A tensão aumentou depois que o site Axios publicou uma reportagem citando supostos relatórios de inteligência segundo os quais Cuba teria adquirido mais de 300 drones militares.
Por Redação, com RFI – de Washington, Havana
A relação entre Cuba e os Estados Unidos voltou a se deteriorar nos últimos dias após uma nova rodada de sanções anunciada por Washington contra integrantes do governo e órgãos de segurança cubanos.

A tensão aumentou depois que o site Axios publicou uma reportagem citando supostos relatórios de inteligência segundo os quais Cuba teria adquirido mais de 300 drones militares e discutido possíveis ataques contra a base naval norte-americana de Guantánamo, embarcações dos EUA e até Key West, na Flórida.
Até o momento, o governo norte-americano não apresentou publicamente provas dessas acusações, mas o tema rapidamente ganhou repercussão em Washington e alimentou o debate sobre segurança nacional e sobre a política dos Estados Unidos para Cuba.
A reação de Havana foi imediata. O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, afirmou que qualquer ação militar norte-americana provocaria um “banho de sangue”, com consequências imprevisíveis para a estabilidade regional. Em uma publicação nas redes sociais, ele declarou que Cuba “não representa uma ameaça”.
O chanceler cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, acusou os Estados Unidos de tentarem construir um “caso fraudulento” para justificar uma possível intervenção militar. Segundo ele, Cuba tem direito à autodefesa, como qualquer outro país, de acordo com a Carta da ONU e o direito internacional.
Indiciamento de Raúl Castro deve ser anunciado esta semana.
A expectativa de um indiciamento do ex-presidente cubano Raúl Castro é vista como mais um passo no endurecimento da política norte-americana contra Havana. Segundo a imprensa dos Estados Unidos, promotores federais devem apresentar acusações relacionadas ao episódio de 1996, em que aviões do grupo “Brothers to the Rescue” foram derrubados perto de Cuba, causando a morte de quatro pessoas.
O anúncio deve ocorrer nesta quarta-feira, em Miami, durante uma cerimônia em homenagem às vítimas, em uma data simbólica ligada à independência cubana. Caso seja confirmado, o indiciamento representaria uma forte escalada diplomática e política entre os dois países.
A tensão já vinha aumentando desde a prisão de Nicolás Maduro, aliado histórico de Havana, e da ampliação das sanções americanas contra Cuba, que enfrenta hoje uma grave crise econômica e energética. O governo cubano acusa Washington de usar acusações políticas e medidas econômicas para pressionar a ilha e tentar provocar uma mudança de regime.
Sanções
O Departamento de Estado anunciou, na segunda-feira, uma nova rodada de sanções contra 11 integrantes da elite política e militar cubana e três órgãos centrais do aparato de segurança do país.
Entre as instituições atingidas estão o Ministério do Interior de Cuba, responsável pela segurança interna e pelos serviços de inteligência; a Polícia Nacional Revolucionária, acusada pelos Estados Unidos de reprimir protestos; e a Direção de Inteligência cubana.
As sanções bloqueiam eventuais bens e interesses dessas entidades sob jurisdição americana e ampliam as restrições para empresas e instituições financeiras estrangeiras que mantenham relações com os alvos punidos. O governo Trump também deu prazo até 5 de junho para que companhias internacionais rompam vínculos com empresas cubanas ligadas ao conglomerado militar GAESA, sob risco de sanções secundárias.
O secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que os sancionados são responsáveis pela crise econômica cubana, pela repressão interna e pelo uso da ilha em operações de inteligência e segurança. Ele também avisou que novas medidas devem ser anunciadas “nos próximos dias e semanas”, sinalizando um novo endurecimento da política americana contra Havana.
Controvérsia
No começo de maio, Marco Rubio afirmou que Cuba teria recusado uma oferta de US$ 100 milhões em ajuda humanitária dos Estados Unidos.
Segundo Rubio, Washington queria ampliar a assistência enviada à população cubana, mas o governo da ilha estaria impedindo a distribuição da ajuda. Havana reagiu rapidamente. O chanceler cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, negou que essa oferta tenha existido e acusou os Estados Unidos de mentirem para justificar o endurecimento das sanções contra o país.
Ao mesmo tempo, o Departamento do Tesouro norte-americano publicou uma licença temporária autorizando, até junho, operações ligadas à entrega e descarga de petróleo e derivados russos carregados antes de 17 de abril, inclusive por navios sancionados. A medida mostra como a questão energética segue no centro da crise, já que Cuba depende fortemente do petróleo importado de aliados como Rússia e Venezuela para tentar amenizar a falta de combustível na ilha.