No 7 de Setembro bolsonarista, bandeiras dos EUA e imagens de Trump dividiram espaço com as do Brasil, enquanto Flávio Bolsonaro transformou a Independência em palanque.
Por Marcos Verlaine – de Brasília
Teve Maga, Trump e até “Brasil acima de tudo”. O Dia da Independência bolsonarista foi “icônico”. Não teve aquela bandeirona dos Estados Unidos, que jamais será esquecida, mas teve o boneco gigante de Trump levantando o “Pixuleco” do Lula.

O 7 de Setembro bolsonarista na Avenida Paulista produziu dessas cenas que dispensam legenda: em nome do “patriotismo”, a bandeira brasileira dividiu espaço com bandeiras dos Estados Unidos, referências ao movimento Maga — Make America Great Again (Tornar a América Grande Novamente) — e imagens de Donald Trump. Até boneco gigante do presidente americano apareceu no ato.
Nada disso seria particularmente estranho em manifestação de apoio à política externa dos Estados Unidos. O problema é a contradição entre a iconografia importada e o discurso de “Brasil acima de tudo”.
Afinal, que patriotismo é esse que encontra em Washington seus símbolos, referências e, em parte, sua inspiração política?
Campanha
Sob o comando do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), o feriado nacional foi convertido em comício eleitoral. O mote “Fora Lula, fora Moraes” dominou a manifestação, que também serviu para atacar o Supremo Tribunal Federal e exaltar o ministro André Mendonça.
Flávio foi além da retórica contra o STF. Prometeu indicar 5 ministros para a Corte caso seja eleito, vinculando explicitamente a candidatura dele à promessa de alterar a composição do Supremo.
A estratégia é evidente: transformar a crise institucional e o desgaste de Alexandre de Moraes no eixo central da campanha, mobilizando a parcela mais radicalizada do eleitorado bolsonarista. O 7 de Setembro, portanto, deixou de ser apenas data cívica para funcionar como cenário de disputa eleitoral.
“Patriotismo”
Há algo de profundamente simbólico nessa estética. O bolsonarismo construiu a identidade política em torno de slogans como “Brasil acima de tudo”. Entretanto, quando chega a hora de demonstrar esse suposto patriotismo, surgem bandeiras americanas, bonecos de Trump e a estética do Maga.
Não é apenas questão de mau gosto ou incoerência visual. É a expressão de dependência política que se tornou explícita. O Brasil aparece como discurso; os Estados Unidos, como referência.
O paradoxo se completa quando o movimento que se apresenta como defensor da soberania nacional busca apoio, inspiração e até símbolos em projeto político estrangeiro.
É como se o “Brasil acima de tudo” viesse acompanhado com asterisco: desde que Washington aprove.
Também chama atenção o tamanho da manifestação. O Monitor do Debate Político da USP, em parceria com o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e a More in Common1, estimou 28,5 mil pessoas no pico, com margem de erro de 12%. O número ficou abaixo dos atos realizados na Paulista em anos anteriores.
A redução do público não significou, contudo, moderação do discurso. Ao contrário. O ato reafirmou a estratégia de manter a militância mobilizada pelo confronto permanente com Lula, Moraes e o STF.
Eis a questão central: quando o patriotismo precisa de bandeira estrangeira, quando a Independência vira palanque eleitoral e quando a defesa da democracia é substituída pela tentativa de capturar instituições, talvez seja necessário perguntar o que exatamente está sendo defendido.
do bolsonarismo parece ter celebrado outra coisa: a internacionalização da própria identidade política nacional. Trata-se de o entreguismo na veia; sabujice brega, sob o comando de Flávio Bolsonaro (PL). Patético.
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1 A More in Common é uma organização sem fins lucrativos e não partidária, financiada pela filantropia e investimento social, criada para compreender as forças que dividem e unem os brasileiros. Por meio de pesquisa, diálogo e colaboração, buscamos construir sociedade mais justa e democrática, em que as pessoas reconheçam que o que têm em comum é mais forte do que o que as separa.
Marcos Verlaine, é jornalista, analista político e assessor parlamentar do Diap.
As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil