Rio de Janeiro, 06 de Maio de 2026

Israel amplia ataques e mata civis no Líbano

Israel amplia seus ataques no Líbano, resultando em mortes de civis e membros de uma família. O conflito persiste apesar do cessar-fogo. Entenda a situação.

Quarta, 06 de Maio de 2026 às 14:19, por: CdB

O ataque mais recente ocorreu na localidade de Zellaya, no leste do país, antes mesmo de o Exército israelense emitir ordens de evacuação para cidades próximas.

Por Redação, com RFI – de Beirute

Mesmo sob um cessar‑fogo em vigor desde 17 de abril, o Líbano segue mergulhado em uma guerra que, na prática, nunca cessou. Nesta quarta‑feira, um ataque israelense no leste do país matou quatro pessoas — entre elas civis e membros de uma mesma família — enquanto novos bombardeios atingiam o sul e o Vale da Bekaa, alguns além da chamada “zona de segurança”. Com mais de 2,7 mil mortos desde março, o conflito persiste apesar da trégua formal.

Israel amplia ataques e mata civis no Líbano | Fumaça sobe de bombardeios israelenses nos arredores da vila de Rihan, vista da vizinha Marjeyoun (Marjayoun), no sul do Líbano
Fumaça sobe de bombardeios israelenses nos arredores da vila de Rihan, vista da vizinha Marjeyoun (Marjayoun), no sul do Líbano

O ataque mais recente ocorreu na localidade de Zellaya, no leste do país, antes mesmo de o Exército israelense emitir ordens de evacuação para cidades próximas. O Ministério da Saúde do Líbano confirmou quatro mortos — entre eles duas mulheres e um homem idoso — além de cinco feridos, incluindo três mulheres e uma criança.

A Agência Nacional de Informação (ANI) especificou que o alvo foi a residência do prefeito da cidade, morto no bombardeio com três integrantes de sua família, evidenciando o alcance direto dos ataques sobre estruturas civis e autoridades locais.

Após o ataque, o Exército israelense anunciou ter iniciado bombardeios contra “infraestruturas do Hezbollah” em várias regiões do território libanês, acompanhados por ordens de evacuação para moradores de 12 vilarejos.

Essas operações não se limitaram à área que Israel define como “linha amarela”, uma faixa de aproximadamente dez quilômetros ao longo da fronteira, tratada como zona de segurança operacional. Pelo contrário: a maior parte das localidades evacuadas fica além desse perímetro, o que indica uma ampliação prática do alcance das ações militares.

Além da Bekaa, ataques também atingiram o sul do país, incluindo a região do castelo de Beaufort, uma fortificação histórica do período das Cruzadas, onde foi registrada uma intensa coluna de fumaça após os bombardeios.

Cessar‑fogo

Embora formalmente vigente desde 17 de abril, o cessar‑fogo não conseguiu interromper os combates. O Hezbollah continua realizando ataques contra posições israelenses, enquanto o Exército de Israel mantém presença em uma faixa do sul libanês e conduz operações ofensivas dentro e além dessa área.

O resultado é uma dinâmica de guerra em ritmo contínuo, em que a trégua não elimina as hostilidades, mas as reconfigura, permitindo ações pontuais, avanços localizados e manutenção da pressão militar sem declaração formal de retomada total do conflito.

Balanço humano cresce enquanto conflito se arrasta.

O custo humano segue aumentando de forma consistente. Segundo o Ministério da Saúde libanês, as operações israelenses já deixaram cerca de 2.700 mortos e mais de 8.200 feridos desde 2 de março, data em que o Hezbollah passou a integrar o país diretamente à guerra regional.

Do lado israelense, foram registrados 17 soldados mortos, além de um prestador de serviço civil, todos em operações concentradas no sul do Líbano.

Crise jurídica 

O conflito ganhou repercussões além do campo militar com a abertura, em Paris, de uma ação judicial movida pelo jornal libanês Al‑Akhbar por “apologia de crime de guerra” contra o general francês Philippe Sidos.

A ação foi motivada por declarações do militar à emissora BFMTV, nas quais comentou a morte da jornalista Amal Khalil, de 42 anos, ocorrida em 22 de abril, no sul do Líbano. Na ocasião, Khalil foi morta e a jornalista independente Zeinab Faraj ficou ferida.

Durante a entrevista, Sidos afirmou que o jornal é próximo do Hezbollah e disse que Israel considera jornalistas ligados ao grupo como espiões, sugerindo que o ataque teria sido deliberadamente direcionado. Ele acrescentou que a identificação do veículo tornaria a operação “clara, direta e precisa”, além de classificar o jornal como fortemente alinhado ao movimento xiita.

Violência

As declarações provocaram reação imediata da Sociedade de Jornalistas da BFMTV, que se desvinculou completamente do conteúdo e classificou as falas como “chocantes”, reiterando que atingir jornalistas ou civis constitui crime de guerra.

A entidade também alertou que esse tipo de discurso expõe profissionais a riscos adicionais no terreno, ao sugerir justificativas para ataques.

O advogado do Al‑Akhbar, Vincent Brengarth, sustentou na denúncia que o general trata como evidente a possibilidade de se matar uma jornalista em função da linha editorial do veículo, no contexto de um conflito armado. Segundo ele, abrir investigação é essencial para evitar a normalização de declarações que legitimem crimes de guerra e reforcem a sensação de impunidade.

Nesse cenário, o Líbano permanece submetido a uma guerra que não se encerra — apenas se desloca — enquanto a trégua, formalmente mantida, já não corresponde à realidade no terreno.

 

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