Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

Brasil tem baixo domínio de interpretação de texto entre jovens

Alunos no país têm desempenho abaixo de média da OCDE, sobretudo em matemática, segundo Pisa 2025. Desigualdade socioeconômica pressiona resultados, e IA vira ferramenta do dia a dia.

Terça, 08 de Setembro de 2026 às 11:31, por: CdB

Alunos no país têm desempenho abaixo de média da OCDE, sobretudo em matemática, segundo Pisa 2025. Desigualdade socioeconômica pressiona resultados, e IA vira ferramenta do dia a dia.

Por Redação, com DW – de Brasília

Cerca de metade dos estudantes de 15 anos do Brasil (49%) reúnem as habilidades necessárias para a interpretação de texto, mostraram os resultados do mais recente Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa 2025), uma pesquisa da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicada nesta terça-feira. 

Estudantes de 15 anos no Brasil têm mais dificuldade em aplicar conhecimentos no dia a dia do que nos países da OCDE, diz estudo

Segundo o estudo, estes são os alunos capazes de, no mínimo, “identificar a ideia principal em um texto de extensão moderada, localizar informações com base em critérios explícitos, embora às vezes complexos, e refletir sobre o propósito e a forma dos textos quando explicitamente solicitados a fazê-lo.” 

Já a média para os 38 países-membros da OCDE foi de 69%. Entretanto, a leitura foi, dentre as áreas de estudo examinadas pelo Pisa 2025, aquela que teve a maior queda global de desempenho entre os alunos desta idade nos últimos dez anos. 

“Essa tendência é particularmente preocupante, pois as habilidades de leitura são a base da aprendizagem em todo o currículo e são essenciais para localizar, avaliar, interpretar e refletir sobre informações em um mundo cada vez mais digital,” afirma o relatório.

Ao redor dos países da OCDE, 6% dos estudantes têm alta performance na leitura, isto é, conseguem “compreender textos longos, lidar com conceitos abstratos ou contraintuitivos e distinguir entre fatos e opiniões, com base em pistas implícitas relacionadas ao conteúdo ou à fonte da informação”. No Brasil, o índice é de apenas 1%.

Considerado o indicador de desempenho educacional mais influente do mundo, o Pisa 2025 entrevistou mais de 760 mil alunos de 15 anos em 91 países, incluindo cerca de 30 mil adolescentes em 1 mil escolas no Brasil. Pela aplicação de um teste e de um questionário pessoal, o estudo avalia a capacidade dos estudantes de aplicar seus conhecimentos e habilidades em leitura, matemática e ciências a situações da vida real. 

Matemática

Houve também queda dramática no desempenho dos estudantes em matemática ao redor do mundo. No caso brasileiro, os resultados se mantiveram estáveis na última década, mas o país ainda patina em comparação às economias da OCDE.

É na matemática que está a maior lacuna de desempenho dos estudantes brasileiros. Só 28% dos alunos que participaram do estudo demonstraram proficiência, contra a média de 65% nos países da OCDE.

Na prática, isso significa que estes adolescentes “são capazes de interpretar e reconhecer, sem instruções diretas, como uma situação simples pode ser representada matematicamente (por exemplo, comparando as distâncias de duas rotas alternativas ou convertendo preços para uma moeda diferente),” explica a pesquisa.

Para a China, em contrapartida, o percentual de proficiência matemática foi de 96%, em linha com o desempenho do país nas outras áreas analisadas.

Desigualdade

Ao redor do mundo, a situação socioeconômica dos alunos impacta os seus resultados nos estudos em todas as disciplinas. E, no Brasil, o efeito da desigualdade é ainda maior do que a média da OCDE.

Entre os 25% dos alunos no topo da pirâmide social, a nota média nas ciências naturais supera em 96 pontos a dos 25% dos estudantes na base da pirâmide, por exemplo. A média dessa diferença entre os países da OCDE ficou em 85 pontos.

Em geral, o PISA considera que 20 pontos na nota equivalem a um ano de aprendizado em qualquer uma das disciplinas examinadas. 

O peso da desigualdade se aprofundou entre 2015 e 2025 no Brasil, enquanto diminuiu nos países ricos da OCDE. “Nesse período, o desempenho melhorou entre os alunos de classe alta, mas permaneceu estável entre os alunos de classe baixa,” detalha a pesquisa sobre o caso brasileiro.

A estimativa do PISA 2025 é que, no ano passado, 21% dos alunos frequentassem escolas onde a educação era restringida pela falta de professores; 26% em instituições impactadas pela falta de materiais; e 28% em instalações precárias. 

IA

Pela primeira vez, o Pisa avaliou o uso de inteligência artificial (IA) entre os alunos pesquisados. Ao redor do mundo, os chatbots já se consolidam como ferramentas para os estudantes, “criando desafios e oportunidades para o seu aprendizado”, segundo o relatório.

No Brasil, 48% dos adolescentes reportaram usar chatbots de IA para a aprendizagem pelo menos uma vez na semana, em comparação à média de 46% na OCDE. As principais tarefas executadas são pesquisas preliminares sobre um tema novo, resumos de leituras ou a elaboração de rascunhos para trabalhos escritos.

Apenas 11% dos alunos afirmaram nunca ou quase nunca usar chatbots de IA para qualquer uma das tarefas escolares analisadas no Pisa (a média da OCDE foi de 14%).

Dentro das escolas, porém, a restrição do uso de celulares mudou a rotina dos alunos significativamente nos últimos três anos. No ano passado, 81% dos pesquisados do Pisa 2025 estudavam em escolas onde os aparelhos eram proibidos, em comparação a 37% em 2022. 

Segundo o estudo, a proibição dos celulares tende a reduzir a distração dos alunos com recursos digitais.

Adaptação

Os números não explicam diretamente por que há um declínio global na performance dos estudantes. Os autores do estudo indicam que o fato de as escolas terem fechado durante a pandemia de covid-19 pode ter sido um fator para a piora das habilidades de leitura, por exemplo.

Mas não há uma relação direta entre o tempo de suspensão das aulas presenciais e a performance dos estudantes na leitura. Além disso, esta tendência de queda em vários países já vinha antes da pandemia, acrescenta o relatório. 

Para os especialistas, o cenário “sugere problemas estruturais mais profundos nos sistemas educacionais, com desafios tanto no âmbito escolar quanto no nível do sistema”. Esses desafios incluem o impacto das distrações digitais sobre os alunos e o crescente desinteresse pela leitura de livros.

“De modo geral, os dados sugerem deficiências na forma como os sistemas educacionais estão se adaptando às mudanças sociais, tecnológicas e econômicas”, afirma o resumo do estudo. “Olhando para o futuro, o desafio para os formuladores de políticas não é simplesmente recuperar o terreno perdido, mas garantir que as escolas atendam às demandas do mundo, que mudam rapidamente.”

Enquanto isso, os pais podem contribuir para o potencial das crianças, demonstrando apoio e curiosidade em relação aos estudos delas e ajudando-as a desenvolver atitudes positivas em relação à escola, afirma o relatório.

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