Formada quase em sua totalidade por pessoas com poucos anos de escolaridade e com experiência profissional apenas na lida com a terra, a comunidade reside naquelas moradias há pelo menos 80 anos.
Por Redação, com BdF – de Recife
Era fim do primeiro semestre quando a comunidade rural que vive no Engenho Camocim, na Zona da Mata, sul de Pernambuco, recebeu a visita de um dos herdeiros do espólio que engloba aquelas terras. A ordem era que aquelas dezenas de famílias deveriam deixar as residências e buscar outro local para viver.

Formada quase em sua totalidade por pessoas com poucos anos de escolaridade e com experiência profissional apenas na lida com a terra, a comunidade reside naquelas moradias há pelo menos 80 anos, segundo relataram à reportagem do site de notícias Brasil de Fato (BdF). Eles não obedeceram a ordem e decidiram ficar.
A comunidade rural fica entre os municípios de Barreiros e Rio Formoso, próximo à fronteira com Alagoas. O acesso se dá por um percurso de 40 minutos numa estrada de barro, de tráfego muito difícil nos dias de chuva. A população do engenho Camocim encontra dificuldades caso precise fazer esse percurso diariamente, seja para trabalhar ou estudar.
Engenhos
A vida, portanto, acontece dentro daquelas terras, que são parte do espólio deixado pelo falecido latifundiário Jaime Galdino da Silva. Além do Camocim, os engenhos vizinhos Bom Futuro, Nova Aurora e Jaguaraba também eram dele. Juntas, as propriedades têm quase mil hectares.
E foram as famílias moradoras destes engenhos que se juntaram no Camocim para ocupar as terras, apoiados por Franceli Gomes da Silva, a ‘Kaká’, jovem de 30 anos, mãe de dois filhos e líder do Movimento Sem Terra (MST) na região.
— Chegou a denúncia de que moradores estavam sendo expulsos do local onde tinham história de vida. Foi um pedido de socorro — disse Gomes.
Reforma agrária
A primeira assembleia da comunidade reuniu 50 pessoas. Dois dias depois, eram mais de 200 para dar início à ocupação.
— Desde a morte do proprietário, pararam de produzir nessas terras. Nós ocupamos para fazer cumprir a Constituição, que diz que toda terra improdutiva deve ser destinada à reforma agrária — pontua Kaká.
Menos de 24 horas após a ocupação iniciada, com os primeiros barracos de lona montados, uma fogueira e uma cozinha coletiva recém preparados, chegou a Camocim a primeira visita indesejada. Segundo a comunidade, era Antenor Canejo, proprietário da fazenda Vale do Carimã, também naquela região.
— Esse senhor chegou dizendo que havia comprado as terras. Disse que assumiria as dívidas trabalhistas que o engenho tinha com os trabalhadores. Ele disse que estava desarmado, mas a conversa dele foi de intimidação. Disse que se alguém entra na casa dele e mexe com a mulher ou algo que seja dele, ele ‘mete bala’. E tinha um capanga armado logo atrás dele — lembra a jovem.
Segurança
A moradora G. afirma que o “novo dono chegou ameaçando derrubar as casas com a gente dentro se não saíssemos. Isso deixou a gente muito indignado”, afirmou. Segundo a moradora J., muitos idosos vivem nessas comunidades rurais.
— A gente não tem condições de sair às pressas para buscar uma casa. Infelizmente, nenhum desses novos (os herdeiros do espólio) se importa com o povo — lamenta ela. O BdF optou por preservar os nomes de algumas entrevistadas por questão de segurança.
Dois dias depois da visita, o momento mais tenso. Num fim de tarde, chegam à comunidade dois carros com homens encapuzados e armados, ameaçando os moradores. Eles tomaram celulares de dois trabalhadores que filmavam o grupo, dando uma coronhada num deles, e chegaram a apontar a arma para o rosto de uma criança.
— Ele disse que se a minha filha de 11 anos não abaixasse o celular, iria atirar no rosto dela — lembra a moradora G., de 28 anos, mãe de três crianças. Os pistoleiros procuravam por ‘Kaká’, que não estava no acampamento naquele dia.
Situação
A comunidade não recuou, mas o episódio os levou a gravar um vídeo denunciando o ocorrido. O caso rapidamente chegou ao conhecimento da deputada estadual Rosa Amorim (PT), que cresceu no MST. Ela divulgou o caso nas suas redes sociais e acionou as autoridades pernambucanas sobre a situação.
— Esse vídeo teve mais de 100 mil visualizações no Instagram. Depois disso eles recuaram. Já nos chegou a informação de que não vai mais ter briga por essas terras — comemora ‘Kaká’.
A jovem líder rural considera que a visibilidade do caso garantiu a segurança coletiva.
— Ainda chegaram a mandar ameaças, mas só para amedrontar. Mas agora todo mundo conhece Camocim, já sabem quem são eles. Eles não entraram mais aqui, mas já os vimos circulando na estrada outras vezes — resumiu G. Sua vizinha J. diz que têm sido comum ver drones sobrevoando a comunidade.