pessoas próximas ao senador pagaram despesas pessoais dele.

O material inclui ainda registros de encontros privados com garotas de programa, dos quais Flávio teria participado. Segundo o PlatôBR, Santini organizava as festas e guardou conversas com uma agenciadora, além de fotografias e outros registros. Em uma das mensagens divulgadas, o ex-sócio pede à mulher que organize uma nova “festinha” com Flávio e outros amigos em um hotel no Rio de Janeiro.

Santini teria mostrado parte do material a Fernanda Bolsonaro, mulher de Flávio, durante uma disputa financeira entre os ex-sócios. Segundo a reportagem, posteriormente Flávio enviou uma mensagem a Santini em que dizia ter se arrependido de “muitas escolhas erradas” e que não pretendia voltar a errar com a família. O PlatôBR relacionou ainda os valores usados nesses encontros a movimentações citadas nas antigas investigações sobre as rachadinhas.

Entre os documentos está também a nota fiscal de um Rolex de ouro branco avaliado em R$ 305 mil, adquirido pelo advogado Alan Belaciano. O material apresentado pelo ex-sócio indicaria que o relógio foi comprado para Flávio. Belaciano também teria pago mais de R$ 90 mil em equipamentos de academia instalados na casa do senador, além de outras despesas pessoais.

Santini apresentou ainda uma mensagem na qual acusa Flávio de ter atuado junto ao ministro Kassio Nunes Marques em favor de um cliente. A reportagem não apresentou comprovação independente de que a suposta intermediação tenha ocorrido. Nunes Marques afirmou que recebe parlamentares de diferentes partidos e negou qualquer prejuízo à sua imparcialidade. Procurados pelo Brasil de Fato na ocasião, Flávio, Santini e Belaciano não responderam aos pedidos de posicionamento.

Rachadinha

As revelações de 2026 se somam a investigações que marcaram a trajetória de Flávio desde sua passagem pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), onde foi deputado estadual entre 2003 e 2018.

O caso mais conhecido foi o da chamada rachadinha. Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, Flávio comandava um esquema de recolhimento de parte dos salários de servidores de seu gabinete, operacionalizado por Fabrício Queiroz. O MP denunciou o então deputado por crimes como peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Flávio sempre negou as acusações.

A denúncia não chegou a ser julgada no mérito. Em 2022, o Tribunal de Justiça do Rio rejeitou a acusação após decisões do Superior Tribunal de Justiça e do STF anularem provas utilizadas pelo Ministério Público. O próprio MP pediu a extinção da denúncia diante da impossibilidade de utilizar esses elementos. A decisão registrou que a rejeição por falta de justa causa não impede novas investigações baseadas em provas válidas. A defesa de Flávio afirmou que considera o caso encerrado.

Uma das linhas daquela investigação atingiu a franquia da Kopenhagen da qual Flávio e Santini eram sócios na Barra da Tijuca. O MP sustentava que a empresa havia sido utilizada para inserir no patrimônio do então deputado recursos provenientes da rachadinha, apontando depósitos em espécie e movimentações consideradas incompatíveis com o faturamento. A acusação fazia parte do conjunto de provas posteriormente atingido pelas decisões judiciais.

As transações imobiliárias de Flávio também foram investigadas. Levantamento do UOL feito a partir das quebras de sigilo do caso identificou 16 imóveis comprados ao menos parcialmente com dinheiro vivo. Somadas operações imobiliárias, despesas pessoais, pagamentos e depósitos em espécie na loja de chocolates, a movimentação em dinheiro vivo atribuída a Flávio ultrapassava R$ 3 milhões. Transações em espécie não são crime por si só. O MP sustentava que parte desses valores teria origem no esquema de rachadinha.

São dessa época também as relações do antigo gabinete de Flávio com Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope apontado pelo Ministério Público como chefe de uma milícia no Rio de Janeiro. A mãe e a ex-mulher de Adriano trabalharam no gabinete, e o então deputado concedeu homenagens ao policial na Alerj.

Flávio nega ter cometido crimes nos casos antigos e sustenta que as investigações da rachadinha foram anuladas pela Justiça. Atualmente, a investigação formal que o tem diretamente como alvo no STF é a que apura a origem, o caminho e o destino dos recursos negociados com Daniel Vorcaro para Dark Horse.

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