O incidente colocou a LFI na mira direta da oposição, a um mês das eleições municipais.
Por Redação, com RFI – de Paris
Mais dois suspeitos de envolvimento na morte do militante de ultradireita francês Quentin Deranque foram presos nesta quarta-feira, totalizando 11 detenções até o momento. A morte do estudante, após ser agredido por um grupo de indivíduos encapuzados em Lyon (sudeste), na semana passada, tem gerado fortes tensões políticas no país.

O espancamento de Deranque, qualificado pelo ministro do Interior, Laurent Nunez, como um “linchamento”, ocorreu durante uma manifestação do coletivo Némésis, identificado com a extrema direita, na última quinta-feira. Entre os detidos está Jacques-Elie Favrot, assistente parlamentar do deputado da esquerda radical Raphaël Arnault (LFI). A porta-voz do governo, Maud Bregeon, pediu nesta quarta-feira que o LFI afaste Arnault “temporariamente” de seu grupo parlamentar.
O incidente colocou a LFI na mira direta da oposição, a um mês das eleições municipais. A sede nacional da sigla, localizada no 10º distrito de Paris, foi “evacuada após uma ameaça de bomba” nesta quarta-feira, disse no X o coordenador do movimento, Manuel Bompard. O caso, que domina os noticiários desde a agressão a Deranque, reacendeu o debate sobre violência política na França e sobre a relação entre grupos radicais de esquerda e de direita.
Deranque, de 23 anos, foi agredido perto do Instituto de Estudos Políticos de Lyon, à margem de uma conferência da deputada europeia Rima Hassan, da LFI. O jovem integrava o serviço de segurança do coletivo ultranacionalista Némésis, que se apresenta como defensor dos direitos das mulheres, embora suas posições frequentemente se alinhem a discursos xenófobos e anti-imigração. Segundo o Ministério Público de Lyon, houve confronto no local entre grupos de extrema direita e de esquerda radical.
“Instrumentalização”
O assassinato de Deranque desencadeou uma forte reação política. O ministro do Interior, Gérald Darmanin, acusou a LFI de manter proximidade com a organização La Jeune Garde (A Jovem Guarda), dissolvida pelo governo por práticas violentas. Para ele, a postura do partido diante desses grupos é um “erro”, avaliação compartilhada por outras legendas, como o Partido Socialista (PS), que acusa a LFI de manter uma relação ambígua com movimentos radicais.
O líder da LFI, Jean-Luc Mélenchon, rejeitou as críticas e reafirmou a “condenação intransigente” da violência. Segundo ele, não houve ataque premeditado contra Deranque, mas um confronto entre grupos adversários. Embora tenha classificado a morte do militante como inaceitável, Mélenchon lamentou o que considera uma “instrumentalização política” do caso por seus opositores.
A extrema direita também aproveitou a repercussão para intensificar ataques à LFI e tentar ampliar sua base eleitoral. Jordan Bardella, presidente do Reunião Nacional (RN), acusou Mélenchon de ter “aberto as portas da Assembleia Nacional a presumidos assassinos”. Para o RN, historicamente associado ao extremismo, o episódio representa uma oportunidade de reforçar a imagem de partido “normalizado” perante a opinião pública.
Durante uma sessão no Parlamento, o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, pediu à LFI que realizasse uma revisão interna e assumisse responsabilidades. O debate gerou uma troca acirrada de acusações entre parlamentares da esquerda radical e da extrema direita, com o RN tentando vincular o episódio à postura combativa da LFI. Lecornu apelou para que a “verdade judicial prevaleça”, sem interferências políticas, enquanto o partido de Mélenchon continua rejeitando qualquer associação com os agressores.
Contexto ideológico
O coletivo Némésis, criado em 2019 por Alice Cordier – figura próxima à direita radical e ao extinto Génération Identitaire – voltou ao centro do debate político após a morte de Deranque. Apesar de adotar uma estética inspirada no feminismo, o grupo é alvo de críticas de organizações feministas tradicionais, que veem em suas ações uma instrumentalização da pauta das mulheres para sustentar um discurso nacionalista. Suas intervenções costumam destacar crimes atribuídos a imigrantes, estabelecendo uma ligação direta entre segurança feminina e política migratória, argumento recorrente no universo da extrema direita francesa.
Polarização
A morte de Quentin Deranque também expôs a crescente polarização da política francesa e a forma como episódios de violência podem ser rapidamente apropriados para disputa eleitoral. Enquanto a extrema direita tenta capitalizar o desgaste da LFI, acusando o partido de conivência com grupos radicais, o movimento de Jean-Luc Mélenchon tenta se desvincular de qualquer ligação com práticas violentas.
O caso intensificou confrontos entre direita, extrema direita e esquerda radical. De um lado, opositores da LFI usam o episódio para reforçar críticas sobre sua relação com grupos considerados radicais; de outro, parlamentares da LFI insistem que o debate deveria se concentrar na defesa das liberdades democráticas e do direito de manifestação, argumentando que atos de violência não podem ser atribuídos ao conjunto do espectro político.