Rio de Janeiro, 18 de Setembro de 2026

A direita sonha com Gilead

Por Jorge Panzera – “Quase um século depois, questionar o sufrágio feminino significa reabrir uma discussão sobre os limites da cidadania.”

Sexta, 18 de Setembro de 2026 às 09:49, por: CdB

“Quase um século depois, questionar o sufrágio feminino significa reabrir uma discussão sobre os limites da cidadania.”

Por Jorge Panzera – de Brasília

Em The Handmaid’s Tale, Margaret Atwood imaginou uma sociedade que retirou das mulheres aquilo que permite a alguém existir publicamente como indivíduo. Em Gilead, elas não controlam dinheiro, não trabalham livremente, não leem, não escolhem seus destinos e tampouco participam das decisões políticas. Sua existência é administrada por uma ordem masculina que encontra na religião a justificativa para transformar submissão em norma social. Atwood percebeu que regimes dessa natureza precisam primeiro estabelecer quem tem o direito de decidir e quem deve aceitar decisões tomadas em seu nome.

Em Gilead, elas não controlam dinheiro, não trabalham livremente, não leem, não escolhem seus destinos e tampouco participam das decisões políticas

Quarenta anos depois do lançamento do livro, o Brasil assiste ao reaparecimento de uma discussão que parecia sepultada desde a primeira metade do século XX. Influenciadores conservadores, integrantes da chamada machosfera, religiosos, algumas influencers mulheres e personagens associados à extrema direita começaram a questionar publicamente o sufrágio feminino. Algumas manifestações defendem o chamado “voto familiar”. Outras afirmam diretamente que conceder às mulheres o direito de votar teria sido um erro. A circulação dessas mensagens já ultrapassou pequenos fóruns de internet e provocou questionamentos fora dessas bolhas. A ministra Carmen Lúcia chegou a dar entrevista à BBC para comentar ideia tão estapafúrdia.

O momento escolhido para ressuscitar o assunto merece atenção. O Brasil chega à eleição de 2026 com aproximadamente 158,7 milhões de eleitores, dos quais 83,9 milhões são mulheres. Elas correspondem a 52,84% do eleitorado. Qualquer força política que tenha dificuldades relevantes nesse segmento encontra pela frente uma questão eleitoral de grandes proporções.

As pesquisas realizadas em setembro registram diferenças importantes entre homens e mulheres. No Datafolha divulgado em 11 de setembro, Lula tinha 41% entre as eleitoras e Flávio Bolsonaro, 30%. Entre os homens, Flávio aparecia com 40% e Lula com 36%. No recorte de renda, Lula alcançava 47% entre os eleitores que recebem até dois salários mínimos, enquanto Flávio registrava 27%. Pesquisas posteriores indicaram redução de algumas dessas diferenças, inclusive entre as mulheres, o que recomenda cuidado com qualquer tentativa de transformar fotografia eleitoral em comportamento consolidado.

Mesmo assim, gênero e renda aparecem como variáveis importantes para compreender uma parcela numericamente enorme da população brasileira, a de mulheres pobres e trabalhadoras, muitas delas responsáveis pelo sustento cotidiano da família e residentes nas periferias das grandes e médias cidades.

Mulheres

A categoria “mulher”, sozinha, explica pouco. Uma trabalhadora da periferia pode ser evangélica, negra ou parda, mãe, chefe de família, assalariada ou informal. Pode frequentar uma igreja cuja liderança apoia determinado candidato e chegar à urna com outra escolha. Pode discordar do marido, dos filhos, dos vizinhos, do patrão ou do pastor. Não existe contradição nisso. Existe exercício individual da cidadania.

Esse ponto costuma desaparecer quando a política brasileira fala no “voto evangélico” como se milhões de pessoas formassem uma congregação eleitoral disciplinada. Igrejas possuem influência, algumas lideranças religiosas transformaram essa influência em máquinas políticas eficientes e há denominações profundamente integradas à direita brasileira. Nada disso autoriza concluir que uma mulher religiosa transfira automaticamente sua decisão eleitoral a uma autoridade masculina.

A experiência concreta também interfere na maneira como essas mulheres percebem governos e eleições. Para uma família que vive com poucos salários mínimos, inflação não chega primeiro como percentual divulgado pelo Banco Central ou pelo IBGE. Aparece na quantidade de comida que o dinheiro permite levar para casa. Política de saúde é o posto que atende ou não atende. Educação pública é a escola onde os filhos estudam. Transporte são as horas gastas diariamente entre casa e trabalho. Segurança pública pode significar violência doméstica, domínio armado do bairro ou a preocupação com a abordagem policial sofrida por um filho.

As mulheres que administram essas casas mantêm uma relação cotidiana com políticas públicas. Isso não determina em quem votarão. Ajuda, porém, a compreender por que sua percepção sobre governo não pode ser reduzida às disputas culturais que dominam boa parte das redes sociais.

Para a esquerda, há aí um problema que não será resolvido por uma campanha publicitária dirigida às mulheres algumas semanas antes da votação. Mulheres periféricas não constituem um nicho eleitoral recém-descoberto. Elas estão nas escolas, unidades de saúde, associações comunitárias, igrejas, pequenos comércios, movimentos por moradia, redes familiares e organizações locais. Frequentemente administram economias domésticas submetidas a qualquer alteração no preço dos alimentos, gás, energia e transporte.

A esquerda brasileira perdeu presença em parte desses territórios enquanto organizações religiosas ampliaram sua atuação cotidiana. Reconhecer isso não significa tratar as igrejas como adversárias políticas em bloco, mas perceber que política também se organiza pela presença. Quem está no bairro durante anos estabelece relações que dificilmente serão substituídas por comunicação eleitoral produzida a quilômetros dali.

Também seria um erro responder a essa ausência imaginando a mulher periférica como personagem naturalmente progressista. Não é. Mulheres pobres podem ser conservadoras, liberais, socialistas, religiosas, antipetistas, lulistas, bolsonaristas ou indiferentes às classificações ideológicas utilizadas pelos partidos. Podem mudar de voto entre uma eleição e outra. Sua autonomia inclui inclusive fazer escolhas que a esquerda considere equivocadas.

Esquerda

O desafio político da esquerda, portanto, não consiste em ensinar essas mulheres a votar. Consiste em ouvi-las sem pressupor que já conhece suas prioridades. Há uma diferença considerável entre falar sobre mulheres periféricas e construir presença política onde elas vivem.

O debate sobre o sufrágio feminino ajuda a perceber outra dimensão dessa disputa. Quando alguém propõe substituir votos individuais por um “voto familiar”, surge uma pergunta elementar, a de quem representaria politicamente a família?

A resposta quase nunca precisa ser pronunciada. A formulação parte de uma concepção na qual existe uma autoridade doméstica capaz de reunir diferentes vontades sob uma decisão única. Historicamente, essa autoridade tem sexo definido.

Gilead pode ser lembrada aqui sem transformar literatura em profecia. Atwood levou ao limite uma sociedade organizada segundo a ideia de que mulheres deveriam existir politicamente através dos homens. O elemento perturbador de sua ficção não está apenas nos rituais e na violência do regime. Está na racionalidade que os sustenta, onde mulheres deixam de ser indivíduos perante o Estado e passam a ser definidas pela função que exercem dentro de uma família organizada segundo uma hierarquia masculina.

O Brasil está muito distante dessa ficção. Também não seria correto atribuir a toda a direita brasileira a defesa do fim do voto feminino. O que pode ser constatado é a existência de grupos e influenciadores que começaram a colocar essa possibilidade em circulação. O problema político está precisamente no fato de a hipótese ter voltado a ser enunciada.

O sufrágio feminino foi incorporado à legislação eleitoral brasileira em 1932. Quase um século depois, questioná-lo significa reabrir uma discussão sobre os limites da cidadania. A proposta do “voto familiar” torna isso especialmente visível porque desloca o direito político da pessoa para uma instituição social, a família nuclear onde o homem é o cabeça, e precisa necessariamente escolher alguém para falar por ela.

A disputa eleitoral de 2026 coloca essa discussão diante de um dado difícil de ignorar: 83,9 milhões de eleitoras irão às urnas.

As mulheres das periferias ocupam uma posição particular nesse quadro porque nelas se cruzam algumas das grandes disputas brasileiras contemporâneas como renda, religião, trabalho, cuidado, segurança, acesso a serviços públicos e autonomia dentro da própria família. Quem pretende compreender seu comportamento eleitoral terá de abandonar a imagem confortável da mulher conduzida politicamente pelo marido ou pelo pastor. Também terá de abandonar a imagem igualmente cômoda da mulher pobre destinada a votar na esquerda ou na direita.

Essa é uma tarefa importante para o campo progressista nesta eleição, a de recuperar uma política capaz de conversar com essas mulheres como cidadãs adultas, e não como segmento de marketing. Isso exige presença nas periferias, interlocução com mulheres religiosas sem hostilidade automática à fé, discussão material sobre renda e serviços públicos e atenção às formas de trabalho e organização familiar que mudaram profundamente nas últimas décadas. Tudo que a esquerda aos poucos foi deixando de fazer.

Em Gilead a decisão política fez exatamente o contrário. Começou por negar às mulheres a condição de indivíduos. No mundo de hoje há um movimento nada sutil em ir nessa direção. E no Brasil, numa eleição em que as mulheres formam a maioria do eleitorado, homens voltam a discutir se elas deveriam ter direito ao voto. A questão diz menos sobre a viabilidade concreta de retirar esse direito hoje do que sobre uma concepção de sociedade que ainda sobrevive em determinados ambientes de nossa sociedade, no qual a ideia de que a autonomia feminina é aceitável apenas enquanto não contraria a autoridade masculina.

A eleição colocará milhões de mulheres diante de escolhas diferentes, inclusive escolhas políticas conflitantes entre si. É justamente essa possibilidade de discordar, seja do marido, do pastor, da esquerda, da direita e umas das outras, que separa uma democracia da sociedade imaginada na ficção por Margaret Atwood.

 

Jorge Panzera, é presidente do PCdoB no Pará e membro do Comitê Central do PCdoB.

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