Em eleições marcadas por erros logísticos e número recorde de candidatos, apuração indica que filha de Alberto Fujimori deverá disputar Presidência com Rafael López Aliaga, admirador de Donald Trump.
Por Redação, com DW – de Lima
As eleições presidenciais no Peru caminham para um segundo turno entre a direitista Keiko Fujimori (Força Popular) e, provavelmente, o ultradireitista Rafael López Aliaga (Renovação Popular), que denunciou fraude sem apresentar provas e pediu a prisão do organizador do pleito, após uma jornada eleitoral marcada por problemas logísticos que obrigaram a extensão da votação para esta segunda-feira em 13 colégios.

Com 40% dos votos apurados, Fujimori lidera a corrida com 17,1%, seguida por López Aliaga (16,4%) e centrista Jorge Nieto (13,8%), o único que poderia colocar em xeque a vaga no segundo turno do empresário admirador de Donald Trump.
Com 35 candidatos à Presidência – número recorde no país –, era esperado que nenhum deles alcançasse os 50% dos votos necessários para vencer no primeiro turno. Caso a apuração parcial das atas eleitorais se confirme, será a quarta vez consecutiva que Fujimori estará no segundo turno, tendo perdido nas três ocasiões anteriores.
A campanha da candidata foi marcada pela defesa do governo de seu falecido pai, Alberto Fujimori (1990-2000) – autor de um autogolpe de Estado em 1992 e posteriormente condenado a 25 anos de prisão por violações aos direitos humanos e outras sentenças por corrupção. Segundo Keiko, “há 25 anos somos governados pelo antifujimorismo, que a única coisa que fez foi buscar desculpas e lançar muitos insultos”.
– Os resultados da contagem rápida são um sinal muito positivo para o país, porque o inimigo é a esquerda e, de acordo com os resultados da contagem, não estariam no segundo turno, e isso é muito positivo para todos os peruanos – disse Fujimori ao observar o campo político de seus adversários mais próximos.
Já López Aliaga é empresário do setor de trens de luxo e hotéis, ex-prefeito de Lima e e admirador declarado de Donald Trump. Por sua semelhança com o personagem de desenho animado Porky Pig (Gaguinho, na tradução para o português), adotou o apelido de “Porky”, chegando a usar bonecos infláveis gigantes do porquinho em sua campanha.
O segundo turno está previsto para 7 de junho, e seu vencedor será o nono presidente do Peru em dez anos, substituindo, em 28 de julho, o atual presidente interino, o esquerdista José María Balcázar.
Atrasos e confusão
O processo eleitoral do domingo contou com atrasos na abertura de importantes centros de votação, sobretudo na capital Lima, devido à falta de material eleitoral, o que fez com que cerca de 52 mil eleitores ficassem sem votar – num país onde o voto é obrigatório. Por isso, a Justiça eleitoral peruana esticou para esta segunda a votação nesses locais, uma decisão inédita no país.
O Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), responsável pela organização das eleições, atribuiu o problema à empresa contratada para a distribuição, que em alguns pontos chegou cinco horas após o horário de início da votação. De acordo com o relatório oficial, foi possível instalar 99,8% das seções eleitorais no país.
López Aliaga processou criminalmente o chefe da ONPE, Piero Corvetto, por omissão de funções e solicitou ao Ministério Público que ordene sua prisão, por considerar que “não é coincidência” que tenham ficado sem abrir colégios em zonas onde, segundo ele, votam majoritariamente no seu partido, o Renovação Popular.
As falhas na votação embaralharam ainda mais uma disputa já complicada, em meio a um ambiente de forte crise política, descrédito nas instituições e aumento da criminalidade.
Grande parte dos peruanos desconfia da classe política, a quem responsabiliza pela violência que coincide com a chegada de grupos criminosos transnacionais em guerra com os locais.
Os discursos de campanha se concentraram em combatê-los com truculência, com propostas como tribunais anônimos para julgar criminosos, prisões cercadas por cobras, recompensas por matar criminosos ou retirar o país da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Em entrevista à agência francesa de notícias Agence France-Presse (AFP) na véspera da eleição, Fujimori prometeu expulsar migrantes sem documentação, atrair investimentos americanos e se juntar ao bloco de governos de direita da região, que cresce com o apoio de Donald Trump.
Além do presidente e do vice-presidente, os eleitores peruanos elegeram ainda deputados e senadores. O presidente eleito certamente terá de lidar com um Congresso dividido, um desafio de governabilidade e permanência no poder.