Rio de Janeiro, 01 de Junho de 2026

Pesquisa aponta violência contra a mulher como principal crime

Pesquisa revela que 61% dos brasileiros consideram a violência contra a mulher o crime mais grave do país, mas formas de abuso psicológico e patrimonial ainda são subestimadas.

Segunda, 01 de Junho de 2026 às 11:51, por: CdB

Levantamento mostra que maioria considera crimes de gênero os mais graves do país, mas práticas de controle financeiro e ação psicológica seguem sem reconhecimento por parte da população.

Por Redação, com Agenda do Poder – do Rio de Janeiro

A violência contra a mulher é apontada por 61% dos brasileiros como o crime mais grave enfrentado pelo país atualmente, superando problemas como o tráfico de drogas e os assaltos à mão armada. Apesar dessa percepção, uma parcela significativa da população ainda não reconhece determinadas formas de abuso emocional, psicológico e patrimonial como violência.

Pesquisa aponta violência contra a mulher como principal crime | Números assustam e levam crime à liderança estatística
Números assustam e levam crime à liderança estatística

Os dados fazem parte de uma pesquisa inédita realizada pelo Datafolha em parceria com o Movimento Mulher 360, organização voltada à promoção da equidade de gênero. O levantamento mostra que os ataques contra mulheres aparecem à frente de crimes como o tráfico de drogas, citado por 16% dos entrevistados, e os assaltos à mão armada em vias públicas, mencionados por 10%.

A pesquisa reforça o protagonismo que a violência de gênero passou a ocupar no debate sobre segurança pública e direitos humanos no Brasil.

Contradição entre percepção e reconhecimento da violência.

Embora a maioria dos brasileiros condene agressões físicas e ameaças, o estudo aponta uma contradição preocupante: muitas atitudes consideradas formas de violência psicológica ou coercitiva ainda são relativizadas.

Segundo os dados, 45% dos entrevistados afirmam que impedir uma mulher de sair de casa para participar de uma comemoração não é necessariamente uma forma de violência. Já 41% entendem que controlar as amizades da parceira também não configura agressão.

Para especialistas, esse cenário evidencia a dificuldade de identificar os sinais iniciais de relacionamentos abusivos, o que pode dificultar ações preventivas e favorecer a escalada da violência.

Patrimonial

A pesquisa também destaca a baixa percepção sobre a violência patrimonial, modalidade prevista na Lei Maria da Penha. De acordo com o levantamento, 42% dos brasileiros não consideram necessariamente agressiva a atitude de um marido controlar o salário da esposa.

Por outro lado, situações envolvendo humilhação pública ou violência sexual são amplamente reconhecidas pela sociedade. Cerca de 94% dos entrevistados consideram violência um homem humilhar sua companheira em público, enquanto 95% classificam como agressão o ato de forçar relações sexuais dentro do casamento.

Os resultados mostram que o reconhecimento social da violência aumenta quando há constrangimento explícito ou agressão física evidente.

Culpabilização das vítimas permanece presente.

Outro dado que chama atenção é a persistência da culpabilização das vítimas. A pesquisa revela que 61% dos brasileiros acreditam que muitas agressões sofridas por mulheres são consequência de escolhas equivocadas na seleção do parceiro.

Entre as mulheres, esse entendimento é compartilhado por 57% das entrevistadas. Já entre os homens, o índice chega a 65%.

Especialistas alertam que essa visão contribui para o silêncio das vítimas e dificulta a busca por ajuda, além de fortalecer a permanência em relacionamentos abusivos.

Falta de confiança nas instituições preocupa.

A confiança nas instituições responsáveis pela proteção das mulheres também aparece como um desafio. Apenas 19% das mulheres afirmam confiar muito na atuação da polícia para protegê-las em situações de violência.

Entre os homens, o percentual sobe para 31%. Além disso, enquanto 55% dos homens consideram adequadas as leis de proteção às mulheres, o mesmo índice de entrevistadas demonstra insatisfação com a legislação e sua aplicação prática.

O cenário evidencia uma percepção de distância entre os mecanismos legais existentes e a efetiva proteção das vítimas.

Gênero

O levantamento mostra ainda que 89% dos brasileiros acreditam que os casos de violência contra a mulher aumentaram no último ano. A percepção é ainda mais elevada entre as mulheres, chegando a 94%, contra 83% entre os homens.

A maioria dos entrevistados, equivalente a 71%, também considera que as mulheres estão mais vulneráveis à violência dentro de casa do que em espaços públicos.

Os números reforçam a preocupação com a violência doméstica e familiar, frequentemente apontada como uma das formas mais recorrentes de agressão contra mulheres no país.

Relatos revelam alta incidência de agressões.

Entre as 857 mulheres que responderam ao módulo específico da pesquisa, 74% relataram ter vivenciado ao menos uma situação de violência de gênero ao longo da vida.

Em média, cada entrevistada afirmou ter passado por três episódios distintos de violência. As ocorrências mais frequentes foram insultos e xingamentos, registrados por 59% das participantes.

Também foram relatados casos de ameaças de agressão física, empurrões ou chutes, mencionados por 45% das mulheres, além de perseguição ou intimidação, apontadas por 43%.

Casos de violência sexual também chamam atenção.

Os resultados revelam ainda números expressivos relacionados à violência sexual. Quatro em cada dez mulheres, equivalente a 38% das entrevistadas, afirmaram já ter sido tocadas ou agarradas sem consentimento.

Além disso, uma em cada quatro mulheres declarou ter sido espancada ou vítima de tentativa de enforcamento. Outros 22% relataram já ter sido ameaçadas com armas de fogo ou facas.

Os dados reforçam a dimensão do problema e os desafios enfrentados para prevenir e combater a violência de gênero em diferentes contextos.

O Datafolha entrevistou 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em capitais e regiões metropolitanas de todas as regiões do Brasil. As entrevistas ocorreram entre os dias 6 e 11 de abril de 2026, por meio de questionário estruturado.

A margem de erro do levantamento é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

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