Investigação aponta participação de policiais, advogados e operadores financeiros em esquema que cobrava propina para barrar investigações.
Por Redação, com Agenda do Poder – São Paulo
Uma operação do Ministério Público de São Paulo, em conjunto com a Polícia Federal e a Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo, prendeu nesta quinta-feira ao menos seis pessoas suspeitas de integrar um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro dentro da corporação.

Entre os presos estão três policiais civis — incluindo um delegado —, uma doleira e outros dois investigados. A ação ainda estava em andamento nas primeiras horas da manhã, e a Justiça já havia autorizado a prisão de 11 pessoas no total.
A investigação é conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado e apura a participação de policiais, advogados e operadores financeiros em um esquema que teria transformado delegacias especializadas em centros de negociação para garantir a impunidade de criminosos.
Segundo a decisão do juiz Paulo Fernando Deroma de Mello, o grupo utilizava a estrutura da polícia para obter informações sigilosas, pressionar investigados e negociar o arquivamento ou a paralisação de investigações mediante pagamento de propina.
Como funcionava
De acordo com as investigações, o esquema operava principalmente de duas formas.
Em um dos métodos, policiais solicitavam relatórios de inteligência financeira sobre potenciais alvos de cobrança de propina. Com base nesses dados, eram expedidas intimações e iniciadas investigações que depois poderiam ser interrompidas mediante pagamento.
Em outra frente, doleiros que tinham conhecimento de investigações ofereciam dinheiro para que os inquéritos fossem interrompidos ou desacelerados. Em alguns casos, provas teriam sido destruídas para beneficiar investigados.
A decisão judicial cita episódios em que discos rígidos apreendidos foram substituídos por dispositivos vazios para eliminar informações comprometedores.
Lavagem de dinheiro
A investigação também aponta o uso de mecanismos sofisticados para ocultar a origem dos recursos ilícitos. Entre eles estavam empresas de fachada e a simulação de operações comerciais.
Um dos métodos identificados consistia na conversão de dinheiro em espécie em créditos de vales-refeição, por meio de estabelecimentos comerciais fictícios, criando uma aparência de legalidade para os valores recebidos.
Os doleiros Leonardo Meirelles e Meire Poza são apontados como operadores financeiros do esquema. Poza foi presa durante a operação, enquanto Meirelles ainda não havia sido localizado.
O documento judicial descreve episódios de corrupção envolvendo setores considerados estratégicos da Polícia Civil paulista, como o Departamento de Investigações Criminais e o Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania.
Há ainda menções a pagamentos de propina realizados no hangar do Serviço Aerotático da corporação, no Campo de Marte, além de extorsões ligadas ao 16º Distrito Policial de São Paulo.
Em um dos episódios relatados pelo Ministério Público, policiais teriam exigido R$ 5 milhões para não dar continuidade a uma investigação.
Além das prisões, a Justiça autorizou o cumprimento de 23 mandados de busca e apreensão em residências, escritórios de advocacia e delegacias onde os investigados estavam lotados.
As apurações são um desdobramento da Operação Recidere, deflagrada em 2023 para investigar um esquema bilionário de remessas ilegais ao exterior que movimentou cerca de R$ 4 bilhões em dois anos.
A análise de celulares apreendidos nessa investigação revelou indícios de corrupção envolvendo policiais civis, que teriam recebido propina para obstruir investigações ou iniciar procedimentos com o objetivo de pressionar investigados a pagar valores para encerrar os casos.
Segundo o magistrado, a gravidade das condutas e a repetição dos crimes justificam a intervenção judicial para interromper as atividades da organização criminosa e preservar as investigações.