Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Laclau explica a polarização política no Brasil?

Por Theófilo Rodrigues - Tornou-se lugar comum mencionarmos o cientista político argentino Ernesto Laclau como principal referencial teórico dos movimentos políticos de esquerda que crescem em todo mundo nos últimos 15 anos.

Segunda, 16 de Março de 2015 às 11:47, por: CdB
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O cientista político Ernesto Laclau

Tornou-se lugar comum mencionarmos o cientista político argentino Ernesto Laclau como principal referencial teórico dos movimentos políticos de esquerda que crescem em todo mundo nos últimos 15 anos.

Seja na Europa com a Grécia do Syriza, a Espanha do Podemos ou a Itália de Beppe Grillo, seja na América do Sul com a Argentina de Kirchner, a Bolívia de Morales, o Equador de Corrêa ou a Venezuela de Chavez, sempre haverá quem lembre de Laclau como o intérprete mais preciso.

Ao lado da cientista política belga Chantal Mouffe, Laclau ressignificou o conceito de populismo através de uma chave positiva. Sob a perspectiva dos dois teóricos o populismo pressupõe um antagonismo entre nós – o povo - e eles, onde o povo é um amálgama de movimentos e propostas emergentes e heterogêneas que ainda não encontraram seu devido espaço nas instituições políticas.

Note-se que para essa teoria populista o fundamental não é a aliança entre classes sociais e frações de classe como convencionou a teoria marxista, mas sim a agregação de diversos movimentos sociais distintos em suas agendas.

Esses movimentos unificam-se em torno de um programa comum e nomeiam claramente quem são os inimigos a serem combatidos – empresas de comunicação, corporações financeiras, organismos internacionais etc. Assim parece ocorrer em todos os países descritos acima.

Contudo, o Brasil muito dificilmente encaixar-se-ia nessa conceituação populista. A tradição dos dois principais partidos que polarizam a política no país – PSDB e PT – sempre foi a de combate ao populismo. Aliás, os dois partidos nasceram em São Paulo e isso não é pouco.

O Brasil dos governos do PT entre 2003 e 2014 assemelhou-se muito mais à social democracia uruguaia – Frente Ampla - ou chilena – Concertación - onde a conciliação entre os mais diversos setores sociais e econômicos vem sustentando a aliança governamental sem que haja grandes rupturas.

Basta dizer que no ministério de Dilma há uma ministra da agricultura que veio da CNA – burguesia agrária – um ministro do desenvolvimento industrial que veio da CNI – burguesia industrial – e um ministro da fazenda oriundo do Bradesco – burguesia financeira –, bem como ministros que tiveram suas trajetórias políticas ligadas à CUT ou ao movimento estudantil. Conciliação de classes pura, não? O que não significa que tenha ocorrido uma conciliação social plena.

Com efeito, essa caracterização conciliatória está em crise e parece não ter sobrevivido ao primeiro carnaval do segundo governo de Dilma. Mais precisamente, sobreviveu até o dia 15 de março de 2015 quando milhões de brasileiros insuflados pelos partidos oposicionistas e por alguns meios de comunicação ocuparam as ruas para reivindicar o impeachment de Dilma em todo o país.

Como Dilma comportar-se-á ao balde de água gelada que recebeu das ruas? Dois cenários distintos são possíveis: o da aposta no populismo ou o da renovação da conciliação.

No cenário populista Dilma nomeia publicamente seus inimigos – burguesia midiática e burguesia financeira – e mobiliza amplos setores subalternos – do MST ao MTST, das centrais sindicais aos estudantes, dos movimentos de gênero e LGBT aos da questão racial – em torno de uma agenda política e econômica de conflito para enfrentá-los. Dessa agenda conflitiva clamada pelos movimentos subalternos consta o fim dos repasses de verbas de publicidade oficial para as empresas de comunicação, a taxação de heranças e de grandes fortunas, o fim do fator previdenciário, a revisão do índice de propriedade das terras e o corte na taxa Selic de juros entre tantas outras pautas.

No cenário de conciliação Dilma amplia o espaço do PMDB em seu ministério – provavelmente com a entrada de Henrique Eduardo Alves – e mantém a agenda econômica de Joaquim Levy com seus ajustes fiscais, apontando para um futuro crescimento do PIB a partir de meados de 2016. Desse cenário de conciliação pode constar algum elemento da agenda conflitiva como, por exemplo, a taxação de heranças e algum mecanismo de redução do fator previdenciário como forma de minimizar as críticas dos setores subalternos.

Qualquer que seja o cenário escolhido pela presidenta, o conflito social não será abolido. Tudo indica que a radicalização da oposição que votou em Aécio Neves (PSDB) no segundo turno de 2014 veio para ficar e será permanente ainda que com altos e baixos até a eleição de 2018.

Em que pese sua falta de apoio nos setores subalternos organizados, talvez seja a própria oposição que esteja apostando numa prática populista a partir de um discurso hegemônico contra a corrupção que agregue diversos setores sociais e um inimigo único bem definido, o PT.

De qual maneira a presidenta Dilma Rousseff estará disposta a enfrentar os próximos quatro anos é o grande enigma. De qualquer modo, Laclau certamente passou a figurar entre os intérpretes que podem auxiliar nossa tentativa de compreender o conflito social no Brasil.

Theófilo Rodrigues,  é cientista político.

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