Rio de Janeiro, 28 de Abril de 2026

MSF acusa Israel de usar água como arma contra palestinos

Relatório da MSF revela que Israel utiliza a privação de água como parte de uma campanha de genocídio contra os palestinos em Gaza, exacerbando a crise humanitária.

Terça, 28 de Abril de 2026 às 10:55, por: CdB

Entre a destruição de infraestruturas e os obstáculos ao abastecimento, “a privação deliberada de água infligida aos palestinos faz parte integrante do genocídio perpetrado por Israel”.

Por Redação, com Lusa – de Jerusalém, Gaza

Um relatório divulgado nesta terça-feira pela organização não governamental Médicos Sem Fronteiras (MSF) acusa Israel de utilizar o acesso à água como arma contra a população de Gaza, privando-a do recurso essencial no âmbito de uma “campanha de punição coletiva”.

MSF acusa Israel de usar água como arma contra palestinos | Relatório da ONG cita “campanha de punição coletiva”
Relatório da ONG cita “campanha de punição coletiva”

Entre a destruição de infraestruturas e os obstáculos ao abastecimento, “a privação deliberada de água infligida aos palestinos faz parte integrante do genocídio perpetrado por Israel”, afirmou a MSF, em comunicado publicado juntamente com o relatório A Água como Arma: a Destruição e a Privação de Água e Saneamento por parte de Israel em Gaza.

Israel têm rejeitado veementemente as acusações de genocídio em Gaza, que se multiplicaram ao longo da guerra.

O relatório, que se baseia em dados da MSF e em testemunhos recolhidos pelo pessoal da organização em 2024 e 2025, defende que “a instrumentalização repetida da água” pelas autoridades israelenses se insere “em um padrão recorrente, sistemático e cumulativo”.

“Isto se soma aos assassinatos diretos de civis, à destruição de estruturas de saúde e à demolição de habitações, provocando deslocamentos massivos da população. Em conjunto, estes elementos revelam uma vontade de impor condições de vida destrutivas e desumanas aos palestinos de Gaza”, alertou a ONG.

– As autoridades israelenses sabem que sem água a vida acaba. No entanto, destruíram sistemática e deliberadamente as infraestruturas hidráulicas em Gaza, ao mesmo tempo que bloqueiam constantemente a entrada de equipamentos relacionados com a água – afirmou a responsável por emergências na MSF, Claire San Filippo, citada no comunicado.

Apesar de um cessar-fogo que entrou em vigor em outubro passado – dois anos após o início da guerra desencadeada pelo ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023 – a Faixa de Gaza continua a ser palco de violência, com Israel e o movimento islâmico palestino a se acusarem mutuamente de violar a trégua.

De acordo com dados da ONU, da União Europeia e do Banco Mundial, Israel destruiu ou danificou cerca de 90% das infraestruturas de água e saneamento em Gaza, especificamente estações de dessalinização, poços, dutos e redes de esgotos.

As equipes da MSF documentaram disparos do exército de Israel contra caminhões-cisterna “claramente identificados”, bem como a destruição de poços “que constituíam uma fonte vital para dezenas de milhares de pessoas”.

“Palestinos foram feridos e mortos quando tentavam simplesmente acessar água”, informou San Filippo.

“[A escassez] é tanta que é simplesmente impossível fornecer quantidades suficientes à população”, sustentam ainda a MSF, que se apresentam como o principal produtor e distribuidor de água potável em Gaza, depois das autoridades locais.

Em março de 2026, a MSF forneceu mais de 5,3 milhões de litros de água por dia, o equivalente às necessidades mínimas de mais de 407 mil pessoas, ou seja, cerca de um em cada cinco habitantes.

“Mas as ordens de deslocamento impostas pelo exército israelense impediram as equipes da MSF de acessar as áreas para as quais forneciam água a centenas de milhares de pessoas”, protestou a ONG, condenando também os obstáculos à entrada de material essencial relacionado com água e o saneamento em Gaza desde outubro de 2023.

Um terço dos pedidos da ONG para introduzir unidades de dessalinização, bombas, cloro e outros produtos de tratamento de água, reservatórios, repelentes de insetos ou latrinas “foram recusados ou ficaram sem resposta”.

“[As consequências] são consideráveis para a saúde, a higiene e a dignidade das populações, em particular para as mulheres e as pessoas com deficiência”, alertou MSF.

“Na falta de casas de banho, as populações são obrigadas a cavar buracos na areia, que transbordam e contaminam o ambiente e os lençóis freáticos”, continua.

Doenças

A falta de acesso à água e à higiene, combinada com condições de vida indignas – tendas superlotadas, abrigos improvisados – favorece a propagação de doenças, como infecções respiratórias, doenças de pele e doenças diarreicas.

A MSF apelou às autoridades israelenses para que restabeleçam imediatamente o acesso à água “em níveis suficientes” para os habitantes de Gaza e exortou os aliados israelitas a “exercerem pressão para que os obstáculos à ajuda humanitária sejam eliminados”.

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