Ocorre que o receio de termos uma revoada de capital especulativo de nossas terras, geralmente leva os membros do Copom a se anteciparem a elevações nas taxas dos EUA e promoverem aumentos maiores ainda maiores na Selic.
Por Paulo Kliass – de Brasília
O calendário de reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) é preparado com bastante antecedência. Existe a definição para um intervalo de 45 dias entre cada encontro do colegiado e aqueles a serem realizados em 2022 foram todos estabelecidos ainda em 2021. E podem ir se preparando, uma vez que as datas para 2023 já estão publicadas no Comunicado nº 38.783 do BC.
Independência do BC pode sabotar plano de crescimento da economia
Outro fator que preocupa os economistas que estamos preocupados com a necessidade de romper com esse modelo ortodoxo e monetarista do liberaloide Paulo Guedes refere-se à legislação da independência do BC, aprovada recentemente pelo Congresso Nacional. Por força da pressão exercida pelo financismo junto aos parlamentares e os grandes meios de comunicação, a Lei Complementar nº 179 passou a assegurar ao presidente atual do BC e à maioria dos membros da diretoria indicados por Bolsonaro um mandato fixo. Assim, caso Lula seja eleito e tome posse em janeiro do ano que vem, seu governo terá que conviver com um colegiado ultraconservador à frente do órgão regulador e fiscalizador do sistema financeiro. E o mais grave é que esses mesmos indivíduos continuarão sentando nas reuniões do Copom para definir a Selic. Esse quadro pode operar como espaço de sabotagem de qualquer processo de retomada do crescimento da economia e de implementação de um projeto de desenvolvimento no País. Parece mais do que evidente, para qualquer pessoa que não se oriente pelos modelitos elaborados com base nos desejos dos dirigentes do financismo, que a Selic necessita urgentemente de uma trajetória de inflexão para baixo. Afinal, ela é a base da formação de expectativas positivas para um cenário de melhoria nas condições para retomada do crescimento das atividades. Além disso, a Selic permite uma avaliação a respeito dos custos financeiros envolvidos nos projetos de elevação da capacidade e dos novos investimentos. Um dos muitos problemas envolvidos nos debates que marcam as reuniões do Copom refere-se aos aspectos da conjuntura internacional e à preocupação com o nível das taxas de juros no mercado global, em especial a taxa referencial do FED, a autoridade monetária dos Estados Unidos. O ponto é que atualmente aquele colegiado tem apresentado movimentos também de alta. No começo do presente ano, a taxa oficial estava em 0,25% e, depois de uma série de elevações, alcançou os atuais 2,5% ao ano. Não satisfeito ainda, o presidente da comissão norte-americana que decide a esse respeito vem dando sinais de que poderia continuar nessa linha altista da taxa referencial de juros, independentemente dos custos sociais derivados de tal elevação.Alta de juros do FED não deve nos assustar
O interessante é que, nesse caso, estaremos frente a uma coincidência preocupante. As próximas reuniões do nosso Copom e da Fomc (Federal Open Market Committee) dos Estados Unidos ocorrerão nos mesmos dias. No final do dia 21 de setembro, em Brasília e em Washington, separadas apenas pelo fuso horário, serão anunciados os patamares das respectivas taxas. A serem confirmadas as expectativas dos formadores de opinião nos EUA, o FED deverá promover novo aumento, talvez para 2,75%. Ocorre que o receio de termos uma revoada de capital especulativo de nossas terras, sempre em busca da maior rentabilidade e nenhum compromisso com a sociedade que o hospeda, geralmente leva os membros do Copom a se anteciparem a elevações nas taxas dos EUA e promoverem aumentos maiores ainda maiores na Selic. A chegada de um novo governo comprometido com a retomada de um projeto de nacional de desenvolvimento deveria também estabelecer a relação com a economia norte-americana e internacional em novas bases. Além da necessidade urgente de promover uma redução da Selic e das taxas de juros praticadas pelos bancos, é fundamental não cair na tentação de acompanhar as elevações das taxas de juros nos Estados Unidos. Não interessa ao Brasil o custo de manter a Selic elevada apenas para evitar a saída do capital especulativo. Se for esse o preço a pagar por definir um certo grau de autonomia na condução da política monetária, que assim seja. Queremos a vinda de recursos externos interessados em realizar investimento produtivos e que colaborem de forma efetiva com o nosso processo de desenvolvimento social econômico. A saída do capital parasita e de rapina será comemorada por todos aqueles preocupados com os destinos da maioria de nossa população.Paulo Kliass, é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal.
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