Idosa morou por 70 anos no imóvel, mas perdeu apartamento após ele ser vendido para empresa que aumentou o aluguel em 275%. Ela teve apenas 30 minutos para sair do local e foi escoltada por policiais.
Por Redação, com DW – de Madri
Maricarmen Abascal viveu durante 70 anos no abastado bairro do Retiro, em Madri, ao lado do famoso parque homônimo, declarado Patrimônio Mundial pela Unesco. Ela sempre pagou seu aluguel em dia. No entanto, a idosa de 87 anos acabou sendo despejada nesta semana. E esse despejo dramático provocou protestos na capital espanhola na quarta-feira.

A aposentada passou anos envolvida em uma batalha judicial contra uma empresa que comprou seu apartamento. Abascal pagava um aluguel no valor de cerca de 500 euros por mês (cerca de R$ 2,9 mil). O novo proprietário do imóvel, porém, resolveu aumentar em 275% o valor do aluguel mensal, para 2.650 euros (aproximadamente R$ 15,6 mil), informou o Sindicato de Inquilinos de Madri.
A disputa chegou até a Suprema Corte da Espanha, que decidiu a favor da empresa e abriu caminho para o despejo. Com apenas 30 minutos para reunir seus pertences, Abascal foi escoltada por policiais da tropa de choque. Ela foi retirada de sua casa em uma maca e levada para uma ambulância.
– Vivo aqui há 71 anos e não quero sair – disse Abascal aos repórteres enquanto o despejo era realizado.
Despejo
Policiais retiraram à força dezenas de ativistas que haviam acampado em frente ao prédio de Abascal para tentar impedir o despejo, que acabou sendo executado sob gritos de “vergonha!” dos manifestantes.
Profissionais de saúde transportaram em uma maca a aposentada, que necessita de cadeira de rodas, até uma ambulância, enquanto os manifestantes gritavam “Maricarmen, você não está sozinha!” atrás de um cordão de segurança.
– Esta é uma tragédia social que não podemos aceitar – disse o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, a jornalistas em Nova York, onde o político participa da Assembleia Geral da ONU, criticando o papel das autoridades conservadoras da prefeitura de Madri.
O caso evidencia a crescente pressão sobre inquilinos de longa duração nas principais cidades da Espanha, onde os preços dos aluguéis dispararam nos últimos anos. A gentrificação e a escassez de moradias acessíveis têm alimentado o descontentamento popular.
Segundo o jornal espanhol El Pais, Abascal alugava o apartamento de um proprietário particular até 2018, quando uma empresa imobiliária adquiriu o imóvel e assumiu sua administração. Foi então que começou uma disputa judicial que durou quase oito anos. Esta foi a quarta tentativa de despejá-la da residência.
A advogada da idosa, Beatriz Duro, afirmou que a empresa imobiliária rejeitou tanto as propostas apresentadas pela equipe jurídica quanto os pedidos de adiamento da retirada da moradora do imóvel. A empresa não fez declarações públicas sobre o caso.
Proposta
A Anistia Internacional na Espanha denunciou “uma violação dos direitos humanos”. “Não é um caso isolado, é apenas mais um retrato do sofrimento vivido por milhares de famílias na Espanha”, afirmou a organização em comunicado.
Em uma entrevista para a emissora pública RTVE, Abascal classificou a empresa como “desumana, fazendo tudo para ganhar dinheiro”. “Não se pode fazer uma pessoa viver durante sete anos o que estou vivendo, com um facão na nuca, prestes a me cortar a qualquer momento”, disse, responsabilizando pela sua situação as autoridades nacionais, regionais e municipais.
A ministra da Habitação da Espanha, Isabel Rodríguez, insistiu que o governo de esquerda tentou várias vezes aprovar uma lei para proibir esse tipo de despejo. Sobre o tema, Sánchez afirmou que aprovar a lei “absolutamente necessária” era “uma responsabilidade compartilhada” entre sua coalizão de esquerda minoritária e o restante do parlamento.
À noite, centenas de pessoas se reuniram no centro de Madri para protestar contra o despejo de Abascal e exigir leis que regulamentem o mercado imobiliário.
Alicia del Rio, porta-voz da associação Inquilinas de Madri, afirmou que Abascal foi levada de ambulância para um hospital local. Segundo ela, uma escritora, que deseja permanecer anônima, se ofereceu para pagar o aluguel da idosa, mas a empresa imobiliária rejeitou a proposta.