Rio de Janeiro, 17 de Agosto de 2026

Periferia sem romantização: o identitarismo periférico

Por Alexandre Lucas – Crítica à romantização das periferias aponta como desigualdade, precarização e marginalização podem ser naturalizadas e afastar a luta pela emancipação social.

Segunda, 17 de Agosto de 2026 às 09:58, por: CdB

Crítica à romantização das periferias aponta como desigualdade, precarização e marginalização podem ser naturalizadas e afastar a luta pela emancipação social.

Por Alexandre Lucas – de São Paulo

Em tempos de reafirmação de identidades e de fragmentação da luta política da classe trabalhadora, as periferias brasileiras vivenciam um processo de narrativas de romantização das chamadas periferias.

Favela de 120 mil habitantes convive cercada pelo luxo do Morumbi, bairro nobre de São Paulo

Vem se fortalecendo uma espécie de identitarismo periférico, o qual esconde as contradições do modo de produção capitalista, coloca para debaixo do tapete as relações de exploração e opressão, reduz o universo da visão social de mundo e torna o popular ponto de partida e de chegada.

Como se as camadas populares precisassem se nutrir, apenas e exclusivamente, do que faz parte do seu contexto de marginalização social.

O identitarismo periférico coloca em evidência a marginalização como identidade. Esse viés aponta para a acomodação e naturalização das desigualdades econômicas e sociais, inclusive reafirmando a precarização do trabalho como algo positivo com a falsa ideia do “próprio patrão”, condensada nos discursos do empreendedorismo e da uberização.

Áreas urbanas

Essa perspectiva tem consequências no campo institucional das políticas públicas direcionadas para as áreas urbanas marginalizadas e precarizadas, reproduzindo uma lógica de ofertar “mais do mesmo” e não rediscutindo a ampliação do que foi historicamente negado à classe trabalhadora, tanto do ponto de vista da produção simbólica quanto do próprio planejamento urbano capaz de promover qualidade de vida, redução dos impactos ambientais e a ampliação da visão social de mundo.

É fundamental construir uma maioria dentro dos movimentos sociais capaz de impulsionar a incidência política nas áreas marginalizadas e em situações de vulnerabilidade que rompa com o isolamento e a guetização, e que estruture um outro projeto de cidade e de sociedade: que reconheça as particularidades e a necessidade de emancipação da classe trabalhadora, que ao mesmo tempo não negue o popular, mas que se amplie com o que é produzido pela humanidade.

 

Alexandre Lucas, é pedagogo e integrante do Coletivo Camaradas.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

Tags:
Edições digital e impressa