Rio de Janeiro, 17 de Agosto de 2026

A Economia da Barbárie - um ensaio de Arlindenor Pedro

Por Arlindenor Pedro - As interpretações mais difundidas partem de um conjunto de explicações conhecidas.

Segunda, 17 de Agosto de 2026 às 11:01, por: Arlindenor Pedro
A Face do Arrego- Cunca Bocayuva

No primeiro ensaio desta série procurei sustentar que a barbárie mudou de natureza. Ela já não pode ser compreendida apenas como aquilo que emerge quando a ordem social entra em colapso, quando o Estado perde o controle de seus territórios ou quando a violência substitui provisoriamente as instituições. A transformação que caracteriza o nosso tempo é mais profunda. A barbárie desenvolve-se no interior da própria sociedade capitalista, convive com suas instituições, articula-se com seus mercados e começa a desempenhar funções econômicas permanentes. Se essa constatação estiver correta, as explicações tradicionais sobre o crescimento da criminalidade organizada, dos mercados ilícitos e da violência contemporânea tornam-se insuficientes. Elas descrevem manifestações reais da crise, mas não alcançam o processo histórico que lhes dá unidade.

As interpretações mais difundidas partem de um conjunto de explicações conhecidas. Algumas atribuem o crescimento dos mercados ilícitos ao fortalecimento das organizações criminosas. Outras destacam a corrupção das instituições, a pobreza, a desigualdade social, a fragilidade das fronteiras, o desemprego, a precarização do trabalho, a insuficiência das políticas públicas, a globalização dos mercados ou as novas tecnologias de comunicação e circulação financeira. Nenhum desses fatores pode ser simplesmente descartado. Todos participam, em diferentes graus, da realidade que pretendemos compreender. O problema surge quando são transformados em causas autônomas e suficientes. Eles permitem explicar como determinados processos funcionam, mas não por que tantos deles se intensificam simultaneamente e passam a ocupar uma posição cada vez mais relevante na reprodução econômica contemporânea.

Foi essa insuficiência que me chamou a atenção ao ler uma matéria publicada no jornal A Folha de São Paulo sobre a expansão dos mercados ilícitos na América Latina. O diagnóstico apresentado era grave e consistente: narcotráfico, contrabando, mineração ilegal, comércio clandestino e lavagem de dinheiro movimentam volumes extraordinários de recursos, reduzem a arrecadação dos Estados, financiam organizações armadas e atravessam fronteiras nacionais com uma eficiência cada vez maior. Diante disso, a resposta proposta segue um caminho conhecido: ampliar a cooperação internacional, fortalecer os sistemas de inteligência, aperfeiçoar a fiscalização financeira, controlar fronteiras e aumentar a capacidade repressiva dos Estados. Não existe razão para desprezar essas medidas. Elas podem produzir resultados concretos diante de determinados crimes. O limite encontra-se em imaginar que a descrição dos mecanismos de combate também ofereça uma explicação para a origem do fenômeno.

Combater uma determinada organização criminosa não explica por que outras ocupam continuamente os espaços deixados por ela. Fechar uma rota do narcotráfico não esclarece por que novas rotas aparecem. Desarticular uma rede de lavagem de dinheiro não explica por que a economia mundial oferece continuamente mecanismos capazes de absorver e reintegrar enormes volumes de recursos provenientes de atividades ilícitas. A repressão atua sobre os agentes e sobre os circuitos particulares através dos quais a economia ilegal se realiza, mas permanece incapaz de responder à pergunta fundamental: por que essas atividades encontraram condições econômicas, sociais e políticas tão favoráveis para sua expansão no capitalismo contemporâneo?

É nesse ponto que a concepção de uma economia formal ameaçada de fora por uma economia criminosa começa a revelar seus limites. Essa representação pressupõe dois mundos relativamente separados. De um lado estaria uma economia legal, constituída por empresas, trabalhadores, bancos, mercados financeiros e instituições submetidas às normas estatais de uma sociedade capitalista.De outro, uma economia clandestina que procuraria penetrar nesse universo para lavar os recursos obtidos ilegalmente. A realidade é muito mais complexa. Os mercados ilícitos utilizam redes logísticas internacionais, estruturas empresariais, sistemas financeiros, tecnologias digitais, empresas legalmente constituídas e mecanismos de investimento que pertencem integralmente à economia formal. O dinheiro obtido ilegalmente não permanece numa esfera econômica própria. Precisa converter-se em imóveis, terras, empresas, mercadorias, investimentos e ativos financeiros. Precisa circular e retornar ao processo de acumulação.

Essa circulação não elimina a diferença jurídica entre legalidade e ilegalidade, mas demonstra que ela não corresponde a uma separação econômica absoluta. O dinheiro proveniente do narcotráfico, depois de lavado, pode financiar a construção civil, adquirir propriedades ou integrar operações financeiras. O ouro extraído ilegalmente pode atravessar diferentes intermediários até ingressar numa cadeia produtiva internacional perfeitamente regular. Produtos provenientes da exploração clandestina de recursos naturais podem percorrer as mesmas estruturas comerciais e logísticas que movimentam mercadorias legais. Em determinado momento, a origem ilícita da riqueza torna-se praticamente invisível no interior do circuito econômico que a absorveu. O capital incorporado a esse processo passa a obedecer ao mesmo imperativo que governa toda acumulação capitalista: preservar-se, expandir-se e transformar dinheiro em mais dinheiro.

Atribuir tal fenômeno a existência de corrupção tampouco resolve o problema. Ela constitui uma condição importante para o funcionamento de muitos mercados ilícitos, mas utilizá-la como explicação definitiva significa transformar aquilo que deve ser investigado em causa suficiente. É necessário perguntar por que as instituições se tornam permeáveis à captura privada, por que determinadas funções estatais podem ser negociadas, por que agentes econômicos legais e ilegais conseguem estabelecer relações permanentes com partes do aparelho público. A corrupção não está situada fora da sociedade que a produz. Ela exprime relações econômicas e políticas concretas. O mesmo vale para a chamada fragilidade estatal. Dizer que o crime organizado avança porque o Estado perdeu capacidade de controlá-lo apenas desloca a questão para outro lugar. A pergunta inevitável continua sendo: por que o Estado perde essa capacidade?

A pobreza e a desigualdade, por sua vez, são indispensáveis para compreender a base social sobre a qual muitas dessas organizações se expandem, mas também não bastam. Sociedades profundamente desiguais acompanharam toda a história do capitalismo. O que precisa ser explicado é por que, nas condições contemporâneas, a exclusão social, a precarização e a ausência de perspectivas passam a articular-se a organizações transnacionais capazes de controlar territórios, movimentar enormes volumes de recursos, administrar complexas cadeias comerciais e integrar seus capitais ao sistema financeiro mundial. A pobreza ajuda a explicar por que determinados indivíduos podem ser recrutados para essas atividades. Não explica a estrutura econômica que transforma esse contingente humano numa parte de organizações que operam segundo a lógica de grandes empreendimentos internacionais.

Também a globalização aparece frequentemente como explicação suficiente. Não há dúvida de que a internacionalização das cadeias produtivas, a liberalização dos fluxos financeiros, a velocidade das comunicações e a expansão das redes mundiais de transporte produziram condições extraordinárias para a circulação de mercadorias ilícitas e capitais clandestinos. Mas a globalização explica sobretudo os meios pelos quais essa circulação se realiza. Ela não explica por que esses circuitos adquirem importância crescente. As mesmas estruturas que permitiram às empresas organizar cadeias produtivas em diferentes continentes permitiram às organizações criminosas internacionalizar suas atividades. A infraestrutura é compartilhada. A pergunta histórica, no entanto, permanece: por que formas econômicas fundadas na violência e na ilegalidade passaram a utilizar essa infraestrutura com tamanha intensidade e a movimentar parcelas tão significativas da riqueza mundial?

As novas tecnologias reproduzem o mesmo problema explicativo. Criptografia, plataformas digitais, sistemas eletrônicos de pagamento, ativos virtuais, inteligência artificial e redes globais de comunicação modificaram profundamente a capacidade operacional das organizações ilícitas. Fraudes financeiras podem ser executadas a milhares de quilômetros de distância, recursos podem atravessar diferentes jurisdições em poucos minutos e redes criminosas podem coordenar atividades em diferentes continentes. Entretanto, transformar a tecnologia em causa significa novamente confundir instrumento com determinação histórica. A tecnologia amplia capacidades existentes, reorganiza relações sociais e abre novas possibilidades de atuação, mas não explica o processo econômico que transforma essas possibilidades em formas permanentes de acumulação.

Chega-se, assim, a um ponto decisivo desta reflexão. As interpretações convencionais não são falsas. O problema está precisamente no fato de serem verdadeiras apenas parcialmente. Corrupção, desigualdade, pobreza, enfraquecimento estatal, globalização, inovação tecnológica e expansão do crime organizado constituem dimensões concretas de uma mesma realidade. Quando observadas separadamente, produzem explicações fragmentadas. Quando reunidas, revelam a existência de um processo que ultrapassa cada uma delas. Há uma transformação histórica mais profunda atingindo simultaneamente o trabalho, o mercado, o Estado, os territórios e as formas de exercício do poder. É essa transformação que necessita ser explicada.

A questão, portanto, não consiste em escolher entre uma interpretação econômica, social, institucional ou policial. Consiste em descobrir a determinação comum capaz de explicar por que todas essas manifestações aparecem simultaneamente. Perguntar por que o crime organizado cresceu concentra a análise nos agentes. Perguntar por que o Estado se enfraqueceu concentra a análise nas instituições. Perguntar por que aumentou a corrupção desloca a atenção para comportamentos individuais ou redes de interesses. Perguntar por que a pobreza favorece determinadas organizações concentra a atenção sobre suas bases de recrutamento. Todas essas perguntas possuem legitimidade, mas nenhuma delas atinge o núcleo da transformação que estamos procurando compreender.

A pergunta precisa ser formulada em outro nível: o que aconteceu com a própria reprodução capitalista para que modalidades de acumulação baseadas na violência, na espoliação, no controle territorial e na ilegalidade passassem a ocupar um lugar econômico cada vez mais importante? Essa mudança aparentemente simples altera toda a direção da investigação. O crescimento dos mercados ilícitos deixa de ser percebido apenas como uma ameaça externa a uma economia essencialmente saudável. Ele passa a ser analisado como expressão de transformações ocorridas no interior do próprio processo de reprodução capitalista.

Essa inversão também impede uma conclusão confortável segundo a qual bastaria restaurar a capacidade do Estado, reduzir a corrupção, aumentar a fiscalização ou aperfeiçoar os mecanismos de repressão para que a normalidade fosse restabelecida. Essas medidas podem interferir sobre determinadas manifestações da crise, mas não alcançam necessariamente as condições que as reproduzem. Quando uma forma econômica consegue integrar simultaneamente violência, controle territorial, circulação internacional de mercadorias, sistema financeiro e instituições legalmente estabelecidas, já não estamos diante de uma simples anomalia localizada nas margens do mercado. Estamos diante de algo que pertence à própria dinâmica histórica da sociedade que produziu essas relações.

É nesse ponto que as interpretações convencionais alcançam seu limite. Elas conseguem explicar os mecanismos através dos quais a barbárie se organiza, mas não conseguem explicar por que ela encontra condições crescentes para organizar-se dessa forma. Descrevem com precisão organizações, rotas, mercados, tecnologias, redes financeiras e sistemas de corrupção, mas permanecem diante de uma coleção de fenômenos aparentemente distintos. Falta-lhes uma explicação capaz de revelar a unidade histórica existente entre eles.

Para encontrá-la é necessário deslocar a investigação do plano das manifestações para o plano da própria reprodução social. Antes de perguntar como eliminar os mercados ilícitos, é preciso compreender por que eles prosperam. Antes de atribuir ao Estado a incapacidade de impedir sua expansão, é preciso compreender por que a capacidade estatal entra em crise. Antes de interpretar a violência como uma força externa que invade a economia, é preciso investigar o processo que permite à violência integrar-se progressivamente aos seus circuitos.

A questão deixa, portanto, o terreno exclusivo da segurança pública e entra definitivamente no campo da crítica da economia política. Compreender a economia da barbárie exige compreender primeiro aquilo que está acontecendo com a própria capacidade do capitalismo de produzir valor, integrar populações através do trabalho e sustentar materialmente as instituições que organizaram sua reprodução histórica.

Há já algum tempo, os teóricos ligados à Crítica do Valor vêm se debruçando sobre a crise estrutural do capitalismo e oferecendo instrumentos decisivos para uma compreensão mais abrangente da barbárie contemporânea. Suas análises permitem ultrapassar as explicações imediatas, centradas apenas na violência, na criminalidade, na corrupção ou no enfraquecimento dos Estados, e situar esses fenômenos no interior de uma crise mais profunda da própria reprodução social capitalista. No Brasil, Marildo Menegat desenvolveu esforços importantes nessa direção, examinando a barbárie como expressão interna da crise da sociedade moderna e não como simples regressão exterior à ordem capitalista. Em outra chave teórica, mas igualmente atento ao esgotamento das promessas de progresso da modernidade, Paulo Arantes, da Universidade de São Paulo, também tem contribuído para pensar a emergência permanente, a violência e a decomposição social características do capitalismo contemporâneo. Esses autores, entre outros, fornecem elementos indispensáveis para compreender que a barbárie não surge apenas quando o capitalismo deixa de funcionar, mas pode constituir uma das formas históricas assumidas por seu próprio funcionamento em crise. É nessa chuva teórica, formada por contribuições diversas mas convergentes na crítica do presente, que pretendo sedimentar a tese desenvolvida neste ensaio: a de que a barbárie deixou de ser apenas consequência da crise capitalista e passou a integrar suas próprias formas de reprodução.

A crítica do valor desloca o foco da distribuição para a própria produção da riqueza capitalista. Seu ponto de partida é decisivo: o capital só se valoriza através do trabalho abstrato, mas o desenvolvimento histórico das forças produtivas reduz progressivamente a quantidade de trabalho vivo necessária à produção de mercadorias. A automação, a digitalização e o aumento contínuo da produtividade não resolvem essa contradição. Ao contrário, aprofundam-na. O capitalismo elimina justamente a substância social da qual depende para produzir valor. É nessa contradição que se encontra a chave para compreender por que a crise contemporânea não pode ser reduzida a uma sucessão de recessões, falhas de regulação ou desequilíbrios financeiros.

A partir daí, torna-se possível compreender também a crise do Estado sob outro ângulo. O Estado moderno não paira acima da economia. Sua capacidade de arrecadar, financiar políticas públicas, organizar territórios, garantir infraestrutura e exercer autoridade depende da própria expansão da valorização. Quando essa base material se estreita, o Estado não desaparece, mas perde progressivamente capacidade de integrar socialmente populações, financiar suas funções e manter de forma homogênea seu domínio sobre o território. O chamado enfraquecimento estatal deixa, então, de parecer uma simples falha administrativa ou política. Passa a ser entendido como manifestação da crise da própria reprodução social capitalista.

A mesma chave permite reinterpretar o crescimento de populações descartadas pela dinâmica econômica. Não se trata apenas de desemprego conjuntural. Trata-se da ampliação de contingentes humanos que já não conseguem ser incorporados de modo estável ao processo de valorização. São populações socialmente indispensáveis à vida coletiva, mas economicamente supérfluas para a lógica do capital. É nesse terreno que a precarização extrema, a informalidade permanente, as economias clandestinas e as formas violentas de controle social deixam de aparecer como desvios e passam a constituir mecanismos de administração de uma sociedade incapaz de integrar todos pela mediação do trabalho assalariado.

Também os mercados ilícitos ganham, assim, outro significado. Eles deixam de ser vistos apenas como atividades que prosperam onde o Estado falha e passam a ser compreendidos como formas de acumulação que se expandem no interior de uma crise mais ampla. A violência, a espoliação, o controle territorial, a captura de rendas e a apropriação direta da riqueza existente tornam-se economicamente mais relevantes justamente quando a produção de valor encontra limites crescentes. A relação entre economia legal e ilegal já não pode, portanto, ser explicada apenas em termos jurídicos. Ela precisa ser analisada como parte das transformações históricas da própria reprodução capitalista.

É nesse horizonte que a economia da barbárie começa a adquirir contornos mais nítidos. Para compreendê-la, será necessário investigar a crise do trabalho abstrato, a perda de substância da valorização, a expansão do capital fictício, o enfraquecimento material dos Estados e a produção de populações supérfluas. Esses processos não constituem temas separados. Formam uma mesma totalidade histórica.

É a essa crise estrutural do valor que será dedicado o próximo passo desta reflexão.

Serra da Mantiqueira, agosto de 2026

Arlindenor Pedro

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