Rio de Janeiro, 24 de Julho de 2026

Estudo revela concentração de mortes em ações policiais na Baixada

Levantamento da IDMJRacial identifica que letalidade policial é maior em áreas dominadas pelo CV e aponta aumento da participação da Polícia Civil nas ações.

Sexta, 24 de Julho de 2026 às 13:14, por: CdB

Levantamento da IDMJRacial identifica que letalidade policial é maior em áreas dominadas pelo CV e aponta aumento da participação da Polícia Civil nas ações.

Por Redação, com Agenda do Poder – do Rio de Janeiro

A maior parte das mortes registradas em operações policiais na Baixada Fluminense entre 2020 e 2025 ocorreu em territórios apontados como áreas de influência do Comando Vermelho (CV). É o que revela um estudo divulgado nesta sexta-feira pela Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJRacial), que foi divulgado por reportagem do diário conservador paulistano Folha de S. Paulo. A pesquisa analisou a distribuição territorial das ações das forças de segurança e seus impactos na região.

Comando Vermelho

Segundo o levantamento, cinco dos 13 municípios da Baixada concentram 75% de todas as mortes ocorridas em operações policiais no período. Os dados abrangem Duque de Caxias, Belford Roxo, São João de Meriti, Nova Iguaçu e Japeri, cidades que também registram elevado número de confrontos e operações contra organizações criminosas.

A pesquisa contabilizou 5.298 operações policiais entre 2020 e 2025. Nesse intervalo, foram registrados 282 mortos, 652 feridos, 5.783 prisões e 41 adolescentes apreendidos.

Duque de Caxias lidera o ranking de letalidade, com 66 mortes e 160 feridos. Em seguida aparecem Belford Roxo, com 48 mortos e 127 feridos, e São João de Meriti, que contabilizou 41 mortes e 77 pessoas feridas durante ações policiais.

CV

A IDMJRacial afirma que a análise foi realizada considerando os bairros e localidades onde ocorreram as operações, e não a totalidade dos municípios. Segundo a entidade, isso explica a associação entre os locais mais atingidos e áreas identificadas como dominadas pelo Comando Vermelho.

De acordo com a pesquisadora Kharine Gil, responsável pela coleta e análise dos dados, o estudo encontrou uma convergência entre a distribuição territorial das operações e a presença da facção criminosa.

– Existe uma concentração tanto territorial quanto por unidade policial – afirmou Kharine à Folha.

A pesquisa também identificou concentração das operações em determinados batalhões da Polícia Militar.

O 15º BPM, responsável pelo policiamento em Duque de Caxias, foi a unidade que mais realizou operações na Baixada Fluminense no período analisado, com 1.289 ações. Também liderou o número de mortes, com 71 vítimas, além de registrar 142 pessoas feridas.

Na sequência aparece o 20º BPM, que atua em Nova Iguaçu, Nilópolis e Mesquita. A unidade contabilizou 1.034 operações, 51 mortes e 156 feridos.

Já o 39º BPM, responsável por Belford Roxo, realizou 569 operações, com 45 mortos e 120 feridos.

Polícia Civil

Embora a Polícia Militar tenha participado de 86% das operações identificadas pela pesquisa, o levantamento aponta um crescimento expressivo da atuação da Polícia Civil na Baixada Fluminense.

Segundo os dados, o número de operações conduzidas pela corporação passou de 47, em 2020, para 336 em 2024, um aumento de 614%.

Em 2025, foram registradas 66 operações da Polícia Civil. Destas, 12 resultaram em pelo menos uma morte.

A IDMJRacial afirma que, com isso, a taxa de letalidade das operações da corporação — calculada pela relação entre o número de mortes e o total de operações — passou de 2% em 2024 para 18% neste ano.

O estudo também observa que houve redução no número total de operações ao longo dos últimos anos, mas sem queda proporcional da letalidade.

Foram registradas 1.486 operações em 2022. Esse número caiu para 1.233 em 2023, depois para 1.061 em 2024 e chegou a 655 em 2025.

A pesquisadora ressalta, porém, que os dados referentes a 2024 podem estar subnotificados. Segundo ela, durante parte daquele ano a Polícia Militar deixou de publicar registros no X (antigo Twitter), em razão da suspensão da plataforma no Brasil, migrando temporariamente para o Bluesky.

Os rádios comunicadores aparecem mais que fuzis entre apreensões.

Outro aspecto destacado pelo levantamento diz respeito ao material apreendido durante as operações.

As pistolas representaram 21% dos registros, enquanto rádios comunicadores corresponderam a 19,9% das apreensões. Os fuzis apareceram em apenas 5,5% das ocorrências analisadas.

Para a IDMJRacial, os dados levantam questionamentos sobre a proporcionalidade da força empregada nas operações diante do armamento efetivamente encontrado.

– Quando a gente vai observar os objetos que estão sendo apreendidos, rádio comunicador ganha – afirmou Kharine.

Segundo a pesquisadora, em diversas ocorrências analisadas foram registrados apenas rádios comunicadores, pequenas quantidades de drogas ou outros objetos, sem apreensão de armamento de alto poder ofensivo.

Operações

A pesquisa também contabilizou 257 operações destinadas exclusivamente à retirada de barricadas instaladas por criminosos entre 2020 e 2025.

Somente neste ano foram registradas 71 ações desse tipo.

O levantamento cita o programa Barricada Zero, lançado inicialmente em Belford Roxo pelo então prefeito Márcio Canella e posteriormente expandido pelo Governo do Estado.

Na avaliação da pesquisadora, essas operações costumam provocar confrontos e alterar a rotina das comunidades sem impedir, necessariamente, a reconstrução das estruturas utilizadas pelos criminosos.

– A presença da polícia nesses espaços é violenta – afirmou.

A IDMJRacial ressalta ainda que os números sobre mortos, feridos, presos e adolescentes apreendidos refletem exclusivamente as informações divulgadas pelas corporações no momento das operações, sem acompanhamento posterior sobre eventual evolução clínica dos feridos ou sobre o encaminhamento dos adolescentes ao sistema socioeducativo.

A Polícia Civil atribui ações ao combate ao crime organizado.

Em nota, a Polícia Civil informou que o aumento das operações está relacionado à retomada integral das atividades após o período de restrições provocado pela pandemia da Covid-19 e à criação de novas delegacias especializadas na Baixada Fluminense.

Segundo a corporação, as ações têm como objetivo cumprir mandados judiciais, prender criminosos e ampliar a proteção da população.

A instituição também afirmou que a concentração de operações em determinados territórios decorre da presença de organizações criminosas fortemente armadas nessas regiões.

“A Polícia Civil não planeja confrontos, mas operações de polícia judiciária. A reação armada parte de criminosos que optam por enfrentar o Estado. Quando há rendição, há prisão; quando há ataque com armas de guerra, a resposta policial ocorre nos estritos limites da lei.”

A Polícia Militar foi procurada para comentar os resultados do levantamento, mas não se manifestou até a divulgação da pesquisa.

Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, citados no estudo, o Estado do Rio de Janeiro registrou redução de 20,7% na taxa de mortes violentas entre 2020 e 2025, passando de 28,5 para 22,6 casos por 100 mil habitantes.

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