Rio de Janeiro, 12 de Setembro de 2026

Dia 15, terça-feira, lavagem de roupa suja no STF

Por Rui Martins - Assim, na próxima terça-feira, dia 15, já anulados os atos monocráticos de Mendonça, Moraes e Dino, haverá uma sessão plenária do STF, cuja pauta prevê as investigações de Mendonça sobre seu colega ministro Alexandre de Moraes.

O clima poderá degenerar, pois essa sessão plenária facilmente se converterá numa lavagem de roupa suja.

Sábado, 12 de Setembro de 2026 às 13:37, por: Rui Martins

Minha intenção era focar o comentário sobre a vitória da extrema direita alemã na eleição estadual da Saxônia-Anhalt. Embora seja uma região de apenas 2,3 milhões de habitantes, na parte oriental alemã, essa vitória tem um significado preocupante: pela primeira vez, desde a derrota do nazismo, a extrema direita, com o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) vence uma eleição e poderá, se obtiver maioria, governar essa região, abrindo caminho para conquistar outras regiões, como se as novas gerações alemãs desconhecessem a tragédia provocada pelo nacionalismo hitlerista, há menos de cem anos.

Por Rui Martins, editor do Direto da Redaçâo
O ministro bolsonarista André Mendonça acredita ser o dedo de Deus no STF

 

Entretanto, a crise dentro do Supremo Tribunal Federal se internacionalizou, com manchetes nos principais jornais europeus e justifica novos enfoques, mesmo porque depois do confronto entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes entrou em cena o ministro Flávio Dino e surgiu, um tanto tarde, o presidente do STF, Edson Fachin com um extintor tentando apagar o incêndio.

Assim, na próxima terça-feira, dia 15, já anulados os atos monocráticos de Mendonça, Moraes e Dino, haverá uma sessão plenária do STF, cuja pauta prevê as investigações de Mendonça sobre seu colega ministro Alexandre de Moraes.

O clima poderá degenerar, pois essa sessão plenária facilmente se converterá numa lavagem de roupa suja. Assim, a pauta prevista talvez nem seja discutida porque as investigações de Mendonça sobre Moraes, feitas sem consulta prévia dos demais ministros, poderão ser consideradas nulas.

Essas investigações infringiram regulamentos e se tornaram autoritárias e arbitrárias, pois Mendonça não tinha autoridade para isso, assim como não tinha autoridade para retirar Andrei Rodrigues da direção da Polícia Federal, ato já anulado mas que deu notoriedade a Mendonça junto ao eleitorado de direita e reforçou a candidatura de Flávio Bolsonaro.

Nas redes sociais evangélicas circulam histórias falaciosas sobre a intervenção de Deus na vida de Mendonça, com o aparente objetivo de transformá-lo num mito.

Paralelamente, a crise provocada por Mendonça mostra uma ressonância na parcela do eleitorado considerado até agora como indeciso. Isso é visível nas últimas sondagens, dando empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro, levando mesmo o conhecido Luís Nassif, do canal GGN, a temer a vitória da extrema direita, com todas suas funestas consequências.

Nesta altura, o caos instaurado no STF pelo ministro André Mendonça, também pastor evangélico, que se considera escolhido de Deus, já não parece mais um desentendimento entre juristas, seguido de denúncias e acusações.

Isso porque agora ficou evidente se tratar de uma bem calculada tentativa de golpe de Estado, disfarçada com toga de magistrado e apoio de Deus. Uma tentativa de golpe dentro do próprio STF, detonada a um mês das eleições com o objetivo eleitoral de provocar a derrota de Lula e assegurar a vitória do candidato praticamente sem programa de governo, cujas mentiras, repetidas nas entrevistas, o fazem parecer um verdadeiro Pinóquio.

O caos provocado pelo ministro-pastor no STF, que sempre evita dar sequência às investigações sobre Flávio Bolsonaro e suas ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro, deixa praticamente ignoradas as investigações sobre o dinheiro destinado ao filme Dark Horse.

Esse caos e o protegido silêncio sobre Flávio e suas relações com Vorcaro tinham um objetivo bem calibrado: influir no voto das pessoas mal informadas e juntar a isso o que seria o apoio de Deus, porque o ministro pastor acredita piamente ser um enviado de Deus.

Um enviado de Deus para provocar um golpe indireto, induzindo a  população evangélica a votar no Flávio rachadinha ao atacar o colega no STF Alexandre de Moraes, seu inimigo visceral, por ter impedido um golpe bolsonarista e por ter sido um dos principais responsáveis pela prisão de Jair  Bolsonaro.

Como um ministro do STF pode usar a internet para pedir e agradecer as orações de apoio de seus milhões de seguidores evangélicos, depois do caos criado no STF, introduzindo o fator religioso na crise e ignorando ser o Brasil um país laico?

Mendonça sabia muito bem que, ao recorrer aos evangélicos, transformados em importante força política, isso significava uma importante propaganda em favor de Flávio perto das eleições. Assim como a decisão monocrática de afastar Andrei Rodrigues da PF tinha o objetivo de proteger Flávio Bolsonaro, numa intervenção evidente nas eleições.

Mas uma coisa precisa ficar bem clara – não vivemos na Idade Média e nem o Brasil é a terra dos aiatolás: intervenção divina nas eleições por orações, igrejas e redes sociais é uma afronta à laicidade do regime institucional brasileiro e constitui ameaça de golpe de estado. Intervenção divina nas eleições constitui tentativa de golpe de estado e, se for consumada, é golpe.

E não se pode esquecer que essa intervenção divina no STF pode favorecer os EUA de Trump e Marco Rúbio e nos transformar em vassalos, com uma perda da nossa soberania logo depois da comemoração da nossa independência.

Fiquemos atentos, embora possa ocorrer dia 15 uma reversão da situação, voltando-se contra André Mendonça, não se pode esquecer: houve uma real tentativa de golpe dentro do STF, cujas consequências serão visíveis nas próximas sondagens eleitorais, podendo se prolongar até as eleições.

Algumas referências:

Mediapart

https://www.mediapart.fr/journal/fil-dactualites/090926/crise-la-cour-supreme-du-bresil-un-juge-reintegre-le-chef-de-la-police

Le Monde

https://www.linkedin.com/posts/la-cour-supr%C3%AAme-br%C3%A9silienne-%C3%A9branl%C3%A9e-par-share-7501478104020918274-yN4Y/

ggn – Nassif

https://jornalggn.com.br/justica-2/guerra-de-liminares-agrava-crise-no-stf-e-pressiona-fachin-por-reacao/

Metrópoles

https://www.metropoles.com/colunas/reinaldo-azevedo/decisao-sobre-andrei-e-ilegal-mendonca-savonarola-e-face-do-golpe

https://www.metropoles.com/brasil/decisao-de-dino-escala-crise-e-aumenta-pressao-sobre-fachin

BBC

https://www.bbc.com/portuguese/articles/c5y423dne20o

TVT

https://www.youtube.com/shorts/ipvQboxWo9Q

Aline Câmara

https://www.facebook.com/watch/?v=1672160864565321

Uol, Josias de Souza

https://noticias.uol.com.br/colunas/josias-de-souza/2026/09/09/mendonca-prova-que-o-inferno-existe-ao-enfiar-deus-na-crise.htm

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

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