Avanço da frota muda o trabalho dos reparadores e exige capacitação em alta tensão, eletrônica, baterias e diagnóstico integrado
Por Sérgio Dias – de São Paulo
A expansão dos veículos eletrificados no Brasil começa a transformar o mercado de trabalho nas oficinas. Procedimentos associados aos motores a combustão dividem espaço com sistemas de alta tensão, eletrônica de potência, baterias e redes de comunicação, exigindo formação técnica para diagnosticar falhas sem expor trabalhadores e veículos a riscos.

“A Tramontina PRO está sempre acompanhando o mercado. Apoiamos e viabilizamos a transição energética do setor automotivo, oferecendo a infraestrutura necessária para que os veículos de baixa emissão continuem rodando com segurança”, afirma Felisberto Moraes, diretor comercial da Tramontina.
Dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico apontam 215.023 unidades comercializadas entre janeiro e junho. O volume supera em 125% as 95.493 registradas no mesmo período de 2025. No primeiro semestre de 2016, haviam sido vendidos somente 451 veículos, o que mostra a velocidade da mudança enfrentada pelo setor de reparação.
Formação sob pressão
O avanço da frota não elimina a necessidade das oficinas, embora os veículos elétricos possuam menos componentes mecânicos sujeitos à manutenção periódica. Parte do trabalho migra para a interpretação de dados e para o exame conjunto de sistemas elétricos, eletrônicos e térmicos antes da substituição de uma peça.
“Ela passa pelo diagnóstico de um sistema eletromecânico integrado, no qual alta tensão, eletrônica de potência, comunicação entre módulos, gerenciamento térmico e estratégias de controle precisam ser analisados em conjunto”, explica Nelson Fernando da Silva, especialista em Veículos Elétricos pela Escola do Mecânico.
O reparador precisa identificar por que o sistema limitou, desenergizou ou impediu o funcionamento do veículo. Uma falha percebida em determinado componente pode ter origem na temperatura, na alimentação elétrica, na comunicação entre módulos ou em uma estratégia de proteção programada para evitar danos.
Segurança na manutenção
O contato com sistemas de alta tensão acrescenta riscos de choque elétrico e curto-circuito. Ferramentas isoladas reduzem a possibilidade de estabelecer um caminho elétrico ou conectar potenciais diferentes, mas precisam integrar uma sequência que inclua isolamento da área, identificação dos circuitos, desenergização e verificação antes da intervenção.
A mudança também alcança escolas, oficinas e empresas responsáveis pela formação dos profissionais. Baterias, eletrônica de potência, redes de comunicação, gerenciamento térmico, equipamentos de diagnóstico e análise de dados passam a fazer parte do conhecimento necessário para atuar na manutenção dos veículos eletrificados.
A eletrificação, portanto, altera a função exercida pelo mecânico. A capacidade de substituir componentes continua necessária, mas deixa de ser suficiente. O trabalho passa a depender da identificação da causa da falha e da compreensão das decisões tomadas pelos sistemas eletrônicos antes que qualquer reparo seja iniciado.